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Cartas para Estranhos #12

por Catarina d´Oliveira, em 30.06.15

Nem há outra maneira de colocar isto: às vezes há dias mesmo merdosos. Mas cabe-nos a nós virá-los do avesso e a nosso favor.

 

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"Hello stranger,

Posso dizer com grande certeza - a menos que intervenha uma coincidência colossal - que não nos conhecemos, e talvez nunca venhamos a conhecer. Mas não faz mal porque, de qualquer forma, estou a pensar em ti. E estou a pensar em ti porque talvez sejas como eu e estejas a ter um dia de porcaria, ou a sentir-te sozinho/a, com o cabelo a parecer um autêntico ninho e cucos porque nem tiveste tempo para um duche hoje. Quero dizer-te que NÃO estás sozinho/a. No entanto, tenho mais para te dizer...

Tu, sim, tu... és espetacular. Mesmo que hoje te sintas um nojo ou um poço depressivo, quem é que se importa com isso? Eu acho que estás ótimo/a, portanto trata de começar a sentir-te confiante e bonito/a, porque tens TODO O DIREITO A ISSO!

Não deixes que um dia ranhoso te impeça de aproveitares o teu tempo e de TE amares, ok? És muito mais forte do que a batalha que estás a enfrentar, e podes ultrapassar todos os obstáculos se acreditares em ti.

Pensa em todas as tuas qualidades irresistíveis, em todas as tuas ideias brilhantes e os teus talentos únicos que te tornam na pessoa que és, e não tenhas medo de os amar.

Agora respira fundo.

Daqui para a frente, promete-me que vais passar o resto da tua vida a ser uma pessoa fantástica - afinal, nem tens de tentar assim tanto!


De uma amiga que ainda não conheceste"

 

 

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Inspiração - Up

por Catarina d´Oliveira, em 23.06.15

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Quando ontem olhei para o lado e vi o meu sobrinho de seis anos vidrado no universo mágico criado pela Disney Pixar em INSIDE OUT, voltei a lembrar-me das valências imensuráveis que a arte que enumeramos de sétima nos oferece.

 

Recordei-me, em particular, como a prática da perfeição foi tornando o Cinema de Animação cada vez mais emocionalmente robusto e um crescente pilar na formação psicossocial e cognitiva dos mais novos e uma fonte de inspiração única para os adultos. É um género especial, e insuspeitamente poderoso, porque permite o aproveitamento da inocência da pureza para nos instigar sentimentos e sensações positivamente reformadoras.

 

Foi nesse sentido que, quando decidi iniciar uma nova rubrica no Happiness dedicada a Inspirações artísticas para a vida – no Cinema, na Música, na Literatura, etc – considerei que era não só de vital importância abrir as hostes com a insustentável leveza da animação como era imperativo que o primeiro objeto de exploração fosse um que tanta humildade, vontade, perseverança e amor me tenha inspirado.

 

Realizado por Peter Docter, UP emergiu de uma incubadora ativa que nos habituou à maravilha. Em 2009, depois de os bonecos já terem ganho vida em TOY STORY, ou de os monstros planearem assustar-nos em MONSTERS INC ou de um robô solitário ter a tarefa de limpar o planeta que destruímos em WALL.E, parecia que a Disney Pixar não tinha mais por onde escalar.

 

Regressando ao protagonismo humano ausente desde THE INCREDIBLES, seguimos as desventuras de um vendedor de balões de 78 anos que, finalmente, realiza o sonho da sua vida - uma grande aventura, quando prende milhares de balões à sua casa e consegue voar à descoberta da América do Sul. No entanto, o septuagenário Carl Fredricksen vai descobrir, tarde demais, que o seu maior pesadelo também embarcou nesta viagem… um explorador da natureza super otimista de 8 anos chamado Russel.

