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Conversa Amiga #10

por Catarina d´Oliveira, em 03.11.15

Quero começar este post a afirmar com todas as certezas de que esta foi a melhor e mais inspiradora saída que fiz, desde que faço parte da família da ACA. Não sei se foi o simples facto de precisar desesperadamente de uma noite assim, aliado ao facto de ela efetivamente surgir ou se apenas estava destinado que assim fosse.

 

Os grupos sofreram pequenas alterações, e com elas voltei a Arroios, que já começo a considerar mesmo como uma segunda casa. Por lá sinto-me bem e sinto-me sobretudo a começar a fazer parte do quotidiano daquelas pessoas. Por lá sinto também que posso, aos bocadinhos, começar a cumprir melhor a missão a que me propus quando iniciei esta aventura.

 

Por a natureza da zona ser bicuda - em termos de organização espacial dos vários pontos que temos de cobrir em cada noite - resolvemos otimizar resultados e dividir-nos em dois subgrupos que atuaram isoladamente. Assim, segui caminho pela igreja e o jardim com dois colegas que gosto muito, mas sobretudo, que admiro todos os dias.

 

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Começamos por encontrar o S. que parece andar numa onda de azar. Depois de ter partido a perna há uns meses, ganhou uma infeção no olho no trabalho, há uns dias. A vista já aparentava melhoras mas dava sinais de dias de luta contra ventos e pestanas indesejadas. Mas nem por isso ele perde a boa disposição - lá contou, como sempre, de forma viva e alegre como tudo aconteceu e como nem a pouca sorte lhe tirou a vontade de continuar a trabalhar. "Mas olha por falar em ver... e o L. que me viu pela primeira vez? Ai o gajo nem 'tava a ver quem eu era mas depois ficou todo contente!".

 

Pois é, entretanto o S. lá deixou o seu episódio azarento para passar às boas notícias. O L. estava praticamente cego, mas lá cedeu aos cuidados médicos e agora já começa a recuperar o tacto com o que se passa à sua volta. A boa notícia, ainda a noite mal tinha começado, agoirava boas energias.

 

Pela igreja não nos alongamos, porque as nossas colegas lá passariam mais tarde, mas não deixámos de dar um caloroso beijinho de boa-noite à habitué E., ao T. que até estava mais bem disposto e deitado, bem refastelado e a jantar, o famoso "Trinitá", como é conhecido entre nós. Diz-me o meu colega Vasco que em anos de voluntariado nunca o viu de pé senão uma vez muito recentemente - mas ele lá está, estendido mas bem disposto, sempre disponível a uma palavra simpática ainda que resignado à preferência da existência na horizontal.

 

Chegamos ao jardim já perto das 21.30 e por lá cruzamo-nos pela primeira vez com o S., essa icónica figura do Jardim Constantino que nunca encontramos sem a guitarra.Na bagagem traz o abandono de Cabo Verde para uma aventura promissora na Europa que se traduziu em  vários anos de experiência numa companhia de bailado e de teatro. Por sequências e consequências pelas quais não atalhámos, esse caminho transformou-se num beco fechado, e hoje dedica-se a biscates para sobreviver e ajudar o irmão com as contas em casa, enquanto à noite se dedica à guitarra - "pratico pelo menos quatro horas por dia; temos sempre de nos manter ativos, senão não vamos aprendendo".

 

Com ele há sempre energia positiva no ar, um sorriso e conversa que dá para noites que nunca terminam. Hoje falamos de muita coisa mas sobretudo da vida. Da vida na dinâmica da rua e da vida no geral. "Há que tentar encontrar um equilíbrio porque os recursos estão muito mal distribuídos. 20% das pessoas têm demasiado e 80% andam a lutar pelos restos. Não está certo, manos". Foi neste seguimento que falamos do caso do V. que há poucos dias foi internado depois de um surto depressivo profundo.

 

"Ele andava bem e trabalhar... mas depois começaram a acontecer coisas más; deixou a medicação, perdeu o trabalho e às tantas já nos estava a afastar a nós. E isto também me obrigou a fazer um exercício de amizade - até onde posso ir eu, ajudando-te, sem que te esteja já a prejudicar o teu desenvolvimento e até o meu? É difícil de traçar uma linha... mas estamos sempre a aprender". E sem dar grande conta estavamos ali a discutir temas fraturantes como as disparidades sociais e relacionais, as filosofias de Platão, sabedorias que só podem nascer com vivências e de vivências que só se podem medir com sofrimentos e alegrias.

 

Com o S. é fácil perder a noção do tempo e do espaço e de ficar embriagado em ideias que deveriam mudar o mundo... mas lá tivemos de seguir caminho, e ele ficou na companhia da guitarra, na exata posição em que o encontramos.

