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Hoje reencontrei o Humberto

por Catarina d´Oliveira, em 29.04.14

Foi um dia atribulado hoje, mas cheio de pequenas coisas - daquelas mesmo bonitas - que conseguem colorir o cenário mais negro.

 

Entre projetos - profissionais e pessoais - que arrancam com pompa e circunstância, tive alguns minutos para voltar à Rua Augusta, onde há alguns dias tinha encontrado pela primeira vez o Humberto.

 

Dei com ele praticamente no mesmo sítio da primeira vez, mas notei algo de diferente. Se no primeiro dia o achei esperançoso, hoje estava cabisbaixo, com aparência vencida.

 

"Olá companheiro... lembras-te de mim?". Ele mal levantou a cabeça para me acenar que sim. "Olha trago-te boas notícias! Escrevi sobre ti e imensa gente se mobilizou para ajudar... inclusivamente já me contactaram para a televisão e tudo. As pessoas querem mesmo ajudar-te, pá!".

 

Nem assim o venci. Encolheu os ombros e disse-me que já tinha tentado tudo, que ninguém deixava abrir o coração para ele. Dei-lhe um toque afetuoso nos ombros e disse-lhe que confiasse, que desta vez ia mesmo ser diferente. Mesmo assim, não o convenci. Pedi-lhe finalmente o número de telefone, vim embora depois de lhe voltar a deixar tudo o que tinha comigo na altura - faltavam-lhe 250€, passaram a faltar 230€.

 

 

A poucos metros, partilhei o contacto do Humberto com a pessoa que me tinha abordado sobre esta história para exposição televisiva e passados poucos minutos já tinham uma reportagem marcada para amanhã.

 

Não tive oportunidade de ver a expressão na cara dele, quando soube que era mesmo verdade, mas quero acreditar que o dia acabou melhor do que começou e que por ali se ganhou algum sorriso. A partir daqui é sempre a subir.

 

(Mais novidades em breve!)

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A sorte numa raspadinha

por Catarina d´Oliveira, em 28.04.14

Escreveu Ralph Waldo Emerson que "os Homens superficiais acreditam na sorte ou na circunstância; os Homens fortes acreditam na causa e efeito".

 

É verdade também que a sensação que dá às vezes é que temos o universo contra nós, e noutras ocasiões - mais raras talvez - que tudo nos corre de feição. Pouco percebo das questões de energias - positivas, negativas - mas talvez seja certo que cada uma atrai mais coisas das suas semelhantes, portanto em caso de dúvida, mais vale apostar no positivismo, mesmo quando parecem só chover sapos.

 

Mas voltando à questão da sorte - acredito pouco nela. Penso, como o senhor Emerson, que tudo parte - de alguma forma - das coisas que fazemos, ainda que haja - como temos de aceitar - coisas inexplicáveis a acontecer todos os dias. Aceitá-lo é difícil, especialmente quando a falta do "porquê" nos afinca os dentes a nós. Mas aceitá-lo é importante.

 

E quando falamos de sorte, podemos falar desde a coisa mais complexa - cruzarmo-nos na rua ou não com aquele que poderia ser o amor da nossa vida - ou a coisa mais simples e ligada à lei probabilística - ganhar a lotaria.

 

 

 

Causa - efeito.

 

Para ganhar a lotaria, precisas de comprar o bilhete, ou a raspadinha. O resto já não depende de ti, mas de uma complexa rede de possibilidades que estão fora do teu alcance. A única coisa que podes fazer é... raspar.

 

Um dia destes resolvi comprar duas raspadinhas para deixar por aí, para apostar com o destino que o meu investimento podia trazer algo a alguém - mesmo que não fosse o prémio, a possibilidade dele, a adrenalina dele, e a certeza de que - ganhando ou não - alguém acabaria a sorrir naquela história.