 

Elevando pela complexidade dramática do enredo, UP não deixa de ser um singular hino à alegria de viver e uma daquelas obras que nos deixa inevitavelmente com um sorriso no rosto quando abandonamos a sala de cinema. É estimulante e divertido, porém inspirador na subtileza das suas mensagens: não há idade para aprender a viver; e às vezes basta fechar os olhos, dar um passo cego e esperar pelo que a vida nos trouxer – e as aventuras podem nem ser aquelas que tínhamos planeado ou idealizado, mas todas elas nos ensinam algo e têm potencialidade de oferecer memórias que nunca esqueceremos.

 

A importância dos sonhos para a motivação pessoal e, posteriormente, para a disponibilização de experiências únicas, de limite, que nos permitem a recontextualização de atitudes e perspetivas de vida é um dos principais temas core, bem como a reflexão sobre as dicotomias da Vida/Morte e Viagem Interior/Exterior.

 

Além da exploração habitual da importância da manutenção das relações humanas como contributo essencial para a construção da noção individual de felicidade, UP elabora ainda sobre o positivismo encontrado entre a troca de experiências entre indivíduos de diferentes gerações e de backgrounds distintos. São os conhecimentos e competências adquiridos em ambas as instâncias que tornam os personagens mais complexos à medida que o enredo se desenvolve, e que espelham a vital importância da interação dinâmica entre nós e uma plenitude de outras pessoas de diferentes idades, origens, classes sociais, religiões. É a partir do convívio, da partilha, da abertura ao conhecimento e da aquisição de experiências que temos possibilidade de nos tornar melhores, mais capazes e, sobretudo, mais humanos.

 

Há uma estranheza indefinida que lhe confere uma maravilha única, difícil de explicar, fácil de sentir. No final de tudo, e num mar de enriquecedoras aprendizagens, destaca-se a inapagável lição da necessidade de desvalorização das superficialidades e no reconhecimento da importância dos verdadeiros objetivos de felicidade e, sobretudo, das relações.

 

Na Era digital que, através de telemóveis, redes sociais e chats propicia cada vez mais o isolamento social, UP ousa desafiar-nos a desenvolver a apreciação da interação humana como a nossa derradeira aventura.

 

E o grito de guerra recorrente não podia ser mais adequado: a aventura está aí!

 

 

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Cartas para Estranhos #11

por Catarina d´Oliveira, em 18.06.15

Porque tal como não podemos desculpar-nos com os outros ou com as vicissitudes da vida, também não podemos sabotar-nos eternamente. Acima de tudo, procurar ser melhor contigo para que possas ser melhor com os outros.

 

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"Olá estranho/a,

Às vezes as coisas correm mal, mesmo muito mal, e temos a tendência de nos culpar por isso. É verdade que, por vezes, pode ser parcialmente culpa nossa, mas há SEMPRE um contexto para as coisas que fazemos e as que não fazemos.

Podem estar a acontecer-nos coisas na mesma altura. Pode ser que a sociedade ou o estado das coisas não estejam a nosso favor. Podemos estar até a lidar com problemas pessoas que, aparentemente, nada têm a ver com o assunto, mas que acabam por nos limitar ou influenciar.

Com isto não quero que penses que tens de te desculpabilizar de tudo, mas também não tens de te massacrar ou auto sabotar.

Fazes parte de um mundo imenso, e os erros e as más decisões fazem parte daquilo que nos torna Humanos.

Levanta-te e sê bom e gentil contigo mesmo/a.



De alguém que gosta de ti mesmo sem te conhecer"

 

 

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Conversa Amiga #4

por Catarina d´Oliveira, em 15.06.15

Depois de uma saída de ausência tive o prazer de voltar a um lugar que me preenche a alma.

 

Reunimo-nos, como sempre, uma hora antes da saída, trocámos ideias entre a equipa e finalmente partimos, divididos em quatro dentes de uma forquilha que só deseja ajudar a enfraquecer o monstro da solidão que assola tantos e tão bons pelas ruas de Lisboa.

 

Voltei a Arroios naquela que parece vir ser a minha casa, de quinze em quinze dias, nos próximos meses, e apesar de a zona ser célebre por promover a relação prolongada com as mesmas pessoas, fim-de-semana após fim-de-semana, só reencontrei uma cara familiar desde a primeira vez que lá estive.