 

Por ali perto abordamos mais dois indivíduos, ambos ucranianos de origem, mas que já aprenderam há muito a julgar Portugal como a sua casa. O V., mais velho e necessitado, via-se com um enorme gesso na perna direita enquanto que a esquerda também não estava particularmente forte. Era acompanhado por uma associação, mas por não conseguir deslocar-se por tragos maiores do que 10-15 m, há vários meses que segue sem apoio. Neste momento, encontramo-lo desiludido com promessas que não se cumpriram, e auxílios que não se concretizaram. Com as únicas armas que temos todas as noites - o chá e a conversa - convencêmo-lo a deixar-nos ajudar e sinalizamos o seu caso. Procura quarto, apoio de deslocação e, no fundo, qualquer tipo de ajuda seria bem-vinda. Não vamos descansar enquanto não conseguirmos fazer algo... No final, suplantando a desconfiança inicial, o V. só nos deixou gratidão imensa.

 

Do outro lado estava o A., que também sinalizamos. Depois de se separar da namorada saiu de casa com pouco ou nada, mas também não é disso que se queixa. "Estou bem aqui, e sozinho. Podia estar num quarto, mas estou bem aqui". É uma das coisas novas que descobrimos na rua, que muitas vezes temos de abrir horizontes além do que julgavamos possível... no entanto pediu-nos ajuda para regularizar situações relativas a documentação. Mais uma vez, e prestando o tipo de ajuda que no momento nos é possível (anotando as informações do caso e passando-as à base da assistência social), agradece-nos também, exaltando que tudo o que é mais importante na vida é ter bom coração. Despedimo-nos com um abraço e uma promessa, não de resolução, mas de tentativa absoluta de agilizar os processos.

 

Perto do jardim encontramos também o habitual L., que desde que teve um grave problema na perna esquerda nunca mais foi o mesmo. Meio adormecido, recebeu-nos, à primeira, com cara de poucos amigos, mas quando estavamos prestes a deixá-lo descansar e seguir caminho voltou a aparecer o S., o homem boa-onda que salva Arroios com um sorriso. Com meia dúzia de articulações brincalhonas pôs o L. a rir e numa boa disposição instantânea, e foi talvez aí que melhor percebi a sua importância para o equilíbrio frágil da zona. De facto, é só aparecer e tudo muda, e fica mais esperançoso, e mais otimista.

 

Deixamos o L. ao descanso que bem merecia depois de mais um dia duro, e voltamos ao jardim. Como um grupo de bons amigos e não de voluntários/público-alvo, sentamo-nos num banco a conversar sobre tudo e sobre nada enquanto iamos passando a guitarra entre nós - ninguém bate o S.; o tipo é craque do infinito no limite das seis cordas, mas não me fiz tímida e lá arranhei também eu uns acordes, como ele pediu.

 

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"Estava a pensar sobre o que falámos há bocado e há tempos uma amiga minha estrangeira disse-me que leu por aí na internet que estavam a haver umas perturbações no cosmos que estavam a trazer negatividade para o mundo... Se calhar foi isso que temos sentido nestes meses". Por alguma razão aquilo fez-me sentido - ou mais uma vez, quis que fizesse sentido. "Ei... e ela não te disse quando é que isso ia acabar não?" - perguntei. "Acho que está quase... era coisa de 4 ou 5 meses... E depois de uma onda negativa vem sempre algo melhor. É a lei da vida".

 

Fiquei a pensar naquilo, e nos ciclos que atravessamos ao longo do caminho. Quando tudo parece absoluto e feliz, e quando tudo parece destruído e desesperado. Não consigo dizer do que se trata além da óbvia constatação de que é assim a vida... mas é assim para que a possamos sorver melhor. Porque só a dor e o sacrifício podem dar maior perspetiva e amplitude aos outros rasgos de felicidade. É preciso saber estar triste para saber ser feliz. É preciso absorver tudo - o bom e o mau - e não fugir.

 

É preciso viver. E se para ti, agora, viver está na parte mais difícil, por favor, aguenta.

 

O melhor ainda está para vir...

 

 

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Conversa Amiga #9

por Catarina d´Oliveira, em 26.10.15

Nunca gostei particularmente do número 9 e talvez por isso a minha nona saída para conversar não tenha sido tão boa como as outras. Ou talvez tenha sido por causa do tempo que só convidava a ficar em casa com uma manta a ver filmes. Ou, provavelmente, nada disto está relacionado e a minha noite - e o meu dia - foram menos bons porque tiveram de ser.

 

No entanto, não deixei de fazer o que sentia que devia, e saí de casa rumo à sessão.

 

Hoje não faltavam pessoas, mas faltava-me alguma alma, razão pela qual me tenha restringido à segurança de caras que já conheço relativamente.

