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Cartas para Estranhos #15

por Catarina d´Oliveira, em 22.09.15

É uma estranha luta, a de levarmos esta vida que, no fundo começa e termina da mesma forma: com a solidão. Faz parte da nossa missão procurar a nossa felicidade todos os dias, mas também fazer com que esses sejam os únicos momentos em que estamos sozinhos.

 

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"Querido/a estranho/a,

Independentemente de como te está a correr este dia ou esta semana, sei que vão haver momentos na tua vida em que vais sentir-te sozinho/a. Todos os temos, com manifestações mais ou menos dramáticas, mas ainda assim, a verdade é que estamos nisto juntos. Quer queiramos que não, estamos todos ligados, e todos passamos por emoções semelhantes, apenas em contextos diferentes... então estamos todos a tentar navegar por este mundo, e esta vida, enquanto tentamos sobreviver ao quotidiano e procurar a felicidade. E para isso precisamos uns dos outros.

Lembra-te disto, porque há um poder e conforto inexplicáveis ao recordarmos isto.

Deixa que os outros estejam lá para ti. Pede ajuda. Entrega-te. E depois, deixa que façam o mesmo. É no momento em que deixamos de olhar para o chão e nos damos conta do que existe à nossa volta que temos uma verdadeira hipótese de sermos felizes.

 

Um abraço enorme de uma amiga que (ainda) não conheceste"

 

 

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Conversa Amiga #7

por Catarina d´Oliveira, em 16.09.15

Avisaram-nos que em setembro poderiam existir alterações na escala de voluntários e áreas cobertas e parece tiro certo porque quando isso acontece, lá ando eu a saltitar de lugar. Não me queixo - acho que doses de estabilidade são sólidas na vida, quando temperadas com cheirinhos de mudança. E foi mais uma.

 

Não propriamente uma mudança radical. Voltei ao Oriente, a casa onde comecei, aqui há uns meses.

 

Chegámos a uma hora crítica - estavam a decorrer distribuições de comida, pelo que a estação e toda a área circundante estavam atipicamente vazias. Esperamos e procuramos outros recantos até o movimento do costume se instalar.

 

Não vi muitas caras conhecidas desde as últimas vezes que lá estive, mas consegui reencontrar o saudoso M., uma figura do Oriente que nos habituou desde sempre à boa disposição, às piadas malandras (sem serem malandrecas) e à predisposição orgânica para uma boa conversa. Trocamos dois beijinhos e umas palavras rápidas de lembrança, porque o nosso reencontro a sério estava marcado para mais tarde - já lá iremos.

 

Continuei a andar pelo estação com um colega quando nos aproximamos lentamente de uma dupla de caras novas. Ficamos sem lhes saber os nomes, mas exploramos uma partícula da sua história. Um deles tinha já saído da Índia há mais de 15 anos, tendo-se estabelecido por Algés, onde chegou a trabalhar uns tempos. O Oriente é casa nova de poucos dias. Foi aqui que recebeu o jovem amigo, a quem tem dado a mão sempre que precisa.

 

É uma coisa fantástica esta que encontramos a cada saída. É verdade que há despiques e contendas - como em todas as pequenas ou grandes sociedade. No entanto, não deixa de me surpreender o companheirismo e a entreajuda que encontramos na rua. Quando se tem pouco mais que nada e mesmo assim há a vontade de dar a mão, de apoiar, de ajudar a prosperar. Conforta-me sempre descobrir que se despirmos as pessoas das necessidades fingidas e dos adereços materiais elas continuam a ser... pessoas, e boas pessoas.

 

E foi bondade pura que este Homem me transmitiu, mesmo entre a dificuldade de dançar entre duas línguas que não dominava completamente. Disse-me que já não procurava trabalho mas que já tinha sido feliz, e que os momentos menos bons - como este - fazem parte. "But it's ok. It's life", disse-me a sorrir.

 

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(© Copyright Jim Hubbard)

 

Despedi-me da dupla enquanto o meu colega ajudava o mais novo a orientar a documentação que necessita para procurar trabalho - aqui oferecemos companhia e conversa, mas também podemos potenciar facilidades em diversas situações relacionadas com saúde, documentação e apoios, e ainda retirá-los da situação de sem-abrigo - o que felizmente acontece algumas vezes, mas apenas e só com a mobilização correta e, sobretudo, com o desejo e compromisso total da pessoa que pretendemos ajudar.