 

Quando chegámos, lá estava a boa E. a empilhar os seus pertences para preparar mais uma noite debaixo da proteção da igreja. Cumprimentou-nos com um sorriso simpático, aceitou o nosso chá, e parou por momentos a sua frenética arrumação para trocar uns dedos de conversa connosco.

 

Como aconteceu com outros, a E. conseguiu ser colocada num quarto há relativamente pouco tempo, mas também como muitos outros, optou por deixá-lo e regressar às ruas que já hoje conhece melhor do que a si mesma. Pode parecer pouco apropriado ou agradecido que o tenha feito, mas à medida que nos explicou como nem era capaz de usar a cozinha em curto-circuito, ou de ter um momento de privacidade numa casa que desconhecia e não supria as suas necessidades, continuei, como ao longo das poucas saídas que fiz, a compreender um pouco mais das razões e motivações que tantas vezes desconsideramos como válidas a estas almas que o tempo não faz esquecer.

 

Quando chegou o transporte responsável pela distribuição de comida, lá se despediu de nós com a maior das simpatias e foi buscar a caixinha que lhe estava destinada. Pousou-a entre a trincheira de cartão que construiu para a noite, e voltou às suas coisas - que são tantas que é impossível conceber como as carrega para todo o lugar onde vai, como me confidenciou uma colega. A E. é o que comummente designamos de "acumulador compulsivo", e apesar de já vários a terem tentado ajudar ao designar um cacifo para proteger os seus bens, estes foram sempre crescendo, em quantidade e em aparente inutilidade à vista desarmada dos olhos que não são o dela. "Eu sei que tenho muita coisa, mas todas as coisas são importantes para mim e gosto de as ter comigo para me lembrar". E ninguém tentou nem quis discuti-lo.

 

A zona estava surpreendente e especialmente vazia naquele início de noite, e preparavamo-nos para "mudar acampamento" quando nos apareceu a adorável dona M, uma ternurenta senhora nonagenária a quem o que falta de ouvido compensa com boa disposição e um conhecimento enciclopédico de rimas de quatro versos que nos deixaram a todos com um sorriso que dava para aguentar três vidas inteiras.

 

A comunicação foi quase impossível, pois a cada pergunta surgia uma gargalhada tímida mas absolutamente adorável que denunciava a tal falta de audição e a subsequente resposta com mais uma rima para nos embalar o peito. Ficou, no entanto, a irredutível prova da possibilidade de comunicação profunda e intensa além da troca verbal tradicional a que estamos habituados. Ninguém naquela noite conseguiu, efetivamente, conversar nos meandros costumeiros com a dona M., mas todos admitimos, no final da noite, que foi um dos pontos altos da nossa saída.

 

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Seguimos caminho pela noite dentro, e à porta da célebre Portugália encontramos mais um par de almas com quem pudémos trocar ideias, mas não nomes.

 

O vício a que ambos sucumbem diariamente não lhes tirou a vontade de também nos receber bem - ela com mais histórias tristes entaladas na garganta, ele com uma cultura relativamente vasta que deu azo a saudáveis disputas de conhecimento geográfico e matemático, passámos por Aristóteles e até pela natureza e alcance de algumas das mais famosas rodovias de Portugal.

 

Saí dali a duvidar dos meus próprios conhecimentos, mas as dúvidas não tomaram conta durante muito tempo até chegarmos à nossa última paragem.

 

Perto do jardim, a tensão tomou conta dos ânimos porque como seria de esperar, há dias em que a precariedade da situação de quem não tem teto leva a melhor perante a sanidade. Durante alguns minutos, o senhor R. revoltou-se com a nossa presença e a nossa atividade. Explicou-me, com uma raiva que na sinceridade do coração não era destinada a mim, como não precisava de chá nem de conversa, mas de pão... e pelo meu lado tentei fazê-lo ver como há tantos de nós - não os suficientes, mas tantos ainda assim - que tentam dar um pouco de si para ajudar de formas diversas a suprir necessidades diferentes. De alimentação, de conforto, de companhia.