 

Comecei por encontrar o senhor M. que parecia compactuar comigo nesta coisa das energias negativas do universo. Ele que anda sempre de sorriso de orelha em orelha e uma piada na ponta da língua, estava hoje mais retraído, com meios sorrisos e respostas menos espirituosas. Disse-me que estava mais ou menos, e respondi-lhe de volta com a honestidade que tinha que também não estava nos meus dias. A conversa não foi, de todo, longa, mas trocamos um enorme abraço que valeu por todas as palavras que ficaram por dizer.

 

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O resto da noite - além de uma pequena intervenção numa mini-zaragata que se deu por meros mal-entendidos, como de costume - passei-a com o bom e velho Mateus, também ele sintomaticamente diferente do que sempre o conheci. Pela primeira vez não entupiu o discurso de rimas e cantigas - apesar de as ter entoado, ocasionalmente - mas falou-me com a alma. Relembrou os tempos felizes com as gentes do teatro, mas foi a melancolia de um passado mais feliz do que o presente inseguro que dominou o resto da conversa.

 

Ficámos ali tempos e tempos, a refletir sobre o contraste entre os momentos de felicidade mais pura e o ar cortante da derrota ou esquecimento de outras glórias.

 

Senti que partilhei humanidade nesta noite, mas também tenho a certeza que não fui capaz de lhes dar o melhor de mim. Fica a promessa do regresso na próxima saída.

 

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Conversa Amiga #7

por Catarina d´Oliveira, em 16.09.15

Avisaram-nos que em setembro poderiam existir alterações na escala de voluntários e áreas cobertas e parece tiro certo porque quando isso acontece, lá ando eu a saltitar de lugar. Não me queixo - acho que doses de estabilidade são sólidas na vida, quando temperadas com cheirinhos de mudança. E foi mais uma.

 

Não propriamente uma mudança radical. Voltei ao Oriente, a casa onde comecei, aqui há uns meses.

 

Chegámos a uma hora crítica - estavam a decorrer distribuições de comida, pelo que a estação e toda a área circundante estavam atipicamente vazias. Esperamos e procuramos outros recantos até o movimento do costume se instalar.

 

Não vi muitas caras conhecidas desde as últimas vezes que lá estive, mas consegui reencontrar o saudoso M., uma figura do Oriente que nos habituou desde sempre à boa disposição, às piadas malandras (sem serem malandrecas) e à predisposição orgânica para uma boa conversa. Trocamos dois beijinhos e umas palavras rápidas de lembrança, porque o nosso reencontro a sério estava marcado para mais tarde - já lá iremos.

 

Continuei a andar pelo estação com um colega quando nos aproximamos lentamente de uma dupla de caras novas. Ficamos sem lhes saber os nomes, mas exploramos uma partícula da sua história. Um deles tinha já saído da Índia há mais de 15 anos, tendo-se estabelecido por Algés, onde chegou a trabalhar uns tempos. O Oriente é casa nova de poucos dias. Foi aqui que recebeu o jovem amigo, a quem tem dado a mão sempre que precisa.

 

É uma coisa fantástica esta que encontramos a cada saída. É verdade que há despiques e contendas - como em todas as pequenas ou grandes sociedade. No entanto, não deixa de me surpreender o companheirismo e a entreajuda que encontramos na rua. Quando se tem pouco mais que nada e mesmo assim há a vontade de dar a mão, de apoiar, de ajudar a prosperar. Conforta-me sempre descobrir que se despirmos as pessoas das necessidades fingidas e dos adereços materiais elas continuam a ser... pessoas, e boas pessoas.

 

E foi bondade pura que este Homem me transmitiu, mesmo entre a dificuldade de dançar entre duas línguas que não dominava completamente. Disse-me que já não procurava trabalho mas que já tinha sido feliz, e que os momentos menos bons - como este - fazem parte. "But it's ok. It's life", disse-me a sorrir.

 

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(© Copyright Jim Hubbard)

 

Despedi-me da dupla enquanto o meu colega ajudava o mais novo a orientar a documentação que necessita para procurar trabalho - aqui oferecemos companhia e conversa, mas também podemos potenciar facilidades em diversas situações relacionadas com saúde, documentação e apoios, e ainda retirá-los da situação de sem-abrigo - o que felizmente acontece algumas vezes, mas apenas e só com a mobilização correta e, sobretudo, com o desejo e compromisso total da pessoa que pretendemos ajudar.

 

Foi depois a vez de me sentar um bocadinho com o C., outra cara conhecida de vista mas com quem creio que nunca tinha conversado. Erro crasso, como viria a comprovar minutos apenas depois.

