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Por aí... #9

por Catarina d´Oliveira, em 25.06.14

 

 “Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference
Robert Frost

 

 

 

 

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A dona Amélia e as suas compras

por Catarina d´Oliveira, em 19.06.14

Foi apenas há uns dias que me cruzei na rua com a dona Amélia.

 

Calhou num daqueles inícios de tarde infernais, da onda de calor insuportável que nos assolou a semana passada e que se foi embora tão depressa quanto chegou.

 

Dei por ela quando estava à espera da viragem de um sinal - vinha no sentido contrário do meu, e além de lutar com o carregamento de sacos muito mais pesados do que a sua idade e estatura deviam permitir, parecia-me uma senhora com genica e uma obstinação adorável em ainda retirar coisas boas da vida. Não estava enganada, mas já lá iremos.

 

Quando o sinal ficou verde, dei uma pequena corrida até ela e resolvi oferecer uma mãozinha: "boa tarde minha senhora... ora diga-me lá, não quer uma ajudinha com esses sacos? Mora perto daqui?". Endireitando um pouco a postura curva que tinha até então, a dona Amélia olhou para mim, sorriu e disse da forma mais amorosa de sempre: "oh minha querida... quanta simpatia. E olhe, vou aceitar, isto noutros tempos era uma coisa mais fácil de se fazer... mas também desconfio que entretanto tornaram as compras mais pesadas!".

 

Não pude deixar de rir enquanto lhe pegava nos sacos e ofereci o braço para que se amparasse em mim. Caminhámos pelo que me pareceram ser uns 10 minutos - a casa da dona Amélia não ficava longe, mas o respeito pelos pequenos passinhos que dava pela calçada (e pela vida) era imperativo.

 

Quando chegámos ao prédio azul claro, meio envelhecido, subi com ela até ao segundo andar para dar por terminada a missão do dia. "Oh minha querida... agora não a posso deixar sair sem pelo menos beber um leitinho e aceitar umas bolachinhas. Vá, faça-me lá a vontade".

 

Senti-me novamente uma criança de 8 anos, mais fui incapaz de não aceitar - não só para não ser rude, mas sobretudo porque o calor e amabilidade da dona Amélia me tinham impressionado desde aquele singelo momento em que nos cruzámos na passadeira.

 

"Vive sozinha?" perguntei a certa altura... a dona Amélia sorriu: "Deus me livre filha... não, não. Felizmente tenho ainda o meu marido comigo. Ele é que gosta sempre de tirar a tarde para ir um bocadinho ao café para estar com os amigos. E faz ele muito bem! Em tantos anos, precisamos sempre de umas pausas uns dos outros não acha?", disse-me ela enquanto acabava com uma pequena gargalhada.

 

[não tive oportunidade de tirar nenhuma fotografia neste dia, mas fica esta, QUE NÃO É MINHA, por propósitos de ilustração; imagem de Chrys Campos]

 

Nos poucos minutos que estive naquela casa, tive a oportunidade de percorrer uma série de fotografias que lá se encontravam. Gosto sempre de o fazer, mas especialmente neste caso, porque eram fotografias atípicas para a casa de um casal de idosos, onde costumamos encontrar retratos "rígidos" e quase tipo passe dos netos, dos filhos. Não... ali só encontrei fotografias de férias, de grandes grupos de pessoas a sorrir, de crianças em saltos acrobáticos para a piscina, da dona Amélia e do seu Joaquim a darem um beijo pela ocasião dos seus 40 anos de casamento.

 

Falei-lhe sobre esta diferença agradável que tinha notado e ela sorriu e encolheu os ombros: "são as únicas fotografias que me interessam, minha querida. Não preciso de ver os meus filhos e os meus netos com caras bonitas, e penteadinhos, e com as costas doridas numa cadeira horrorosa. Quero olhar para eles e vê-los felizes, a fazer o que gostam!".

 

Não pude deixar de concordar. É nisso que se baseia a vida. Nos momentos onde a contenção deixa de existir, e onde o prazer da partilha desfoca tudo à volta que não interessa realmente.

 

"Todos os dias agradeço a Deus porque tive uma vida muito feliz. E continuo a ter! Não julgue que por ser velha, não continuo a aproveitar! Ainda no ano passado fui com os meus filhos e netos para uma casa de férias que temos no Alentejo... e veja bem que esta velha ainda se foi enfiar na piscina! Ah... não há nada como aquele paraíso... e este ano vamos outra vez!".

