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Conversa Amiga #3

por Catarina d´Oliveira, em 19.05.15

Terminado o (muito) necessário período de experiência, fiz finalmente a minha primeira saída como VACA - que é como quem diz, Voluntária da Associação Conversa Amiga.

 

Depois de uma breve conversa sobre o "test drive" das duas primeiras saídas, pediram-nos sugestões. Tanto eu como o C., um dos outros voluntários que se tornava "oficial" naquele dia, sugerimos a mecânica da rotatividade - atuar em diferentes zonas da cidade ao longo do ano, já que normalmente nos dividimos em grupos espalhados por três ou quatro áreas.

 

"Não é tarde nem é cedo... como hoje temos algumas faltas n'um dos grupos, resolvemos colocar-te noutro diferente, e assim podes já experimentar outra área e ver o que achas". Porreiro - e lá saí com o meu novo grupo por uma noite, liderado pelo L., e com a companhia do R. e de um estudante de medicina muito simpático que veio experimentar, como convidado, uma noite connosco.

 

Seguimos para Arroios, e foi lá a nossa aventura da noite, entre o mercado, o jardim e a igreja que albergam, à noite, as pessoas que durante o dia não vemos por lá. Tirando o senhor M. - esse diz que anda sempre por perto do mercado: "sempre que me quiserem encontrar, é só vir aqui. Não vou a lado nenhum". Lá estava ele, deitado a fumar uma cigarrilha quando nos aproximamos.

 

Depois dos cumprimentos e apresentações devidas, lá ficamos a saber do ponto de situação do Cartão de Cidadão que o íamos ajudar a fazer - uma das coisas que podemos fazer, é facilitar o processo de obtenção de documentação a pessoas em situação de sem-abrigo, e o senhor M. conseguirá o seu novo C.C. sem pagar nada.

 

Recolhemos os dados que faltavam ao processo entre outros dedos de conversa que nada tinham a ver com naturalidades ou datas de nascimento. Nessa noite o Benfica tinha ganho por margem gorda (numa jornada de véspera de ser Campeão), mas o senhor M. não fazia grande caso... "Ouvi falar sim... mas não gosto de futebol. Não acho graça, ganham dinheiro a mais... prefiro andebol Ou hockey. Gosto muito de hockey".

 

Enquanto combinavamos a melhor hora para um encontro com a assistente social que o ajudaria na loja no Cidadão, o senhor M. continuava a contar-nos dos seus gostos  - como prefere cigarrilhas a tabaco normal, ou acordar cedinho quando o sol ainda nem nasceu a ficar a dormir até tarde, ou a ficar só sentado no jardim que há por ali perto, em vez de andar de um lado para o outro.

 

A simpatia e olhar terno do senhor M. dificultou-nos a tarefa de seguir em frente para o próximo espaço, mas a verdade é que a hora de recolha já lá ia "amanhã às 5 já estou a acordar... comigo é sempre assim".

 

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Seguimos para a igreja, e por lá fiquei até a ronda terminar, e sentia-me tão à vontade e perdida nas histórias e estórias daquela gente que podia muito bem ainda lá estar agora.

 

O Zé D. foi o primeiro. Já estava por lá sentado a receber um chá que outro voluntário lhe ofereceu e que agradeceu com palavras simpáticas. O sotaque com que afetava grande parte do discurso fazia adivinhar a origem que não demorou muito a desvendar.

 

A zona norte da madeira foi a sua casa até, na casa dos 20 e poucos anos, decidir explorar as oportunidades do continente. As aventuras partilhadas em apenas duas horas de conversa foram tantas que me é quase difícil jurar que não o conheço há meia dúzia de anos.

 

As memórias da pesca na ilha a que chamam casa foram, todavia, as recordadas com mais carinho. "Conheço todo o tipo de peixe, e já comi de tudo. Não há nada como o peixe, e a vida no mar. Se pudesse tinha passado a vida a mergulhar... sem fato mesmo". E lá seguiu entre as mirabolantes aventuras - quando o irmão se amedrontou com a visão de um pequeno tubarão, quando desaparecia horas sem fim para preocupação da mãe que acalmava com desculpas inventadas, o ano que passou na quinta de uma amiga onde aprendeu a conduzir um carro, as fugas para a outra ponta da ilha sem que ninguém soubesse... uma vida cheia de vida quando ainda nem tinha chegado aos 25. Para ele a vida só vale a pena se for assim, vivida no limite das emoções e das possibilidades e dos riscos.