 

E o C. é um exemplo infeliz de uma sociedade mal-agradecida. Não julgamos ninguém com quem nos cruzamos, e muito menos os seus motivos, mas o C. nunca fez (mal) para estar nesta situação. Sem drogas, álcool ou desemprego no currículo, é apenas vítima de um sistema que continua a não funcionar.

 

Durante quase 30 anos foi técnico numa fábrica que produzia bidons. "Há muitos anos, precisávamos de uns 20 homens para fazer un 10 bidons por dia. Agora fazem uns 200 por dia - com dois homens e o resto são máquinas". Não precisou de me explicar a história para deduzir como aconteceu. É um sinal dos tempos industriais, as maquinas a substituírem os homens que, de repente, vêm a sua arte reduzida a um código de um instrumento que não conseguem operar.

 

Mas mesmo em situação desfavorável, o C. tentou fazer por si. "No centro de emprego descobri um curso de robótica que complementava muitos conhecimentos que já tenho. É claro que muito dificilmente empregariam um homem como eu, com 63 anos, mas queria mesmo tentar e sinto que, pelo menos, ia gostar muito". O curso acabou por não acontecer. "Não havia alunos suficientes?" - perguntei a pensar que já sabia a resposta. "Não. Não havia formadores". Fiquei com a sensação de que, em casos específicos, fferecem-se, portanto, fantasias e não exatamente ferramentas úteis. Oferecem-se sonhos que nem sequer somos capazes de suportar. E é tudo profundamente desmotivante.

 

"Trabalhei toda a vida e agora vejo-me nesta situação. Estou melhor que muitos aqui, mas não posso, por exemplo, prescindir de vir aqui buscar comida. Não é que sinta vergonha, mas depois de 30 anos a trabalhar merecia mais dignidade". Felizmente há alguma possibilidade no futuro do C. A reforma na íntegra é possível aos 67 - "vou esperar até lá. Prefiro isso do que levar um corte brutal e ficar quase como estou agora. Não me conseguia manter sozinho na mesma... portanto mais vale esperar..." disse-me com um ar triste mas conformado.

 

Por ali continuamos a conversar mais um pedaço, sobre a preversidade do mercado de trabalho - cada vez maior tanto para novos como para velhos - até o C. partir para casa. "Amanhã cá estou outra vez. Vemo-nos daqui a duas semanas?". Espero bem que sim, caro amigo.

 

Já não sobrava muito tempo na minha noite, mas voltei a cruzar caminho com o M. Entre uma conversa a três que juntou também outro colega voluntário, discutimos os seus tempos no exército, a tropa, os treinos suados e sangrentos, as missões, e as instituições militares do passado e do presente.

 

Mas o que mais me cativou na conversa foi o início, antes mesmo de entrar no domínio de quarteis e botas de biqueira de aço. Porque antes o M. falou-me de pessoas, das suas pessoas. E mais uma vez voltei ao tema da antreajuda.

 

Em poucos minutos soube que o M. não se priva de um bom cigarro, mas que não bebe e trabalha sempre que consegue arranjá-lo. Mas sobretudo soube que o M. é uma pessoa de pessoas. Que leva quem precisa ao médico, que oferece mantas, que guarda pertences alheios, que é ali uma figura de respeito e de solidariedade. Mesmo que, em muitos casos, não lhe seja retribuida a benevolência.

 

É assim que deve ser. Fazer o melhor possível sem esperar nada em troca. Mas se todos o fizermos haverá bondade suficiente para distribuir pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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Conversa Amiga #6

por Catarina d´Oliveira, em 01.09.15

Mais um sábado à noite, mais uma aventura por Arroios.

Por experiência da noite anterior, saímos ligeiramente mais tarde para dar alguma margem ao nosso estimado público alvo de regressar de uma saborosa passeata ao final de tarde que agora, com o tempo de calor, se impera fazer quase todos os dias.

Começamos no lugar de sempre - o mercado. Passamos, sem demorar, por um senhor que não pede grandes companhias. Por traumas que reconhecemos a pouca distância, diz-nos que prefere não falar com mulheres. Afastamo-nos compreensivamente e deixamos os colegas rapazes a tratar do assunto enquanto seguimos um pouco mais à frente para encontrar o sr M. que nos aborda com a graça e simpatia de sempre.

Hoje tem com ele um fiel companheiro, o Pelé, cão do vizinho que lhe confia a guarda do amigo de quatro patas sempre que este necessita de esticar as pernas ao ar livre. É incrível como a relação é notável mesmo à distância... Quando chegamos, o jovem cão olha-nos sem ladrar mas com ar desconfiado: "ele reage sempre às pessoas que passam aqui, e consegue perceber quem é que vem para fazer mal e quem é que não vem. Por isso é que não fez nada, porque sentiu que vocês eram amigos".

