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Conversa Amiga #2

por Catarina d´Oliveira, em 16.04.15

 

Diz-se que, nas lides da arte teatral, o segundo espetáculo é sempre aquele que corre pior. Já tive o prazer de estar na pele de quem sobre ao palco e de atestar a inglória verdade desse facto.

 

No último sábado não subi a nenhum palco, mas à semelhança da exposição teatral, tentei, pela segunda vez, ajudar a melhorar a noite de pessoas a quem o tempo e a vida negligencía - não esquece, porque a ferida está lá sempre, mas desmazela-se no trato.

 

Reunimo-nos no sítio de sempre numa noite que estava menos fria do que a anterior e, não sei se por isso ou se auxiliada pelo desembaraço de já não ser a primeira vez, senti-me melhor, mais capaz e sobretudo, mais próxima daquelas pessoas que começo a conhecer.

 

Abri caminho por uma das pontas da estação, e a primeira figura que encontrei foi a do senhor M., sentado muito calmamente à espera da enfermeira que nos acompanha sempre nas saídas. "Então amigo, como é que está isso hoje?", pergunto com o maior sorriso que consigo arranjar e lembrando-me da formação que aconselha a não questionar "está bom?" - evidentemente, se estivesse, não estaria na rua.

 

O olhar dele é sereno, não exatamente triste, mas para me responder leva a mão ao maxilar. "Mais ou menos... tenho aqui uma dor de dentes que me tem atormentado a semana toda. Estes já são todos para arrancar". Assenti solidariamente - não há maçada equivalente a uma dor de dentes persistente. Mas os (vários) dedos de conversa que trocamos ao longo da mais de meia hora não se cingiram à malfadada maleita que apenas um especialista poderia resolver.

 

Com umas cores de fazer inveja, o senhor M. contou-me que era pedreiro, e que aquele bom ar era nada menos que um osso do ofício - um osso bicudo até, para quem não simpatiza com calor. Sorri e disse-lhe que não podíamos estar em maior desacordo, e expliquei-lhe como o sol era importante na minha vida. "Pois imagino... mas cá para mim não. Prefiro o frio. Mal vem o calor começo a ter problemas, de circulação e tudo. Eu é mais frio. Chuva não, mas frio sim".

 

A propósito da animada discussão meteorológica, e das oscilações que sentiu no processo, o senhor M. acabou por me contar um pedaço da sua entusiasmante aventura pelo Caminho de Santiago. "Conhecem-se pessoas muito boas pelo caminho. Algumas más também... mas muitas boas. E aprendemos muito com elas. Uma vez numa estalagem estive com uma senhora espanhola a noite toda a conversar e a ver as estrelas. Depois foi cada um para o seu canto e nunca mais a vi". Soma-se assim uma mão cheia de milhares de km nas pernas de gémeos musculados, e uma arca infindável de memórias que espero poder voltar a explorar em encontros futuros. Mas vamos com calma, uma noite de cada vez.

 

IMG_1277.JPG

 

Desejei-lhe as melhoras e uma noite descansada e prossegui mais um pouco até encontrar as minhas primeiras caras conhecidas. O famoso C. das charadas e a esposa M. que hoje vinha mais bem disposta e até me agraciou com dois beijinhos: "boa noite minha linda! É Catarina não é?" - é sim senhora!

 

Por ali perdi mais uns bons 45 minutos - com menos charadas do que na primeira noite, e mais histórias. Fiquei a perceber melhor a dinâmica da vida esforçada do casal - trabalham todos os dias sem exceção - e a ter uma melhor compreensão sobre como são vistos pelos outros, que somos nós. "Às vezes vou ali ao café e olham-me logo de lado porque já me conhecem. Noutra vez estava aqui em baixo com o Cris. a beber uma cerveja e umas raparigas afastaram-se logo porque devem ter achado que eramos bebados. Mas já não se pode beber uma??".

 

O preconceito está-nos entranhado, além da pele, no sangue.

 

Para o final da noite, voltaram as charadas, e senti-me orgulhosa por ser capaz de resolver duas - repetidas da primeira noite, é verdade, mas ainda assim...

 

Já a queimar os últimos cartuxos, ainda tive tempo de tirar cinco minutos para o senhor L. ou Serra, como costuma introduzir-se - sentado mesmo ao lado do senhor A. que segundo consta também apanhamos num dia de boa disposição excecional e que conta com um par de olhos dos mais bonitos que já vi. Quanto ao L., mantém-se sereno mas com uma boa disposição inimitável. Entre trocas simpáticas e uma apresentação que deu direito a beijinho na mão, lá partilhou a preocupação de uma vida polvilhada de doenças familiares. "É tudo muito difícil e muito triste... mas nós que ficamos cá temos de continuar a batalhar não é verdade?".

 

A estação começa a sossegar - quem tem quarto ou casa ausenta-se e quem chama àquele lugar casa começa a aninhar-se para uma dormida que terminará pelas 06:00, quando as luzes voltarem a ser acesas.

 

Nas próximas duas saídas não conseguirei estar presente com a Associação,  mas mal posso esperar por voltar a tentar fazê-los sentir um pouco mais em casa e na vida, tal como o fazem a mim.

 

 

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