 

Ainda conversamos mais um bom bocado. E ali fiquei em, com o cotovelo pousado na mesa e a mão no queixo, embevecida a ouvir as histórias da dona Amélia, que repetidamente me provavam o amor que tinha e continua a ter pela vida.

 

"Obrigada pelo lanche dona Amélia... e deixe que lhe diga uma coisa: é uma senhora toda p'rá frentex, e fiquei mesmo muito feliz de a conhecer. Nunca deixe de ter essa garra pela vida... Eu tenho 24 anos e vou daqui cheia de vontade de viver coisas novas por sua causa. Muito, mas muito obrigada".

 

Ela sorriu e respodeu-me com palavras muito mais simpáticas e enaltecedoras do que merecia ouvir. Desci os lances de escadas em corrida, com uma alegria renovada, e mal abri a porta da rua, aquele bafo diabólico de 35 graus voltou a abater-se sobre mim. Mas desta vez não me amoleceu, nem me fez perder o ânimo.

 

Tinha acabado de conhecer uma das inspirações que sei que vou levar comigo para toda a vida, e isso bastou para ter a certeza que, um dia, quando for a minha vez, também vou ter uma vida de boas histórias para contar, com fotografias e lembranças de felicidade e bondade espalhadas por todo o lado.

Está na altura de começar a trabalhar nisso!

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Por aí... #8

por Catarina d´Oliveira, em 14.06.14

 

It has long been an axiom of mine that the

little things are infinitely the most important
― Arthur Conan Doyle 

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Por aí... #7

por Catarina d´Oliveira, em 11.06.14

 

Rather than love, than money, than fame... give me truth
Henry David Thoreau

 

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Leva uma declaração para quem amas

por Catarina d´Oliveira, em 09.06.14

Parece contraintuitivo, eu sei, mas é verdade: o Amor é uma coisa muito difícil.

 

Não é que os filmes e as músicas nos tenham mentido - antes pelo contrário - mas a verdade é que muitas vezes deixaram de lado a parte laboriosa. O Amor não subsiste sozinho, e todos os dias temos de cuidar dele como se se tratasse de uma flor frágil, e apreciá-lo como se fosse (e é!) a mais bela de todas as criaturas. Se divides a vida com alguém, é fácil encostares-te ao repouso do hábito para desculpares o facto de teres deixado de tentar fazer coisas por ti e pelo outro, e assim, sem sequer reparares bem, estás a matar-vos.

 

Perpetuam-se também outros equívocos, como o conforto eterno nos cega perante a necessidade imperativa de alimentar esse Amor, mas não estou aqui para falar deles - estou aqui para, se tudo correr bem, ajudar a exorcizá-los.

 

Se encontrarem um destes papéis por aí, arranquem um pedaço e digam algo que não pode ficar por dizer a quem vos completa. Mas não se limitem a isso. Façam mais e melhor todos os dias. Por vocês, pelo outro, e pelo Nós.

 

Comprem flores, marquem noites num bom hotel, escapem um dia da cidade para a pureza do campo, passeiem, dêem as mãos, tirem fotografias parvas, façam duetos com a música em altos berros no carro, vejam o pôr-do-sol, vejam o nascer-do-sol, vão jogar mini-golf, dancem na cozinha e na chuva, redecorem uma divisão da casa juntos, riam perdidamente, tomem um banho de espuma, preparem pequenos-almoços na cama, jantem à luz das velas, partilhem preocupações, planeiem uma grande viagem, combinem noites de jogos com os amigos, conversem sem horas, vão ao zoológico, façam um castelo de areia, partilhem uma manta, visitem o mercado ao Sábado de manhã, percam o Domingo na cama a ver desenhos animados e filmes lamechas, passem o dia num Spa, cozinhem um para o outro, carreguem-lhe o telemóvel sem que tenha de vos pedir, ofereçam um peluche, gabem-se da vossa história aos vossos amigos, deixem recados românticos pela casa, escrevam-se, tenham-se, amem-se, e quando parecer que já não há nada para fazer... repitam, inovem e lembrem-se: vai valer a pena.


You know you're in love when you can't fall asleep because
reality is finally better than your dreams
― Dr. Seuss

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Até que a morte (n)os separe

por Catarina d´Oliveira, em 05.06.14

[Jardim do I.P.O.]

 

Olhei para o lado e vi-o, a dois bancos de distância. Tinha uma boina pousada na perna direita e uma bengala encostada à perna esquerda. Brincava inconscientemente com um pequeno papel entre os dedos enquanto o olhar andava perdido algures pelo chão e pela amargura da tristeza. Levantei-me e cheguei-me perto.