Concordamos com a lógica óbvia da asserção, mas não pudemos deixar de pasmar perante a cumplicidade entre ambos. O sr M recostado a fumar o último cigarro do dia, e o Pelé muito sossegado, deitado aos seus pés, e pedindo a ocasional destinha da praxe. Parecia um autêntico quadro de paz e liberdade.

As outras paragens futuras impuseram-se na necessidade de termos de desejar boa noite ao sr. M. e seguir caminho.

 

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Perto do jardim reenontramos outro suspeito dos nossos costumes, o bom velho L. Russo de nascença, ainda sente dificuldade com as manhas do português, mas de alguma forma que não é mágica mas quase, acabamos por conseguir comunicar.

É um baque no coração, sempre que o encontramos. Outrora era uma das almas mais bem dispostas da zona, mas hoje é um homem quebrado. Um problema grave numa das pernas requer já uma severa amputação, mas o bom L. é, como costuma dizer-se na gíria, "burro velho e teimoso". E é o sofrimento que ela lhe dá que acabou por sugar a felicidade que carregava todos os dias.

Hoje anda meio zangado, meio melancólico, mas irredutível na decisão que tomou. Despedimo-nos com a sensação amarga do dever cumprido mas da impotência de poder oferecer mais - por vezes, o impacto com a realidade de que não somos os salvadores de Lisboa e de que a nossa assistência tem limites pode ser duro.

Pela igreja temos mais duas paragens obrigatórias: o bem disposto S. cuja perna partida já está com ótimo aspeto depois de ter andado a gesso, e o caríssimo F., que arranjou só para ele um cantinho à luz de um lampião e que estava todo contente porque o seu (e meu!) Sporting estava a ganhar o jogo - quem marcou, isso já não sabia, mas pouco importava na realidade.

E como o jogo, a noite foi mais uma pequena vitória. Serena mas certa. Porque para o Bom acontecer, basta que nos reunamos sempre nos sítios do costume. E alí, no mercado, no jardim, na igreja, fica a nossa marca neles, e a marca deles em nós. Como no resto da vida, e como nas verdadeiras amizades.

 

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Conversa Amiga #5

por Catarina d´Oliveira, em 04.08.15

 

Por várias impossibilidades, há algum tempo que não voltava à rua com a minha equipa para conversar com pessoas que tantas vezes fingimos que não existem, apenas por ser mais confortável.

 

Não me sentia nos meus dias, mas o dever e a alegria de poder fazer algo como isto, duas vezes por mês, deu-me as forças que precisava para arrancar de casa pelas 18h30. Depois da reunião do costume com o pessoal de todas as equipas, lá arrancamos para o nosso "poiso" perto das 20h.

 

O verão dita que as noites são calmas - ficam para trás os que têm preguiça de esticar as pernas num passeio que aproveita o bom tempo ou os que nada têm a fazer fora do canto que aprenderam a chamar casa.

 

Como sempre, pelo Mercado de Arroios, é o senhor M. o primeiro que encontramos, e ainda por cima, cheio de boas notícias. "Então e diga-me lá, como é que está a situação do Cartão de Cidadão?", perguntei. "Já está tudo tratado! Uma amiga minha que conheço há muitos anos tem-me ajudado... e agora até me orientou os papéis para ficar com um quarto e com o RSI (rendimento social de inserção)!". Fizemos todos uma festa enorme. "Ela... é como se fosse uma filha para mim". E todos entendemos o sentimento - não conheço o senhor M. há muito tempo, mas já consegui perceber que é um homem profundamente bom, preso a circunstâncias más, mas com o coração de um gigante.

 

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Passadas as boas notícias, ainda entrámos numa animada discussão sobre carros e parquímetros - parece que além de tudo, o sr. M. é um religioso guardião dos carros da zona, e os vizinhos da redondeza confiam-lhe alguns truques para escapar e fintar a malta da EMEL.

 

À conta daquilo ainda demos boas gargalhadas, e foi com agradecimentos sobre as preciosas dicas de estacionamento que nos despedimos do M. até duas semanas depois.

 

Seguimos pela avenida Almirante Reis onde reencontramos uma cara conhecida de outros tempos - eu vi-o ali pela primeira vez, mas parece que o Picoli (como é carinhosamente conhecido) é cliente antigo da casa. Estava distraído com um jornal na mão a tentar arrumar uns carros quando nos aproximamos, e mal nos viu, fez a festa equivalente a um amigo de largos anos.

 

"Vês? Eu não me esqueço. Ainda estou a usar a pulseira que me deste! Ainda por cima faz sucesso com as miúdas", atirou para uma das nossas voluntárias. Apesar dos problemas que já se lhe conhecem (a apetência particular para se meter em sarilhos e em garrafas maiores que os seus limites), o Picoli é um porreiro extrovertido.