 

O R. não se deixou demover na sua causa, mas ao longo da conversa onde por várias vezes me desancou como se não houvesse amanhã, não pude deixar de me ir acalmando e sentido que, mesmo que a dinâmica estivesse a ser diferente neste caso, eu estava a cumprir a minha missão. Ele não precisava de ter ficado a falar comigo, por mais que se tenha exaltado em alguns momentos... mas ficou, o que por si só demonstra uma necessidade de interação. Uma interação que aparentemente pode não parecer positiva, mas foi. Porque ele precisava de a ter, para se libertar dos demónios naquela noite, e eu precisava de estar do outro lado, para aprender a esperar e a transformar uma experiência negativa em algo positivo para mim e para os outros.

 

Não fui para casa sem travar um último conhecimento com um grupo de jovens que conversava alegremente à volta de uma mesa no jardim. A forma simpática e acolhedora como nos abordaram foi surpreendente, particularmente pelo A., um miúdo grande bem habituado a viver a vida no limite.

 

Com 35 anos, não trabalha mas subsiste à força de participações em competições e corridas de touros que já lhe cavaram boas partes do corpo. Um delinquente ou um sanguessuga, quase consigo ouvir os julgamentos automáticos na minha cabeça... mas a ideia com que fiquei do A. vai muito além da aparência. Naqueles poucos minutos que estivemos juntos, contou-me muitas das suas asneiras, mas o que ficou no final de contas foi a certeza de que encontrei alguém desligado das pré-conceções da sociedade, despregado de todas as limitações que nos dizem o que devemos ser e fazer.

 

O A. escolheu-se a si próprio de formas que muitos de nós não ousamos escolher. E além do preconceito fácil que é possível gerar automaticamente sem reflexão nenhuma, prefiro admirá-lo. Porque no gume da faca e no limite da corda banda, pareceu-me profundamente feliz.

 

 

 

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Cartas para Estranhos #10

por Catarina d´Oliveira, em 03.06.15

A décima que ficou por aí, e ficou perto de casa e perto do coração.

 

E a quem a encontrar e a todos os outros, que nunca se percam em expectativas alheias e que deixem que seja o vosso Eu interior e determinar o caminho - mesmo que, e sempre, na companhia de quem vale a pena.

 

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"Olá estranho/a,

Quero começar por dizer que, ainda que muito provavelmente não te conheça, és uma pessoa fantástica e genuinamente boa. És tão talentoso/a que devias estar orgulhoso/a disso! Mas não é só isso que quero que saibas... há mais.

Tu ainda ÉS mais. Um suspiro inapagável, e que não se parece com nenhum outro - isto é a tua identidade. Não são as tuas notas ou as tuas teses. Ou os teus amigos e os teus romances. Ou o teu trabalho e o teu dinheiro (ou falta deles). É aquilo que está dentro de ti e que determina tudo o que fazes que vale a pena. E às vezes a sociedade, ou a família, ou alguém que conheces e amas vai tentar 'afogar' esse suspiro ao dizer: 'Faz isto! Não faças aquilo! Acredita nisto! Tu és isto! E nada mais importa'

IGNORA-OS

Ouve aquela pequena voz dentro de ti, que te vai guiar para o que é melhor para ti no momento. É beleza e bondade puras. É o que dá valor às tuas ações, personalidade e crenças, e não o contrário.

Tu vales ouro, caro/a amigo/a.



De uma estranha como tu."

 

 

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Sobre o dia da criança...

por Catarina d´Oliveira, em 01.06.15

É lembrar que lhes pertence, como todos os outros, sem qualquer exceção. E mimá-los, prezá-los, ensiná-los, educá-los e continuar a construir-lhes o melhor futuro que sabemos.

 

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Mas para nós é também a eterna lição de aprendermos tanto com eles, como eles connosco. E sobretudo, de não nos deixarmos morrer por dentro e de continuarmos a ser, algures, a miudagem de sempre.

 

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