 

"Importa-se que me sente um bocadinho ao pé de si?". Deu um pequeno salto da quebra da dormência catatónica e arranjou forças para me sorrir e dizer: "claro que não menina... faça favor".

 

Foi esse sorriso, aliado a uma expressão de inequívoca bondade, que me impeliu a perguntar pela sua história, ou antes pela de alguém que é tão parte de si que, numa simbiose perfeita e rara na vida, torna a sua história também a história dele. A história deles.

 

Nos últimos anos, a saúde não tem estado do lado da dona M., a esposa de mais de 50 anos do senhor S. "Nestes últimos tempos tem sido muito difícil menina... e eu já não a consigo ajudar como conseguia, e isso custa muito. Já estamos juntos há muito tempo sabe? E olhe que não foi pêra doce". O que se seguiu foi uma inesperada descrição de peripécias que não pude (nem quis!) interromper. O breve compêndio de uma vida a dois começou no exato momento onde devia - na constatação inescapável do "é ela, é ela a mulher da minha vida" ainda antes dos conhecimentos travados, passando pelas viagens de bicicleta ao fim-de-semana só para a ver, a trabalhosa benção do pai, o casamento comedido, os filhos e até os momentos de dúvida.

 

"Houve duas ou três ocasiões em que pensei mesmo que a gente já tinha dado o que havia para dar... Ora eu me sentia afastado, ora ela... E às vezes foi difícil. Estivemos ali à beira de nos estatelarmos do precipício sabe. Isto de estar muitos anos com a mesma pessoa é muito difícil e a gente às vezes esquece que tem de ralar bem". Para minha surpresa, arranjei coragem para lhe perguntar se alguma vez se tinha sentido arrependido de ter ficado... mas ele nem me deixou acabar a pergunta: "Naaaaaa! Ora essa! Ela nunca deixou de ser a mulher da minha vida. Às vezes vem coisas e uma pessoa pensa coisas diferentes, mas depois lembrava-me sempre, e nunca podia ter estado com outra pessoa".

 

 

Os anos passaram, mas entre dificuldades apareceram felicidades triplicadas. "As nossas netinhas são as coisas mais doces, ora veja lá", disse estendendo-me a carteira onde se via a fotografia de duas meninas a brincar no que me pareceu um parque infantil, mesmo ao lado de uma fotografia de uma senhora. "É ela...?". "Sim...", e os olhos e o coração abriram-se em par.

 

Mas quando se instala a velhice, uma importante parte dos votos de casamento entra em cheque. "É na saúde e na doença, menina. Estou sempre com a minha M., aconteça o que acontecer. E venha o bicho que vier!". Há doenças chatas e cruéis, mas o cancro (sim, fiz questão de escrever em minúsculas) é particularmente perverso não só para a vida que coloca em perigo, mas de todos os que a rodeiam.

 

Segundo os médicos, o bicho não deixa a M. muito mais do que meros meses de vida, mas o espírito de S. não se quebra: "conta tudo até ao fim. Só não quero que ela sofra, e que esteja sozinha... mas isso vou estar cá sempre também. Ela sempre me aturou estes anos todos e sempre me ajudou. Eu só faço o mesmo agora. Todos os dias que for preciso, enquanto me conseguir pôr em pé. Até que a morte nos separe".

 

Reparei que o senhor S. se emocionou ao longo destas últimas frases, e o que senti dentro de mim também nunca vou esquecer. Contraiu-se tudo primeiro, e depois houve uma explosão. Simultaneamente sentia-me a arder e tinha calafrios na espinha, e depois também senti os olhos humedecerem-se. E percebi porquê.

 

Ser testemunha de um Amor assim é um privilégio. E mais uma vez, quando pensei ir ao encontro de uma história de dificuldade e assombro, encontrei uma história de Amor. Por mais voltas que dermos, é sempre aqui, à mais humana de todas as emoções, que acabamos por chegar.

 

Aproximei-me e dei-lhe um abraço. Agradeci-lhe a partilha, agradeci-lhe o enorme Senhor que é (e que não gosta de aderir à moda das selfies da gente nova), e agradeci-lhe por alimentar um Amor em que, hoje em dia, tanta gente parece não querer acreditar. Prometi voltar.

 

Vou voltar.

 

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No I.P.O. não há doença: há vida e esperança

por Catarina d´Oliveira, em 03.06.14

Não são raras as vezes em que temos de relativizar as coisas. Ou, pelo menos, devíamos.

