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Conversa Amiga #4

por Catarina d´Oliveira, em 15.06.15

Depois de uma saída de ausência tive o prazer de voltar a um lugar que me preenche a alma.

 

Reunimo-nos, como sempre, uma hora antes da saída, trocámos ideias entre a equipa e finalmente partimos, divididos em quatro dentes de uma forquilha que só deseja ajudar a enfraquecer o monstro da solidão que assola tantos e tão bons pelas ruas de Lisboa.

 

Voltei a Arroios naquela que parece vir ser a minha casa, de quinze em quinze dias, nos próximos meses, e apesar de a zona ser célebre por promover a relação prolongada com as mesmas pessoas, fim-de-semana após fim-de-semana, só reencontrei uma cara familiar desde a primeira vez que lá estive.

 

Quando chegámos, lá estava a boa E. a empilhar os seus pertences para preparar mais uma noite debaixo da proteção da igreja. Cumprimentou-nos com um sorriso simpático, aceitou o nosso chá, e parou por momentos a sua frenética arrumação para trocar uns dedos de conversa connosco.

 

Como aconteceu com outros, a E. conseguiu ser colocada num quarto há relativamente pouco tempo, mas também como muitos outros, optou por deixá-lo e regressar às ruas que já hoje conhece melhor do que a si mesma. Pode parecer pouco apropriado ou agradecido que o tenha feito, mas à medida que nos explicou como nem era capaz de usar a cozinha em curto-circuito, ou de ter um momento de privacidade numa casa que desconhecia e não supria as suas necessidades, continuei, como ao longo das poucas saídas que fiz, a compreender um pouco mais das razões e motivações que tantas vezes desconsideramos como válidas a estas almas que o tempo não faz esquecer.

 

Quando chegou o transporte responsável pela distribuição de comida, lá se despediu de nós com a maior das simpatias e foi buscar a caixinha que lhe estava destinada. Pousou-a entre a trincheira de cartão que construiu para a noite, e voltou às suas coisas - que são tantas que é impossível conceber como as carrega para todo o lugar onde vai, como me confidenciou uma colega. A E. é o que comummente designamos de "acumulador compulsivo", e apesar de já vários a terem tentado ajudar ao designar um cacifo para proteger os seus bens, estes foram sempre crescendo, em quantidade e em aparente inutilidade à vista desarmada dos olhos que não são o dela. "Eu sei que tenho muita coisa, mas todas as coisas são importantes para mim e gosto de as ter comigo para me lembrar". E ninguém tentou nem quis discuti-lo.

 

A zona estava surpreendente e especialmente vazia naquele início de noite, e preparavamo-nos para "mudar acampamento" quando nos apareceu a adorável dona M, uma ternurenta senhora nonagenária a quem o que falta de ouvido compensa com boa disposição e um conhecimento enciclopédico de rimas de quatro versos que nos deixaram a todos com um sorriso que dava para aguentar três vidas inteiras.

 

A comunicação foi quase impossível, pois a cada pergunta surgia uma gargalhada tímida mas absolutamente adorável que denunciava a tal falta de audição e a subsequente resposta com mais uma rima para nos embalar o peito. Ficou, no entanto, a irredutível prova da possibilidade de comunicação profunda e intensa além da troca verbal tradicional a que estamos habituados. Ninguém naquela noite conseguiu, efetivamente, conversar nos meandros costumeiros com a dona M., mas todos admitimos, no final da noite, que foi um dos pontos altos da nossa saída.

 

maria.jpg

 

Seguimos caminho pela noite dentro, e à porta da célebre Portugália encontramos mais um par de almas com quem pudémos trocar ideias, mas não nomes.

 

O vício a que ambos sucumbem diariamente não lhes tirou a vontade de também nos receber bem - ela com mais histórias tristes entaladas na garganta, ele com uma cultura relativamente vasta que deu azo a saudáveis disputas de conhecimento geográfico e matemático, passámos por Aristóteles e até pela natureza e alcance de algumas das mais famosas rodovias de Portugal.

 

Saí dali a duvidar dos meus próprios conhecimentos, mas as dúvidas não tomaram conta durante muito tempo até chegarmos à nossa última paragem.

 

Perto do jardim, a tensão tomou conta dos ânimos porque como seria de esperar, há dias em que a precariedade da situação de quem não tem teto leva a melhor perante a sanidade. Durante alguns minutos, o senhor R. revoltou-se com a nossa presença e a nossa atividade. Explicou-me, com uma raiva que na sinceridade do coração não era destinada a mim, como não precisava de chá nem de conversa, mas de pão... e pelo meu lado tentei fazê-lo ver como há tantos de nós - não os suficientes, mas tantos ainda assim - que tentam dar um pouco de si para ajudar de formas diversas a suprir necessidades diferentes. De alimentação, de conforto, de companhia.

 

O R. não se deixou demover na sua causa, mas ao longo da conversa onde por várias vezes me desancou como se não houvesse amanhã, não pude deixar de me ir acalmando e sentido que, mesmo que a dinâmica estivesse a ser diferente neste caso, eu estava a cumprir a minha missão. Ele não precisava de ter ficado a falar comigo, por mais que se tenha exaltado em alguns momentos... mas ficou, o que por si só demonstra uma necessidade de interação. Uma interação que aparentemente pode não parecer positiva, mas foi. Porque ele precisava de a ter, para se libertar dos demónios naquela noite, e eu precisava de estar do outro lado, para aprender a esperar e a transformar uma experiência negativa em algo positivo para mim e para os outros.

 

Não fui para casa sem travar um último conhecimento com um grupo de jovens que conversava alegremente à volta de uma mesa no jardim. A forma simpática e acolhedora como nos abordaram foi surpreendente, particularmente pelo A., um miúdo grande bem habituado a viver a vida no limite.

 

Com 35 anos, não trabalha mas subsiste à força de participações em competições e corridas de touros que já lhe cavaram boas partes do corpo. Um delinquente ou um sanguessuga, quase consigo ouvir os julgamentos automáticos na minha cabeça... mas a ideia com que fiquei do A. vai muito além da aparência. Naqueles poucos minutos que estivemos juntos, contou-me muitas das suas asneiras, mas o que ficou no final de contas foi a certeza de que encontrei alguém desligado das pré-conceções da sociedade, despregado de todas as limitações que nos dizem o que devemos ser e fazer.

 

O A. escolheu-se a si próprio de formas que muitos de nós não ousamos escolher. E além do preconceito fácil que é possível gerar automaticamente sem reflexão nenhuma, prefiro admirá-lo. Porque no gume da faca e no limite da corda banda, pareceu-me profundamente feliz.

 

 

 

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