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Inspiração - Into the Wild

por Catarina d´Oliveira, em 27.10.15

 

Into the Wild é baseado na história verdadeira de Christopher McCandless, um americano recentemente saído da Universidade e com um brilhante futuro à sua frente. Aos 22 anos, ele opta por prescindir da sua vida privilegiada e partir em busca de aventura. O que lhe acontece durante este percurso transforma este vagabundo num símbolo de resistência para inúmeras pessoas. Era Christopher McCandless um aventureiro heróico ou um idealista ingénuo, um Thoreau rebelde dos anos 90 ou mais um filho americano perdido, uma pessoa que tudo arriscava ou uma trágica figura que lutava com o precário balanço entre homem e natureza?

 

Estas são questões que nos surgem, durante e depois do visionamento, mas às quais Sean Penn, que escreveu e realizou com uma precisão e graça magníficas, não nos dá resposta. O propósito nunca é julgar o protagonista, e talvez seja por isso que Into the Wild parece uma história tão honesta quanto crua.

 

É um filme de contradições, e apesar de o realizador simpatizar claramente com o protagonista, não pretende divinizá-lo. E Into the Wild é muitas coisas ao mesmo tempo: um entusiástico diário de bordo que passou por locais majestosos,  uma história de bravura, uma autodescoberta inspiradora, uma história devastadora de solidão e morte e ainda uma meditação sobre o significado do amor e da vida. Escapando ao materialismo, consumismo e a uma vida familiar profundamente infeliz, Chris renasce, passa pela adolescência e derradeiramente, enquanto busca a verdade que julga mais honesta, tem a sua lição de sabedoria. E nós temos mais que muitas.

 

Juntos exploramos o fascínio pela vida selvagem, o seu estatuto de pureza enquanto lugar livre das maldades da sociedade humana, mas também um espaço impiedoso e maior do que nós.

 

Juntos elaboramos sobre a nossa incessante necessidade de reinvenção, porque a viagem de McCandless é sobretudo um veículo de auto-descoberta e de emancipação humana.

 

Juntos meditamos sobre medidas de arrogância, inocência e ignorância, fatores soberanos do destino infortuno do jovem aventureiro.

 

Juntos estudamos a influência da sorte e da circunstância que tantas vezes moldaram o caminho de McCandless de uma forma diferente daquela que tinha planeado, levando-o a outros lugares e sobretudo propiciando o contacto com outras pessoas que viriam a ser marcadas por ele, e ele marcado por elas.

 

Juntos adquirimos a noção de que nos deixamos submergir no materialismo que tantas vezes nos tolda das verdadeiras experiências humanas que temos à nossa frente.

 

Juntos examinamos o idealismo que toma forma a partir de experiências e eventos específicos que ocorrem ao longo da nossa vida - no caso de McCandless, é muito alimentado por autores que estudou antes e durante a sua viagem.

 

Juntos caminhamos pela linha entre o isolamento e a intimidade, enquanto observamos McCandless a tentar isolar-se do mundo mas a cada passo pelo caminho a forjar relações profundamente íntimas com todos aqueles com quem se cruza pelo caminho (eventualmente, no final, percebe a necessidade do contacto humano e da ligação e partilha com os outros).

 

Juntos indagamos sobre a indefinição eterna da identidade, pois compreendemos com o exemplo de McCandless (que foi alvo de um estudo imersivo e intensivo por parte do autor Jon Krakauer) a nossa incapacidade inerente de conhecer totalmente outra pessoa.

 

Juntos descobrimos a importância do perdão e o perigo inerente de não o conseguir fazer, à medida que o ressentimento de McCandless em relação aos pais se torna uma questão cada vez mais fraturante em todos os panoramas da sua vida.

 

Juntos procuramos o significado da liberdade derradeira e a sua natureza utópica que parece requerer um total estado de isolamento.

 

No final de contas, Sean Penn traz-nos uma poderosa odisseia, uma ode a uma relação de amor tempestuosa com a natureza e à capacidade de salvação. A libertação de Alexander Supertramp no autocarro mágico tem uma pureza que assombrará todos aqueles que se arriscarem a percorrer esta viagem.

 

Conforme vemos o seu destino desenrolar-se, perguntamo-nos se estamos perante uma história de coragem ou de um egocentrismo egoísta. A resposta, contudo é apenas uma, e bem mais simples: sim, este é mesmo um filme inesquecível.

 

  

"Happiness (is) only real when shared

 

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4 comentários

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De FisioFemini a 31.10.2015 às 14:09

Wow, fiquei cheia de vontade de ver o filme! Obrigada pelo post fantástico :)*
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De Audrey a 31.10.2015 às 15:34

Adorei, também - desde os cenários às interpretações às personagens, criamos uma ligação forte com os vários eleementos do fime!
Gostava imenso de ler o livro, espero consgeuir.
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De Carolina a 31.10.2015 às 17:19

Acho que é um filme que marca quase toda a gente que o vê.

Lembro-me bem do dia em que o vi e da forma como me marcou. Lembro-me muitas vezes dele :)
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De Isa a 01.11.2015 às 02:51

Foi daqueles filmes que me deixou triste, pela mensagem arrebatadora que queria passar, mas que ficou maculada pelo desfecho. Compensei o murro no estômago com outros dois filmes do mesmo género, o Wild (com a Reese Witherspoon) e o Tracks (com a Mia Wasikowska) que me deixaram imensamente inspirada, apesar da mensagem não ser tão forte :)

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