 

Quanto à sua ilha, à sua casa... "Às vezes ainda vou lá, e visito a minha mãe. Não há nada tão bonito como a Madeira... não há".

 

Por cá esperou-o mais uma vida de trabalho do que propriamente outra coisa, mas não deixou que isso lhe tirasse a alegria ou a sede da adrenalina "agora não, mas quando era mais novo fazia tudo e não tinha medo de nada. Uma vez tive um emprego onde limpava janelas de um prédio altíssimo. Eu limpava por fora e os meus colegas por dentro. Nunca quis usar cordas... só me atrasavam o trabalho. E acabava sempre quando ainda lhes faltavam dois ou três andares. Por isso antes dizia-lhes sempre: 'no final encontramo-nos ali no café que vou lá estar a beber umas minis'. E estava sempre".

 

"Deus me livre!!" - até dei um salto de susto, porque não vi o outro senhor chegar e aproximar-se. Tão simpático e acessível como o Zé D., o Zé M. tem, no entanto, um enorme pavor de alturas. "Eu não conseguia... nem com vinho ia lá!".

 

Aproveitei então que os meus outros companheiros ouviam e participavam alegremente nas conversas do Zé D. para dar algo de mim também ao Zé M. E lá seguiu ele, falando-me dos tempos áureos em que trabalhou em campanhas eleitorais.

 

"Vivia muito bem, e experimentei muito luxo. Por isso já não me posso queixar".

 

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 [fotografia: Miguel Manso; PÚBLICO]

 

 

Mas não foi nas experiências de abundância que se revelou mais nobre. Isso ficou para a vida privada, onde fez e faz tudo para proteger os seus. Incluíndo as mulheres que passaram pela sua vida e com quem mantém contacto "Não vejo a razão para deixarmos de nos falar se em algum momento da vida vivemos tanta coisa juntos". Concordei veementemente e louvei-lhe a perspetiva, que o levou a acrescentar: "Quando me separei da minha ex-mulher, o advogado não sabia como nos dividir as coisas. Perguntou-lhe a ela, e ela disse-lhe para me perguntar a mim. Não havia questão nenhuma... ela ia ficar com tudo e nem havia discussão. Era a mãe da minha filha e não a ia deixar desamparada; não preciso de coisas para nada. Posso voltar a conseguir coisas noutros sítios. Só me importa as pessoas que gosto, e só por elas é que faço tudo. Ai de quem se meta com elas".

 

A noite terminou com esta conversa a ressoar-me na cabeça e a deixar o desejo de voltar a falar com estes dois Zés que me ensinaram tanto em tão poucos minutos. Sobre a importância de saber respirar a vida por todos os poros, de nos embriagarmos nas suas possibilidades sem termos de pedir desculpa ou permissão. E sobre a importância do respeito por quem amamos, sempre.

 

Continuo a achar que, de cada vez que saio, levo mais deles (e da vida) comigo do que o contrário.

 

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Cartas para Estranhos #9

por Catarina d´Oliveira, em 13.05.15

Se a vida é macaca, então os obstáculos que nos coloca no caminho são, por vezes e certamente, gorilas mutantes. Resta-nos fazer todos os dias o melhor que podemos para, além de sobreviver, continuar a VIVER. E é bom que nos lembremos, ocasionalmente, que somos todos enormes guerreiros.

 

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"Querido/a estranho/a,

Não quero que passe nem mais um minuto sem que te congratulem por teres ultrapassado todas as experiências que a vida pôs no teu caminho. Por tudo aquilo a que sobreviveste. Por toda a dor que suportaste, pela solidão que aguentaste por vezes. Estás a portar-te estupendamente bem!

Até este momento manténs o record de 100% de sobrevivência!

E com isto lembra-te sempre: não importa quão más as coisas estão - continua a ser corajoso/a e valente. Deixa que as pessoas te ajudem, e ajuda-as tu também. São os laços que nos unem que, no final de contas, nos salvam.

Tem uma ótima vida!


De uma estranha como tu"

 

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À volta do Mundo - República Dominicana

por Catarina d´Oliveira, em 11.05.15

Aqui há dias, voltei de férias nas Caraíbas.