 

Ficámos em amena cavaqueira com ele bem mais de meia hora, enquanto punha a conversa em dia com os voluntários que já trata por amigos em dia, e nos contava as suas aventuras mirabolantes nos dias de praia que não dispensa depois de arrumar uns carros de manhã, ou nas noites nubladas lisboetas quando as companhias deviam ter mais juízo do que ele. E, claro, mostra-nos o orgulho no seu (e meu!) Sporting. Guarda o boné religiosamente para que não o roubem (como já aconteceu noutras ocasiões infortunas), e promete com alegria que este será o nosso ano.

 

Seguimos caminho quando a noite já ia escura. Passámos pelo Jardim que estava atipicamente deserto, cruzamos mais algumas ruas sem sucesso, e só parámos novamente na Igreja, onde a E. está sempre e religiosamente a organizar todos os bens que pode chamar de seus. Todas as noites, de todos os dias.

 

Nunca nos abordou com antipatia ou distância, mas também nunca se tinha aberto muito para nós além do politicamente correto de uma conversa superficial. Naquele dia foi diferente. Naquele dia, pela primeira vez desde que todos nos lembravamos, a E. sentou-se ao pé de nós e falou até a noite acabar.

 

Falámos do seu passado na Madeira, que apesar de muito longínquo (saiu de lá com 12 anos) continua uma memória profundamente feliz e emocional. E falámos da profunda ligação que manteve com os animais que lhe passaram pela vida. E falámos de superstições estranhas que não fazíamos ideia de onde teriam começado.

 

Mais uma vez a noite acabou sem darmos conta, a trocar aventuras como um grupo genuíno de amigos que cada vez mais somos - nós para eles, eles para nós. Porque é quando proporcionamos a possibilidade de tratamento de igual para igual, com respeito pela história e pelas escolhas, que a magia acontece. Essa magia chama-se amizade.

 

 

 

 

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Conversa Amiga #4

por Catarina d´Oliveira, em 15.06.15

Depois de uma saída de ausência tive o prazer de voltar a um lugar que me preenche a alma.

 

Reunimo-nos, como sempre, uma hora antes da saída, trocámos ideias entre a equipa e finalmente partimos, divididos em quatro dentes de uma forquilha que só deseja ajudar a enfraquecer o monstro da solidão que assola tantos e tão bons pelas ruas de Lisboa.

 

Voltei a Arroios naquela que parece vir ser a minha casa, de quinze em quinze dias, nos próximos meses, e apesar de a zona ser célebre por promover a relação prolongada com as mesmas pessoas, fim-de-semana após fim-de-semana, só reencontrei uma cara familiar desde a primeira vez que lá estive.

 

Quando chegámos, lá estava a boa E. a empilhar os seus pertences para preparar mais uma noite debaixo da proteção da igreja. Cumprimentou-nos com um sorriso simpático, aceitou o nosso chá, e parou por momentos a sua frenética arrumação para trocar uns dedos de conversa connosco.

 

Como aconteceu com outros, a E. conseguiu ser colocada num quarto há relativamente pouco tempo, mas também como muitos outros, optou por deixá-lo e regressar às ruas que já hoje conhece melhor do que a si mesma. Pode parecer pouco apropriado ou agradecido que o tenha feito, mas à medida que nos explicou como nem era capaz de usar a cozinha em curto-circuito, ou de ter um momento de privacidade numa casa que desconhecia e não supria as suas necessidades, continuei, como ao longo das poucas saídas que fiz, a compreender um pouco mais das razões e motivações que tantas vezes desconsideramos como válidas a estas almas que o tempo não faz esquecer.

 

Quando chegou o transporte responsável pela distribuição de comida, lá se despediu de nós com a maior das simpatias e foi buscar a caixinha que lhe estava destinada. Pousou-a entre a trincheira de cartão que construiu para a noite, e voltou às suas coisas - que são tantas que é impossível conceber como as carrega para todo o lugar onde vai, como me confidenciou uma colega. A E. é o que comummente designamos de "acumulador compulsivo", e apesar de já vários a terem tentado ajudar ao designar um cacifo para proteger os seus bens, estes foram sempre crescendo, em quantidade e em aparente inutilidade à vista desarmada dos olhos que não são o dela. "Eu sei que tenho muita coisa, mas todas as coisas são importantes para mim e gosto de as ter comigo para me lembrar". E ninguém tentou nem quis discuti-lo.

