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A dona Amélia e as suas compras

por Catarina d´Oliveira, em 19.06.14

Foi apenas há uns dias que me cruzei na rua com a dona Amélia.

 

Calhou num daqueles inícios de tarde infernais, da onda de calor insuportável que nos assolou a semana passada e que se foi embora tão depressa quanto chegou.

 

Dei por ela quando estava à espera da viragem de um sinal - vinha no sentido contrário do meu, e além de lutar com o carregamento de sacos muito mais pesados do que a sua idade e estatura deviam permitir, parecia-me uma senhora com genica e uma obstinação adorável em ainda retirar coisas boas da vida. Não estava enganada, mas já lá iremos.

 

Quando o sinal ficou verde, dei uma pequena corrida até ela e resolvi oferecer uma mãozinha: "boa tarde minha senhora... ora diga-me lá, não quer uma ajudinha com esses sacos? Mora perto daqui?". Endireitando um pouco a postura curva que tinha até então, a dona Amélia olhou para mim, sorriu e disse da forma mais amorosa de sempre: "oh minha querida... quanta simpatia. E olhe, vou aceitar, isto noutros tempos era uma coisa mais fácil de se fazer... mas também desconfio que entretanto tornaram as compras mais pesadas!".

 

Não pude deixar de rir enquanto lhe pegava nos sacos e ofereci o braço para que se amparasse em mim. Caminhámos pelo que me pareceram ser uns 10 minutos - a casa da dona Amélia não ficava longe, mas o respeito pelos pequenos passinhos que dava pela calçada (e pela vida) era imperativo.

 

Quando chegámos ao prédio azul claro, meio envelhecido, subi com ela até ao segundo andar para dar por terminada a missão do dia. "Oh minha querida... agora não a posso deixar sair sem pelo menos beber um leitinho e aceitar umas bolachinhas. Vá, faça-me lá a vontade".

 

Senti-me novamente uma criança de 8 anos, mais fui incapaz de não aceitar - não só para não ser rude, mas sobretudo porque o calor e amabilidade da dona Amélia me tinham impressionado desde aquele singelo momento em que nos cruzámos na passadeira.

 

"Vive sozinha?" perguntei a certa altura... a dona Amélia sorriu: "Deus me livre filha... não, não. Felizmente tenho ainda o meu marido comigo. Ele é que gosta sempre de tirar a tarde para ir um bocadinho ao café para estar com os amigos. E faz ele muito bem! Em tantos anos, precisamos sempre de umas pausas uns dos outros não acha?", disse-me ela enquanto acabava com uma pequena gargalhada.

 

[não tive oportunidade de tirar nenhuma fotografia neste dia, mas fica esta, QUE NÃO É MINHA, por propósitos de ilustração; imagem de Chrys Campos]

 

Nos poucos minutos que estive naquela casa, tive a oportunidade de percorrer uma série de fotografias que lá se encontravam. Gosto sempre de o fazer, mas especialmente neste caso, porque eram fotografias atípicas para a casa de um casal de idosos, onde costumamos encontrar retratos "rígidos" e quase tipo passe dos netos, dos filhos. Não... ali só encontrei fotografias de férias, de grandes grupos de pessoas a sorrir, de crianças em saltos acrobáticos para a piscina, da dona Amélia e do seu Joaquim a darem um beijo pela ocasião dos seus 40 anos de casamento.

 

Falei-lhe sobre esta diferença agradável que tinha notado e ela sorriu e encolheu os ombros: "são as únicas fotografias que me interessam, minha querida. Não preciso de ver os meus filhos e os meus netos com caras bonitas, e penteadinhos, e com as costas doridas numa cadeira horrorosa. Quero olhar para eles e vê-los felizes, a fazer o que gostam!".

 

Não pude deixar de concordar. É nisso que se baseia a vida. Nos momentos onde a contenção deixa de existir, e onde o prazer da partilha desfoca tudo à volta que não interessa realmente.

 

"Todos os dias agradeço a Deus porque tive uma vida muito feliz. E continuo a ter! Não julgue que por ser velha, não continuo a aproveitar! Ainda no ano passado fui com os meus filhos e netos para uma casa de férias que temos no Alentejo... e veja bem que esta velha ainda se foi enfiar na piscina! Ah... não há nada como aquele paraíso... e este ano vamos outra vez!".

 

Ainda conversamos mais um bom bocado. E ali fiquei em, com o cotovelo pousado na mesa e a mão no queixo, embevecida a ouvir as histórias da dona Amélia, que repetidamente me provavam o amor que tinha e continua a ter pela vida.

 

"Obrigada pelo lanche dona Amélia... e deixe que lhe diga uma coisa: é uma senhora toda p'rá frentex, e fiquei mesmo muito feliz de a conhecer. Nunca deixe de ter essa garra pela vida... Eu tenho 24 anos e vou daqui cheia de vontade de viver coisas novas por sua causa. Muito, mas muito obrigada".

 

Ela sorriu e respodeu-me com palavras muito mais simpáticas e enaltecedoras do que merecia ouvir. Desci os lances de escadas em corrida, com uma alegria renovada, e mal abri a porta da rua, aquele bafo diabólico de 35 graus voltou a abater-se sobre mim. Mas desta vez não me amoleceu, nem me fez perder o ânimo.

 

Tinha acabado de conhecer uma das inspirações que sei que vou levar comigo para toda a vida, e isso bastou para ter a certeza que, um dia, quando for a minha vez, também vou ter uma vida de boas histórias para contar, com fotografias e lembranças de felicidade e bondade espalhadas por todo o lado.

Está na altura de começar a trabalhar nisso!

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4 comentários

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De Sofia Marques a 19.06.2014 às 16:52

Opah tão lindo!!! Que bela lição :-D
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De Mário Botelho a 24.06.2014 às 23:14

"Dêem-me duas velhinhas, eu dou-vos o universo." ;)
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De meninaquenaosabenada a 27.06.2014 às 11:52

Uauuuuuuuuu!! Tão lindo e ao mesmo tempo muito emocionante esta tua historia,admiro-me de haver pessoas assim com tanta humildade no coração,isso é muito raro hoje em dia!! Beijinhos para ti Catarina e espero que daqui para a frente sejas muito feliz!!
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De BataeBatom a 03.07.2014 às 10:31

Adorei o nome do blog e o post. Lindos e inspiradores.
Vim aqui ter por acaso e fiquei fã.

Parabéns e felicidades!

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