 

Ora aí está uma asserção absolutamente desinteressante do ponto de vista humano. Sol, praia e mar são elixir para a (minha) alma, mas uma viagem com estadia num daqueles resorts turísticos até ao tutano não é, de todo, a minha definição de aventura - por mais proveitoso que tenha sido (e foi) para o meu cérebro hiperativo.

 

Mas o poder de transformar algo insuspeito numa experiência com significado está sempre nas nossas mãos, e apesar de a incursão pela "verdadeira" República Dominicana ter sido um fugaz escape da artificialidade do resort, deixou um travo mais do que suficiente para a sofreguidão louca pelo regresso.

 

Parte do lote mais conhecido por "Caraíbas", a R.D. permite, como creio que aconteça na maior parte das outras ilhas, a observação de uma incongruência económica absolutamente dolorosa - a nação é extremamente pobre, mas habituada a servir (e bem) o poder de estrangeiros com ordenados mensais superiores aos seus vencimentos anuais.

 

Com um salário médio que não chega aos 300€/mês (o mínimo mal ultrapassa os 200€), os dominicanos vivem face à dificuldade sem qualquer apoio do Estado mas com um sorriso permanente no rosto. Como costumam dizer, o único apoio que podem procurar é o do núcleo familiar, e por isso mesmo acreditam na "lei tradicional" da necessidade dos quatro filhos: porque, como nos contaram por lá, existe assim a proporção correta de dois bons ajudantes, e dois mais preguiçosos, e assim ninguém fica pendurado.

 

A simpatia, boa disposição e abertura de povos com cicatrizes e dores tão recentes deixa-me sempre espantada perante a frieza que muitas vezes denoto na nossa Europa. E é verdade que são especialistas de raça pura no negócio do turismo, mas é a honesta paixão pelo pedaço de terra rodeado de mar (a meias com o Haiti) a que chamam casa, que transparece como o seu maior charme. Isto e os lugares perdidos no meio de quilómetros e quilómetros de verde, onde se escondem plantações de café, cacau e frutos exóticos, e onde cada colheita é tratada com o cuidado de um filho. A terra, que lhes dá sustento e sabor além da fama da qualidade dos produtos, merece o seu respeito eterno.

 

E a R.D. é muito mais do que um risco na bucket list a dizer que "já fui às Caraíbas".

 

A R.D. é uma nação de sorrisos, de um copo de Rum para beber numa mão  e outro para oferecer na outra, de bondade, de delicioso frango com arroz e feijão, de florestas de cortar a respiração, de praias escondidas que fazem corar as dos postais, de felicidade e de pessoas alegres porque sabem saborear o que a vida tem de realmente importante.

 

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Dizer que conhecemos um país quando lá passámos uma semana ou dez dias é um disserviço, e uma mentira absoluta. Porque não estudámos os recantos, não visitámos os refúgios que as agências de turismo não cobrem, não ouvimos pacientemente as histórias e estórias das pessoas que carregam aquela história nas veias.

 

Eu visitei uma parte da República Dominicana, e apesar de ter ouvido algumas histórias sobre a sua cultura e alma, não pretendo passar a ideia de que a conheço.

 

Isso fica na promessa obrigatória do futuro, juntamente com um brinde regado à celebre Mama Juana - uma das mais famosas bebidas nacionais.

 

Porque não consigo não querer saber mais.

 

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Cartas para Estranhos #8

por Catarina d´Oliveira, em 08.05.15

Fui a um sítio diferente. Deixei-me perder nos verdes de Sintra, mas levei-as comigo.

Porque é sempre boa hora de distribuir sorrisos.

 

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Olá estranho/a,

Não é ótimo quando alguém nos diz que nos preza e valoriza? Espero sinceramente que tenhas pessoas na tua vida que o façam.

A tua vida tem um valor inestimável e trazes tanto amor ao mundo que não pode ser medido, apenas sentido e retribuido.

Acredito que a bondade que espalhamos pelo mundo faz ricochete e alcança o mais longínquo dos perímetros, muito além da pessoa/coisa para a qual apontámos originalmente.

É muito possível que o bem que fizeste tenha chegado até mim, mesmo que através de outras pessoas, e por isso estou-te eternamente grata.

Obrigada por fazeres a diferença no mundo e nos ajudares a todos a sorrir um pouco mais.


De uma amiga que ainda não conheceste

 

 

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