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Conversa Amiga #6

por Catarina d´Oliveira, em 01.09.15

Mais um sábado à noite, mais uma aventura por Arroios.

Por experiência da noite anterior, saímos ligeiramente mais tarde para dar alguma margem ao nosso estimado público alvo de regressar de uma saborosa passeata ao final de tarde que agora, com o tempo de calor, se impera fazer quase todos os dias.

Começamos no lugar de sempre - o mercado. Passamos, sem demorar, por um senhor que não pede grandes companhias. Por traumas que reconhecemos a pouca distância, diz-nos que prefere não falar com mulheres. Afastamo-nos compreensivamente e deixamos os colegas rapazes a tratar do assunto enquanto seguimos um pouco mais à frente para encontrar o sr M. que nos aborda com a graça e simpatia de sempre.

Hoje tem com ele um fiel companheiro, o Pelé, cão do vizinho que lhe confia a guarda do amigo de quatro patas sempre que este necessita de esticar as pernas ao ar livre. É incrível como a relação é notável mesmo à distância... Quando chegamos, o jovem cão olha-nos sem ladrar mas com ar desconfiado: "ele reage sempre às pessoas que passam aqui, e consegue perceber quem é que vem para fazer mal e quem é que não vem. Por isso é que não fez nada, porque sentiu que vocês eram amigos".

Concordamos com a lógica óbvia da asserção, mas não pudemos deixar de pasmar perante a cumplicidade entre ambos. O sr M recostado a fumar o último cigarro do dia, e o Pelé muito sossegado, deitado aos seus pés, e pedindo a ocasional destinha da praxe. Parecia um autêntico quadro de paz e liberdade.

As outras paragens futuras impuseram-se na necessidade de termos de desejar boa noite ao sr. M. e seguir caminho.

 

cão.jpg

 

Perto do jardim reenontramos outro suspeito dos nossos costumes, o bom velho L. Russo de nascença, ainda sente dificuldade com as manhas do português, mas de alguma forma que não é mágica mas quase, acabamos por conseguir comunicar.

É um baque no coração, sempre que o encontramos. Outrora era uma das almas mais bem dispostas da zona, mas hoje é um homem quebrado. Um problema grave numa das pernas requer já uma severa amputação, mas o bom L. é, como costuma dizer-se na gíria, "burro velho e teimoso". E é o sofrimento que ela lhe dá que acabou por sugar a felicidade que carregava todos os dias.

Hoje anda meio zangado, meio melancólico, mas irredutível na decisão que tomou. Despedimo-nos com a sensação amarga do dever cumprido mas da impotência de poder oferecer mais - por vezes, o impacto com a realidade de que não somos os salvadores de Lisboa e de que a nossa assistência tem limites pode ser duro.

Pela igreja temos mais duas paragens obrigatórias: o bem disposto S. cuja perna partida já está com ótimo aspeto depois de ter andado a gesso, e o caríssimo F., que arranjou só para ele um cantinho à luz de um lampião e que estava todo contente porque o seu (e meu!) Sporting estava a ganhar o jogo - quem marcou, isso já não sabia, mas pouco importava na realidade.

E como o jogo, a noite foi mais uma pequena vitória. Serena mas certa. Porque para o Bom acontecer, basta que nos reunamos sempre nos sítios do costume. E alí, no mercado, no jardim, na igreja, fica a nossa marca neles, e a marca deles em nós. Como no resto da vida, e como nas verdadeiras amizades.

 

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