Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conversa Amiga #5

por Catarina d´Oliveira, em 04.08.15

 

Por várias impossibilidades, há algum tempo que não voltava à rua com a minha equipa para conversar com pessoas que tantas vezes fingimos que não existem, apenas por ser mais confortável.

 

Não me sentia nos meus dias, mas o dever e a alegria de poder fazer algo como isto, duas vezes por mês, deu-me as forças que precisava para arrancar de casa pelas 18h30. Depois da reunião do costume com o pessoal de todas as equipas, lá arrancamos para o nosso "poiso" perto das 20h.

 

O verão dita que as noites são calmas - ficam para trás os que têm preguiça de esticar as pernas num passeio que aproveita o bom tempo ou os que nada têm a fazer fora do canto que aprenderam a chamar casa.

 

Como sempre, pelo Mercado de Arroios, é o senhor M. o primeiro que encontramos, e ainda por cima, cheio de boas notícias. "Então e diga-me lá, como é que está a situação do Cartão de Cidadão?", perguntei. "Já está tudo tratado! Uma amiga minha que conheço há muitos anos tem-me ajudado... e agora até me orientou os papéis para ficar com um quarto e com o RSI (rendimento social de inserção)!". Fizemos todos uma festa enorme. "Ela... é como se fosse uma filha para mim". E todos entendemos o sentimento - não conheço o senhor M. há muito tempo, mas já consegui perceber que é um homem profundamente bom, preso a circunstâncias más, mas com o coração de um gigante.

 

martins.jpg

 

Passadas as boas notícias, ainda entrámos numa animada discussão sobre carros e parquímetros - parece que além de tudo, o sr. M. é um religioso guardião dos carros da zona, e os vizinhos da redondeza confiam-lhe alguns truques para escapar e fintar a malta da EMEL.

 

À conta daquilo ainda demos boas gargalhadas, e foi com agradecimentos sobre as preciosas dicas de estacionamento que nos despedimos do M. até duas semanas depois.

 

Seguimos pela avenida Almirante Reis onde reencontramos uma cara conhecida de outros tempos - eu vi-o ali pela primeira vez, mas parece que o Picoli (como é carinhosamente conhecido) é cliente antigo da casa. Estava distraído com um jornal na mão a tentar arrumar uns carros quando nos aproximamos, e mal nos viu, fez a festa equivalente a um amigo de largos anos.

 

"Vês? Eu não me esqueço. Ainda estou a usar a pulseira que me deste! Ainda por cima faz sucesso com as miúdas", atirou para uma das nossas voluntárias. Apesar dos problemas que já se lhe conhecem (a apetência particular para se meter em sarilhos e em garrafas maiores que os seus limites), o Picoli é um porreiro extrovertido.

 

Ficámos em amena cavaqueira com ele bem mais de meia hora, enquanto punha a conversa em dia com os voluntários que já trata por amigos em dia, e nos contava as suas aventuras mirabolantes nos dias de praia que não dispensa depois de arrumar uns carros de manhã, ou nas noites nubladas lisboetas quando as companhias deviam ter mais juízo do que ele. E, claro, mostra-nos o orgulho no seu (e meu!) Sporting. Guarda o boné religiosamente para que não o roubem (como já aconteceu noutras ocasiões infortunas), e promete com alegria que este será o nosso ano.

 

Seguimos caminho quando a noite já ia escura. Passámos pelo Jardim que estava atipicamente deserto, cruzamos mais algumas ruas sem sucesso, e só parámos novamente na Igreja, onde a E. está sempre e religiosamente a organizar todos os bens que pode chamar de seus. Todas as noites, de todos os dias.

 

Nunca nos abordou com antipatia ou distância, mas também nunca se tinha aberto muito para nós além do politicamente correto de uma conversa superficial. Naquele dia foi diferente. Naquele dia, pela primeira vez desde que todos nos lembravamos, a E. sentou-se ao pé de nós e falou até a noite acabar.

 

Falámos do seu passado na Madeira, que apesar de muito longínquo (saiu de lá com 12 anos) continua uma memória profundamente feliz e emocional. E falámos da profunda ligação que manteve com os animais que lhe passaram pela vida. E falámos de superstições estranhas que não fazíamos ideia de onde teriam começado.

 

Mais uma vez a noite acabou sem darmos conta, a trocar aventuras como um grupo genuíno de amigos que cada vez mais somos - nós para eles, eles para nós. Porque é quando proporcionamos a possibilidade de tratamento de igual para igual, com respeito pela história e pelas escolhas, que a magia acontece. Essa magia chama-se amizade.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D