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O senhor António e as lições do Ultramar

por Catarina d´Oliveira, em 09.09.14

Já há algum tempo que não fazia isto, mas ontem voltei finalmente a ter oportunidade de tirar alguns minutos do meu tempo para me aventurar por Lisboa e descobrir novas pessoas, novas histórias por contar.

 

Esta primeira jornada de regresso foi curta, mas não parca em significado.

 

Parei de forma insuspeita e sem esperar qualquer fruto no célebre miradouro de S. Pedro de Alcântara. Como em todas as tardes lisboetas, estava apinhado de turistas que se deleitavam com a vista privilegiada pela cidade. Mas não foi nenhum deles, pasmados perante a imponência da conquista quase milenar de D. Afonso Henriques para o reino de Portugal, que me captou a minha atenção.

 

Sentado num dos bancos laterais – aqueles que não enfrentam diretamente a magnificência da capital despida – estava ele de boina e olhar perdido nos pensamentos que, daí a segundos, eu viria a interromper.

 

 

Boa tarde! Olhe, eu sei que isto vai parecer esquisito… mas importa-se que me sente um bocadinho ao pé de si, a fazer-lhe companhia?”.

 

Como todos os outros que abordei até hoje, o senhor António olhou-me com alguma estranheza justificável – “mas o porque é que uma miúda de 20 e tal anos me vem agora chatear a cabeça? De certeza que me quer impingir qualquer coisa…” deve ser o que lhes passa pela cabeça. Mas não podia estar mais longe da verdade, como os que aceitam os dois dedos de conversa que tenho para oferecer acabam por descobrir.

 

Porque entendo a bizarria de ser abordado a seco, ainda para mais sem um propósito concreto que não a minha sede por histórias e partilhas, tento sempre começar por falar de mim, da minha história, e das minhas aventuras. Nunca é um tiro certo, e nunca tenho a mesma conversa. Umas vezes resulta, outras vezes não.

 

Se me pudesse dar um conselho para a vida toda… qual era?

 

Olhe menina… que aproveite tudo, tudo e que não perca tempo com coisas que não interessam”. Foi a resposta genérica que já esperava, mas aproveitei para tentar mergulhar mais fundo – “quando é que foi a primeira vez que pensou que devia ter aproveitado mais? Quando é que foi a primeira vez que teve medo de, de alguma forma, não ter levado da vida tudo o que queria?”.

 

Levou a mão à cabeça, e coçou-a por debaixo da boina castanha. Olhou o chão naquilo que não puderam ser mais do que alguns segundos. “Quando uma pessoa está na guerra… muda tudo. Passamos a dar valor às coisas que podemos perder sem darmos por isso. A guerra é muito feia, mas olhe que pelo menos a mim, tornou-me melhor”.

 

O que se seguiu foi uma crónica resumida dos tempos de luta no Ultramar. A reticência da mãe, o orgulho do pai e a Rosa, que como a flor que lhe dá nome, floresceu no peito do António.

 

Quando me fui embora, já há mais de 50 anos, já andávamos enamorados. Mas para mim não era nada muito sério. Para ela sim, mas para mim não. Mas depois estive lá, e vi tanta coisa que percebi que afinal tinha encontrado a minha esposa. Não lhe escrevi nem nada, mas quando cheguei casámos logo. Não ia deixar aquela febra para outro!” e deu uma sonora gargalhada, que eu evidentemente acompanhei.

 

 

Mas é isso menina. Às vezes precisamos de ver a desgraça para dar valor. E tive muitos amigos que não se safaram. Mas eu tive sorte. E voltei. E apesar de ter passado por dificuldades na vida, consegui sempre aproveitar as coisas boas. Penso eu. Gosto de pensar que sim”.

 

Ainda falámos mais um pouco, particularmente das especificidades dos tempos do Ultramar. O batalhão onde conheceu amigos que nunca esqueceu (e alguns que, miraculosamente, transporta consigo para os dias de hoje), um destacamento particularmente perigoso em Angola e todas as dificuldades por que lá passou, nomeadamente a fome, o medo constante do desconhecido e a miraculosa escapatória de uma morte certa.

 

Podia relatar toda essa história de inquietação e obstáculos, mas além de uma lembrança emocionada de um contacto de paz com refugiados numa mata (“foi um calor que nem lhe consigo explicar… ver aquelas pessoas salvas finalmente, depois de andarem uma carrada de meses ali enfiadas numa mata, sem ajuda nenhuma e cheias de medo”), de alguma forma, o que se imprimiu na minha cabeça sem necessitar do auxílio da gravação no telemóvel foi a lição do senhor António. A lição de vida e de Amor.

 

Porque é por elas que continuo a querer sair à rua e conhecer novas gentes, e é por elas que continuo a ser inveteradamente apaixonada por pessoas.

 

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5 comentários

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De BataeBatom a 09.09.2014 às 12:22

Que grande atitude! :)
Louvo a coragem que tens em abordar assim, "a seco" (como disseste), alguém. Os resultados valem a pena. :)
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De Charneca em flor a 10.09.2014 às 00:31

Obrigada por mais esta história enternecedora. Continua apaixonada por pessoas.
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De Mário Botelho a 14.09.2014 às 05:24

E quando o ipsis verbis com que relatas o momento se tornou uma questão de interesse para este teu seguidor (que já dificilmente se surpreende com a awesomeness das tuas iniciativas), tens a hombridade de confidenciar que em parte se deve ao auxílio da gravação do telemóvel. O que, supostamente, tiraria alguma magia permite que o leitor mais atento aprecie a dedicação e o pormenor com que trabalhas cada uma destas vivências.

Parabéns.
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De me a 08.01.2015 às 13:48

não deixes de escrever... chorei em todos os posts, estou inundada de emoções..
obrigada!
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De Le Cool Lisboa a 14.01.2015 às 12:18

Catarina,

Gostava muito de falar consigo, mas não cosnigo encontrar o seu e-mail.

Pedia-lhe que me enviasse um e-mail para lisboa@lecool.com?


Obrigada,

Ana

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