 

A zona estava surpreendente e especialmente vazia naquele início de noite, e preparavamo-nos para "mudar acampamento" quando nos apareceu a adorável dona M, uma ternurenta senhora nonagenária a quem o que falta de ouvido compensa com boa disposição e um conhecimento enciclopédico de rimas de quatro versos que nos deixaram a todos com um sorriso que dava para aguentar três vidas inteiras.

 

A comunicação foi quase impossível, pois a cada pergunta surgia uma gargalhada tímida mas absolutamente adorável que denunciava a tal falta de audição e a subsequente resposta com mais uma rima para nos embalar o peito. Ficou, no entanto, a irredutível prova da possibilidade de comunicação profunda e intensa além da troca verbal tradicional a que estamos habituados. Ninguém naquela noite conseguiu, efetivamente, conversar nos meandros costumeiros com a dona M., mas todos admitimos, no final da noite, que foi um dos pontos altos da nossa saída.

 

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Seguimos caminho pela noite dentro, e à porta da célebre Portugália encontramos mais um par de almas com quem pudémos trocar ideias, mas não nomes.

 

O vício a que ambos sucumbem diariamente não lhes tirou a vontade de também nos receber bem - ela com mais histórias tristes entaladas na garganta, ele com uma cultura relativamente vasta que deu azo a saudáveis disputas de conhecimento geográfico e matemático, passámos por Aristóteles e até pela natureza e alcance de algumas das mais famosas rodovias de Portugal.

 

Saí dali a duvidar dos meus próprios conhecimentos, mas as dúvidas não tomaram conta durante muito tempo até chegarmos à nossa última paragem.

 

Perto do jardim, a tensão tomou conta dos ânimos porque como seria de esperar, há dias em que a precariedade da situação de quem não tem teto leva a melhor perante a sanidade. Durante alguns minutos, o senhor R. revoltou-se com a nossa presença e a nossa atividade. Explicou-me, com uma raiva que na sinceridade do coração não era destinada a mim, como não precisava de chá nem de conversa, mas de pão... e pelo meu lado tentei fazê-lo ver como há tantos de nós - não os suficientes, mas tantos ainda assim - que tentam dar um pouco de si para ajudar de formas diversas a suprir necessidades diferentes. De alimentação, de conforto, de companhia.

 

O R. não se deixou demover na sua causa, mas ao longo da conversa onde por várias vezes me desancou como se não houvesse amanhã, não pude deixar de me ir acalmando e sentido que, mesmo que a dinâmica estivesse a ser diferente neste caso, eu estava a cumprir a minha missão. Ele não precisava de ter ficado a falar comigo, por mais que se tenha exaltado em alguns momentos... mas ficou, o que por si só demonstra uma necessidade de interação. Uma interação que aparentemente pode não parecer positiva, mas foi. Porque ele precisava de a ter, para se libertar dos demónios naquela noite, e eu precisava de estar do outro lado, para aprender a esperar e a transformar uma experiência negativa em algo positivo para mim e para os outros.

 

Não fui para casa sem travar um último conhecimento com um grupo de jovens que conversava alegremente à volta de uma mesa no jardim. A forma simpática e acolhedora como nos abordaram foi surpreendente, particularmente pelo A., um miúdo grande bem habituado a viver a vida no limite.

 

Com 35 anos, não trabalha mas subsiste à força de participações em competições e corridas de touros que já lhe cavaram boas partes do corpo. Um delinquente ou um sanguessuga, quase consigo ouvir os julgamentos automáticos na minha cabeça... mas a ideia com que fiquei do A. vai muito além da aparência. Naqueles poucos minutos que estivemos juntos, contou-me muitas das suas asneiras, mas o que ficou no final de contas foi a certeza de que encontrei alguém desligado das pré-conceções da sociedade, despregado de todas as limitações que nos dizem o que devemos ser e fazer.

 

O A. escolheu-se a si próprio de formas que muitos de nós não ousamos escolher. E além do preconceito fácil que é possível gerar automaticamente sem reflexão nenhuma, prefiro admirá-lo. Porque no gume da faca e no limite da corda banda, pareceu-me profundamente feliz.

 

 

 

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Conversa Amiga #3

por Catarina d´Oliveira, em 19.05.15

Terminado o (muito) necessário período de experiência, fiz finalmente a minha primeira saída como VACA - que é como quem diz, Voluntária da Associação Conversa Amiga.

 

Depois de uma breve conversa sobre o "test drive" das duas primeiras saídas, pediram-nos sugestões. Tanto eu como o C., um dos outros voluntários que se tornava "oficial" naquele dia, sugerimos a mecânica da rotatividade - atuar em diferentes zonas da cidade ao longo do ano, já que normalmente nos dividimos em grupos espalhados por três ou quatro áreas.