 

Acabei por oferecer uma a um bom amigo, o A. - daquelas pessoas que precisas na tua vida, porque até são brutas quando têm de ser, só porque veem ser essa a melhor forma de te ajudar, mesmo que umas vezes resulte, outras não, porque continuas a teimar na tua caturrice. A outra deixei-a por aí, a alguém que a queira raspar.

 

 

Pode ser que, para vocês, a sorte exista e sorria. E só posso esperar que assim seja.

 

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A voz distinta do senhor Joaquim

por Catarina d´Oliveira, em 26.04.14

Na rua atolada de formiguinhas atarefadas - a correr para o trabalho, para o almoço, para as compras - ouvia-se uma voz distinta a cantar aquilo que me pareceu um fado arraçado de cigano - sem que exista nesta expressão qualquer tipo de condenação ou maledicência anexada.

 

Segui até à origem das notas que rasgavam o ar já morninho de um dia de Primavera, cheguei-me ao pé dele e perguntei: "oh amigo... diga-me lá, já comeu hoje?".

 

Reparei que ficou meio confuso, mas lá me respondeu com meio sorriso que sim. "E já almoçou? Não quer vir almoçar comigo? Sempre me fazia ali companhia...".

 

Nesta altura então o Joaquim - era assim que se chamava - deve ter achado que eu era maluquinha. Completamente passada da marmita. Disse-me que não era preciso, que estava bem, e perguntou-me a razão do convite.

 

 

"Olhe porque me apetecia fazer uma coisa simpática por alguém. E gostava ouvir a sua história. Mas se não lhe apetece almoçar posso-lhe fazer companhia durante um bocadinho! Pode ser?".

 

Desta vez já não levei nega. Aproximei-me do aparato da bicibleta, três cães e um grande funil que fazia de megafone improvisado para desbravar algum terreno da história do Joaquim.

 

As aparências iludem, pelos vistos, porque felizmente não chama casa à calçada bonita mas gelada da capital. Vive numa loja perto de Santa Apolónia, onde diz guardar uma mota e outras bicicletas como a que hoje o trouxe até à Baixa.

 

"Fui carpinteiro durante mais de 30 anos... mas às tantas comecei a odiar a minha própria arte. Mesmo quando fazemos algo que gostamos muito... quando não somos recompensados, começamos a ficar cansados". 

 

Intrigada com o facto de estar pela rua, comentei a medo: "tem uma voz muito bonita! Mas porque é que está aqui então Joaquim?". Encolheu os ombros. "Gosto da vida que tenho agora... É um pouco solitária às vezes... mas eu gosto. Gosto de cantar, de ver as pessoas... e acho que os estrangeiros gostam de mim!".

 

Durante aquilo que me pareceu quase uma hora ali ficamos a trocar ideias e histórias. Acabei eu mesma por partilhar vivências com ele, o que não esperava que acontecesse, até porque me fez esquecer de atualizar o caderninho que agora carrego sempre para tirar nota destas histórias e estórias que vou ouvindo.

 

Passamos pelo amor, pela juventude, pelo trabalho, pelos estudos, pela família - o Joaquim tem uma filha de saúde! - e novamente voltamos ao amor. "Isto não é só no trabalho... no amor também, especialmente. Temos de nos dar ao outro, mas não nos podemos entregar por completo. Isso é muito perigoso".

 

Assenti sem comentar nada e continuei a ouvi-lo falar do amor de antigamente e de hoje, de corações amados e despedaçados, que parecem igualmente ameaçados pelos "prazeres do momento que hoje as pessoas colocam à frente das coisas realmente importantes", como me descreveu ele. 

 

"Não sei bem se acredito nisto... mas um amigo meu disse-me há pouco tempo que acha que não existe apenas uma pessoa certa para cada um de nós... mas uma pessoa certa para cada momento distinto. Eu sou completamente da velha guarda, que acredita no 'para sempre', na 'única pessoa que te completa'... mas acho que o que ele diz faz sentido de certa forma", disse-lhe eu. Coçou a cabeça e concordou que era uma coisa bem vista. "Mas tu ainda vais voltar a encontrar alguém!", garantiu-me ele com uma segurança que, por um flash de momento, me fez sentir completamente abrigada de tudo.