 

Tirar uns minutos para parar, sair da bolha de absorção que é a nossa vida quotidiana e olhar à volta. Se o fizermos, não só temos oportunidade de ver coisas que nunca tínhamos visto, como também nos possibilitamos a encontrar "acidentalmente" quem não nos faça sentir tão sozinhos, quem nos ensine mais do que julgávamos poder saber, quem nos mostre que na tragédia grega que é a vida há sempre lugar para a esperança, para o sorriso e para o Amor.

 

Hoje fui até ao I.P.O., e foi lá que conheci uma senhora a quem daqui em diante tratarei por B.

 

 

O dia está soalheiro, e pelos jardins do Instituto espalham-se histórias que nunca ficarão por contar - ainda que não seja por mim. A B. estava sentada no banco onde também me acomodei, e enquanto me instalava ouvia-a indistintamente numa conversa animada ao telemóvel. Quando terminou, resolvi meter conversa.

 

"Desculpe meter-me... mas depreendo que tenha aqui alguém, e só lhe quero dizer que fico muito feliz por as coisas estarem a correr bem". Surpreendida, olhou para mim, sorriu e respondeu: "Sim! A minha filha... só tem oito aninhos, mas já anda a batalhar desde os seis. É a pessoa mais corajosa que conheço".

 

Sem querer parecer grosseira ou intrusiva, questionei a B. sobre a jornada até hoje, desde a instalação do terror até ao final que até agora tem tudo para ser feliz. "Sabe... eu achava que já tinha apanhado uns sustos valentes na vida, mas só naquele momento é que percebi a verdadeira definição de medo. Quando os médicos falaram comigo, senti que tudo desapareceu à minha volta. Já não ouvia nada, não via nada, não sentia nada. Depois o pavor começou a crescer".

 

Vieram as segundas opiniões - necessárias apenas para assegurar o terror de quem percebia o que se passava - e as sucessivas consultas e consequentes sessões de quimioterapia. "É devastador ver o nosso filho passar por algo assim, mas por outro lado - eu tento sempre ver as coisas pelo lado positivo - serviu para me mostrar o quão forte ela era, mesmo tão pequenina. Foi raro chorar. E mesmo quando se entristecia de não poder sair para brincar com os outros meninos, lá arranjava maneira de se reerguer. Nunca vi nada assim. Foi ela mesma que, muitas das vezes, nos animou a nós".

 

O sorriso continuava lá, ainda que partes da história (que aqui não tenho espaço ou memória para desenvolver com exatidão) fossem tão dolorosas de recordar. "Lembro-me como se fosse hoje que quando ela começou a perder cabelo quase entrei numa espiral depressiva. Talvez só ali algo se tivesse finalmente ativado na minha cabeça... mas mais uma vez ela ensinou-me a sorrir e esperar o melhor mesmo quando todas as luzes parecem apagadas - 'Olha mamã! Agora já não precisas de me enrolar o cabelo com o secador sempre que tomo banho!!'".

 

No final, a B. lá me voltou a relembrar do importante, mesmo que com esta história fosse impossível ficar-lhe indiferente: "Quem olha para ela agora, não diz que já passou por tanto. E nós estamos gratos todos os dias. Apreciamos cada um como se fosse uma jóia, sabe? Porque é mesmo. Isto é tudo muito efémero. Um dia estamos aqui, mas ninguém nos garante que estejamos no seguinte. O único controle que temos nisto tudo é a forma como escolhemos responder às coisas, aos desafios".

 

Depois desta conversa, senti-me simultaneamente esmagada e inspirada pelas coisas boas. Subi até ao sétimo piso do I.P.O. - onde se encontra a secção de Pediatria - procurei a vending machine mais próxima e deixei um pequeno incentivo a quem por lá passar... porque muitas vezes, é na invisibilidade dos atos que nos sentimos fortalecidos.

 

 

 

Deixarei outra história para outro dia, mas não termino este post sem vos (e me) recordar do que realmente importa. A vida acontece a todos nós, e estou certa que é por ser tão frágil e por vezes tão dura connosco que toma um valor transcendente, que nunca existiria num Éden povoado por imortais.

 

Estamos aqui e agora. Não deixem que seja preciso uma tragédia ou a iminência dela para vos mostrar que a lista de coisas que são vitais à vossa vida não é tão longa como nos fazemos crer. Não desistam de procurar o Bom que existe em toda a gente. Não percam a esperança nos outros e em vocês. Parem de procurar a perfeição e aceitem a imperfeição de quem vos quer bem e a vossa também. E por fim, se amam alguém, por favor, digam-lhe. Digam sempre, porque nas contas finais, é tudo o que realmente importa.



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