 

Foi depois a vez de me sentar um bocadinho com o C., outra cara conhecida de vista mas com quem creio que nunca tinha conversado. Erro crasso, como viria a comprovar minutos apenas depois.

 

E o C. é um exemplo infeliz de uma sociedade mal-agradecida. Não julgamos ninguém com quem nos cruzamos, e muito menos os seus motivos, mas o C. nunca fez (mal) para estar nesta situação. Sem drogas, álcool ou desemprego no currículo, é apenas vítima de um sistema que continua a não funcionar.

 

Durante quase 30 anos foi técnico numa fábrica que produzia bidons. "Há muitos anos, precisávamos de uns 20 homens para fazer un 10 bidons por dia. Agora fazem uns 200 por dia - com dois homens e o resto são máquinas". Não precisou de me explicar a história para deduzir como aconteceu. É um sinal dos tempos industriais, as maquinas a substituírem os homens que, de repente, vêm a sua arte reduzida a um código de um instrumento que não conseguem operar.

 

Mas mesmo em situação desfavorável, o C. tentou fazer por si. "No centro de emprego descobri um curso de robótica que complementava muitos conhecimentos que já tenho. É claro que muito dificilmente empregariam um homem como eu, com 63 anos, mas queria mesmo tentar e sinto que, pelo menos, ia gostar muito". O curso acabou por não acontecer. "Não havia alunos suficientes?" - perguntei a pensar que já sabia a resposta. "Não. Não havia formadores". Fiquei com a sensação de que, em casos específicos, fferecem-se, portanto, fantasias e não exatamente ferramentas úteis. Oferecem-se sonhos que nem sequer somos capazes de suportar. E é tudo profundamente desmotivante.

 

"Trabalhei toda a vida e agora vejo-me nesta situação. Estou melhor que muitos aqui, mas não posso, por exemplo, prescindir de vir aqui buscar comida. Não é que sinta vergonha, mas depois de 30 anos a trabalhar merecia mais dignidade". Felizmente há alguma possibilidade no futuro do C. A reforma na íntegra é possível aos 67 - "vou esperar até lá. Prefiro isso do que levar um corte brutal e ficar quase como estou agora. Não me conseguia manter sozinho na mesma... portanto mais vale esperar..." disse-me com um ar triste mas conformado.

 

Por ali continuamos a conversar mais um pedaço, sobre a preversidade do mercado de trabalho - cada vez maior tanto para novos como para velhos - até o C. partir para casa. "Amanhã cá estou outra vez. Vemo-nos daqui a duas semanas?". Espero bem que sim, caro amigo.

 

Já não sobrava muito tempo na minha noite, mas voltei a cruzar caminho com o M. Entre uma conversa a três que juntou também outro colega voluntário, discutimos os seus tempos no exército, a tropa, os treinos suados e sangrentos, as missões, e as instituições militares do passado e do presente.

 

Mas o que mais me cativou na conversa foi o início, antes mesmo de entrar no domínio de quarteis e botas de biqueira de aço. Porque antes o M. falou-me de pessoas, das suas pessoas. E mais uma vez voltei ao tema da antreajuda.

 

Em poucos minutos soube que o M. não se priva de um bom cigarro, mas que não bebe e trabalha sempre que consegue arranjá-lo. Mas sobretudo soube que o M. é uma pessoa de pessoas. Que leva quem precisa ao médico, que oferece mantas, que guarda pertences alheios, que é ali uma figura de respeito e de solidariedade. Mesmo que, em muitos casos, não lhe seja retribuida a benevolência.

 

É assim que deve ser. Fazer o melhor possível sem esperar nada em troca. Mas se todos o fizermos haverá bondade suficiente para distribuir pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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Por aí... #18

por Catarina d´Oliveira, em 08.09.15

 

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You build on failure. You use it as a stepping stone. Close the door on the past.

You don’t try to forget the mistakes, but you don’t dwell on it.

You don’t let it have any of your energy, or any of your time, or any of your space” 

- Johnny Cash

 

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Cartas para Estranhos #14

por Catarina d´Oliveira, em 03.09.15

Não há nada que possamos fazer de bom que necessite ser justificado.