 

 

Ficámos ali ainda, um bom pedaço, em silêncio, a ver as pessoas passar. Olhei para as horas e vi que me tinha deixado levar pelo prazer de uma boa partilha e que estava, para não variar, atrasada. Quando ia já a meia volta da partida, o Joaquim levantou-se, veio dar-me um abraço e um beijinho, despedindo-se e dizendo que "soube muito bem este bocadinho de conversa. Acho que me sinto melhor do que de manhã, nem sei bem porquê, mas obrigado".

 

Não há que agradecer, porque o que quer que pensava que ia oferecer ao Joaquim quando fui falar com ele, também recebi de volta.

 

 

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Olhar para a vida, cá dentro

por Catarina d´Oliveira, em 24.04.14

Sabemos sempre, mas parece que esquecemos vezes demais.

 

De quando em quando, a melhor partilha, a melhor pequena aventura, a maior felicidade do dia... está mesmo ao teu lado. Na tua casa, separada por uma mera porta. 

 

Hoje quero celebrar tudo o que tenho, em particular o meu sobrinho F., que todos os dias me ama incondicionalmente - mesmo quando faz birra.

 

 

Quando voltei de umas férias de nove dias e o reencontrei na sala, meio adoentado, a ver um episódio do Homem-Aranha e a jogar Nintendo DS, largou tudo o que estava a fazer e correu a abraçar-me. "Cata'iiiiina!!! Estava cheio de saudades tuas!!".

 

Derreti por completo. Ou tenho estado derretida desde que ele nasceu... Há mesmo Amores maiores do que a vida.

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A dona Ivone aceitou as minhas flores

por Catarina d´Oliveira, em 23.04.14

Aproveitei que estava numa rua movimentada para comprar um ramo de flores. Pensei, motivada: "vou oferecer isto a alguém que não conheço, só para lhe alegrar um bocadinho o dia, com uma coisa bonita!".

 

De mochila às costas e ramo de flores na mão, comecei a andar à procura da 'pessoa' certa - na verdade ela não existe, mas que esperava genuinamente que, quem quer que fosse, não me desse um não redondo, logo à primeira.

 

Vi um casal adorável de senhores ingleses. Aproximei-me e mal tive tempo de articular as palavras... deviam pensar que ia vender ou pedir alguma coisa. Só tive tempo de, já meia de costas, lhes atirar "don't forget to love each other and be happy". Que coisa mais parva... estava a dizer a um casal de octogenários para se amarem, como se já não tivessem feito isso a vida toda, incluíndo naquele exato momento em que os abordei, quando estavam de mãos dadas a segredar qualquer coisa que parecia malandra.

 

Continuei em frente.

 

Voltei a aventurar com uma senhora que estava a sorrir - pessoas que sorriem são sempre um bom presságio. "Oh menina eu aceitava com muito gosto, mas vou andar aqui o dia todo... dê a alguém que vá para casa!".

 

Estava a ficar desmotivada, e o meu ramo era bem bonito... que diabo! Até que apareceu a Ivone.

 

Quando a abordei e lhe disse que queria apenas dar-lhe o ramo de flores para fazer algo simpático por alguém, deu uma gargalhada primeiro e disse que devia ter sido um apaixonado que me tinha dado aquilo, e que eu agora estava a tentar descartar. Fez-me rir, a observação, mas assegurei-lhe que não: que tinha comprado aquele ramo exclusivamente para dar a alguém que encontrasse e o quisesse aceitar, e aí não coube em si de contente.

 

 

"Oh minha querida! Já me alegrou o dia... que coisa tão linda!".

 

Falámos pouco, mas entre dois dedos de conversa, disse-me que a saúde não andava de ferro e que andava meia esquecida. Já com pressa, tive de vir embora mas ainda a ouvi chamar: "oh menina, como se chama?". "Catarina!", respondi.

 

"Que lindo nome, e que linda menina. Seja também muito feliz! E que Deus a ajude muito!".

 

Obrigada dona Ivone. Também me fez ganhar o dia. E pode andar esquecida, mas é bom ver que se lembra - como sempre - de ser feliz.

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As botas, as motas e o Humberto

por Catarina d´Oliveira, em 23.04.14

Hoje saí à rua com a ideia de comprar umas botas, daquelas confortáveis, que os personagens dos filmes de aventura selvagem têm sempre calçadas, talvez na esperança de eu também ter direito à minha aventura exótica...

 

Com este e outros pensamentos, fui até à Baixa em busca das minhas botas, depois de levantar 40 euros que jurei não ultrapassar para tal intento. Eventualmente, passei pelo Humberto.

 

O Humberto é um rapaz pouco mais velho do que eu, com desejo de aventuras como eu, e com sonhos como eu. Mas quando passei pelo Humberto, vi o que um infeliz acidente de mota lhe fez, já bem depois de ter ficado sem família algures na adolescência. Ele segurava, com um olhar meio perdido e meio esperançoso, um pedaço de cartão onde se lia que a sua jornada para conseguir juntar dinheiro para a prótese que lhe permitirá voltar a ter os dois pés no chão estava apenas à distância de 300 euros (no início, estava a 7000!).

 

 

Meia sem jeito aproximei-me com três euros e meti conversa com ele. Perguntei se havia algo que pudesse fazer para ajudar a juntar o resto do dinheiro, e com um sorriso triste disse-me que não. "Já tentei tudo... já fiz campanhas na internet, já pus anúncios no jornal, já contactei televisões... mas é muito difícil. Há pessoas com muito dinheiro, eu vejo isso aqui todos os dias, mas não confiam em nós, o que até se percebe, porque há por aqui muita gente que engana e que rouba...".

 

Fiquei a pensar naquilo. Somos, ou estamos, desconfiados. É essa a parede derradeira que nos separa, muitas vezes, de gestos de bondade.

 

"Mas vou estando por aqui. Já estive muito mais longe, e tenho conseguido juntar algum dinheiro. O importante para mim é viver um dia de cada vez". Interrompi-o. Baixei-me, e disse-lhe: "Humberto, decidi que vou confiar em ti. Não posso dar-te tudo, mas posso dar-te o que tenho comigo, e posso prometer-te que, se continuares por aqui, vou tentar voltar com melhores notícias". Passei-lhe as notas amarrotadas.

 

O sorriso, que já não era magoado, abriu-se num agradecimento sincero.

 

Agora o Humberto está a 257 euros da sua prótese. E eu não comprei as botas - afinal, não precisava delas para nada.

 

 

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O Manifesto

por Catarina d´Oliveira, em 22.04.14

És mestre e dono da tua alma, do teu corpo. Sente-o. Sente-o bem, e de verdade. E quando fores capaz de o sentir - que nem sempre é fácil ou intuitivo - podes dar-te aos outros, e amá-los.

 

Faz sem que te peçam ou te ofereçam algo em troca. Oferece-TE a quem mais precisa, e desprega-te das coisas que, na mais honesta das realidades, não necessitas para ser feliz.

 

Não espalhes ódios, nem injustiças, nem o desconforto, mesmo que, nos momentos de limite que a vida vai multiplicando pelo teu caminho, seja só isso que sentes e que queres obrigar os outros a sentir. Semeia as coisas boas, positivas, a alegria de estar aqui e agora. Não guardes rancor e perdoa. Perdoa sempre.

 

Sê tu, inteiro, em paz com o que és, e depois partilha com o mundo. Porque a felicidade só é real quando é partilhada.

 

 

Autoretrato de Chris McCandless, o original Alexander Supertramp de "Into the Wild" e da vida.

Uma história verídica (e imperdível) escrita por Jon Krakauer e adaptada ao cinema por Sean Penn.

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