 

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"Querido/a Estranho/a,

Provavelmente nunca nos conhecemos, mas achei que podia deixar-te isto de qualquer forma.

Não sei se alguém já to disse hoje ou nos últimos tempos, mas tu és uma pessoa fantástica e extremamente bonita. Não deixes que te mudem de acordo com o que acham certo ou convencional. Sê destemidamente autêntico/a.

O dia pode estar gelado e não aparentar ter fim, mas mantém a cabeça levantada e sorri. Os dias mais claros e quentes vêm a caminho.

Há coisas grandes à tua espera. Avança sabendo SEMPRE que és ESPECIAL.



De uma pessoa como tu"

 

 

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Conversa Amiga #6

por Catarina d´Oliveira, em 01.09.15

Mais um sábado à noite, mais uma aventura por Arroios.

Por experiência da noite anterior, saímos ligeiramente mais tarde para dar alguma margem ao nosso estimado público alvo de regressar de uma saborosa passeata ao final de tarde que agora, com o tempo de calor, se impera fazer quase todos os dias.

Começamos no lugar de sempre - o mercado. Passamos, sem demorar, por um senhor que não pede grandes companhias. Por traumas que reconhecemos a pouca distância, diz-nos que prefere não falar com mulheres. Afastamo-nos compreensivamente e deixamos os colegas rapazes a tratar do assunto enquanto seguimos um pouco mais à frente para encontrar o sr M. que nos aborda com a graça e simpatia de sempre.

Hoje tem com ele um fiel companheiro, o Pelé, cão do vizinho que lhe confia a guarda do amigo de quatro patas sempre que este necessita de esticar as pernas ao ar livre. É incrível como a relação é notável mesmo à distância... Quando chegamos, o jovem cão olha-nos sem ladrar mas com ar desconfiado: "ele reage sempre às pessoas que passam aqui, e consegue perceber quem é que vem para fazer mal e quem é que não vem. Por isso é que não fez nada, porque sentiu que vocês eram amigos".

Concordamos com a lógica óbvia da asserção, mas não pudemos deixar de pasmar perante a cumplicidade entre ambos. O sr M recostado a fumar o último cigarro do dia, e o Pelé muito sossegado, deitado aos seus pés, e pedindo a ocasional destinha da praxe. Parecia um autêntico quadro de paz e liberdade.

As outras paragens futuras impuseram-se na necessidade de termos de desejar boa noite ao sr. M. e seguir caminho.

 

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Perto do jardim reenontramos outro suspeito dos nossos costumes, o bom velho L. Russo de nascença, ainda sente dificuldade com as manhas do português, mas de alguma forma que não é mágica mas quase, acabamos por conseguir comunicar.

É um baque no coração, sempre que o encontramos. Outrora era uma das almas mais bem dispostas da zona, mas hoje é um homem quebrado. Um problema grave numa das pernas requer já uma severa amputação, mas o bom L. é, como costuma dizer-se na gíria, "burro velho e teimoso". E é o sofrimento que ela lhe dá que acabou por sugar a felicidade que carregava todos os dias.

Hoje anda meio zangado, meio melancólico, mas irredutível na decisão que tomou. Despedimo-nos com a sensação amarga do dever cumprido mas da impotência de poder oferecer mais - por vezes, o impacto com a realidade de que não somos os salvadores de Lisboa e de que a nossa assistência tem limites pode ser duro.

Pela igreja temos mais duas paragens obrigatórias: o bem disposto S. cuja perna partida já está com ótimo aspeto depois de ter andado a gesso, e o caríssimo F., que arranjou só para ele um cantinho à luz de um lampião e que estava todo contente porque o seu (e meu!) Sporting estava a ganhar o jogo - quem marcou, isso já não sabia, mas pouco importava na realidade.

E como o jogo, a noite foi mais uma pequena vitória. Serena mas certa. Porque para o Bom acontecer, basta que nos reunamos sempre nos sítios do costume. E alí, no mercado, no jardim, na igreja, fica a nossa marca neles, e a marca deles em nós. Como no resto da vida, e como nas verdadeiras amizades.

 

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