 

"Não é tarde nem é cedo... como hoje temos algumas faltas n'um dos grupos, resolvemos colocar-te noutro diferente, e assim podes já experimentar outra área e ver o que achas". Porreiro - e lá saí com o meu novo grupo por uma noite, liderado pelo L., e com a companhia do R. e de um estudante de medicina muito simpático que veio experimentar, como convidado, uma noite connosco.

 

Seguimos para Arroios, e foi lá a nossa aventura da noite, entre o mercado, o jardim e a igreja que albergam, à noite, as pessoas que durante o dia não vemos por lá. Tirando o senhor M. - esse diz que anda sempre por perto do mercado: "sempre que me quiserem encontrar, é só vir aqui. Não vou a lado nenhum". Lá estava ele, deitado a fumar uma cigarrilha quando nos aproximamos.

 

Depois dos cumprimentos e apresentações devidas, lá ficamos a saber do ponto de situação do Cartão de Cidadão que o íamos ajudar a fazer - uma das coisas que podemos fazer, é facilitar o processo de obtenção de documentação a pessoas em situação de sem-abrigo, e o senhor M. conseguirá o seu novo C.C. sem pagar nada.

 

Recolhemos os dados que faltavam ao processo entre outros dedos de conversa que nada tinham a ver com naturalidades ou datas de nascimento. Nessa noite o Benfica tinha ganho por margem gorda (numa jornada de véspera de ser Campeão), mas o senhor M. não fazia grande caso... "Ouvi falar sim... mas não gosto de futebol. Não acho graça, ganham dinheiro a mais... prefiro andebol Ou hockey. Gosto muito de hockey".

 

Enquanto combinavamos a melhor hora para um encontro com a assistente social que o ajudaria na loja no Cidadão, o senhor M. continuava a contar-nos dos seus gostos  - como prefere cigarrilhas a tabaco normal, ou acordar cedinho quando o sol ainda nem nasceu a ficar a dormir até tarde, ou a ficar só sentado no jardim que há por ali perto, em vez de andar de um lado para o outro.

 

A simpatia e olhar terno do senhor M. dificultou-nos a tarefa de seguir em frente para o próximo espaço, mas a verdade é que a hora de recolha já lá ia "amanhã às 5 já estou a acordar... comigo é sempre assim".

 

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Seguimos para a igreja, e por lá fiquei até a ronda terminar, e sentia-me tão à vontade e perdida nas histórias e estórias daquela gente que podia muito bem ainda lá estar agora.

 

O Zé D. foi o primeiro. Já estava por lá sentado a receber um chá que outro voluntário lhe ofereceu e que agradeceu com palavras simpáticas. O sotaque com que afetava grande parte do discurso fazia adivinhar a origem que não demorou muito a desvendar.

 

A zona norte da madeira foi a sua casa até, na casa dos 20 e poucos anos, decidir explorar as oportunidades do continente. As aventuras partilhadas em apenas duas horas de conversa foram tantas que me é quase difícil jurar que não o conheço há meia dúzia de anos.

 

As memórias da pesca na ilha a que chamam casa foram, todavia, as recordadas com mais carinho. "Conheço todo o tipo de peixe, e já comi de tudo. Não há nada como o peixe, e a vida no mar. Se pudesse tinha passado a vida a mergulhar... sem fato mesmo". E lá seguiu entre as mirabolantes aventuras - quando o irmão se amedrontou com a visão de um pequeno tubarão, quando desaparecia horas sem fim para preocupação da mãe que acalmava com desculpas inventadas, o ano que passou na quinta de uma amiga onde aprendeu a conduzir um carro, as fugas para a outra ponta da ilha sem que ninguém soubesse... uma vida cheia de vida quando ainda nem tinha chegado aos 25. Para ele a vida só vale a pena se for assim, vivida no limite das emoções e das possibilidades e dos riscos.

 

Quanto à sua ilha, à sua casa... "Às vezes ainda vou lá, e visito a minha mãe. Não há nada tão bonito como a Madeira... não há".

 

Por cá esperou-o mais uma vida de trabalho do que propriamente outra coisa, mas não deixou que isso lhe tirasse a alegria ou a sede da adrenalina "agora não, mas quando era mais novo fazia tudo e não tinha medo de nada. Uma vez tive um emprego onde limpava janelas de um prédio altíssimo. Eu limpava por fora e os meus colegas por dentro. Nunca quis usar cordas... só me atrasavam o trabalho. E acabava sempre quando ainda lhes faltavam dois ou três andares. Por isso antes dizia-lhes sempre: 'no final encontramo-nos ali no café que vou lá estar a beber umas minis'. E estava sempre".

 

"Deus me livre!!" - até dei um salto de susto, porque não vi o outro senhor chegar e aproximar-se. Tão simpático e acessível como o Zé D., o Zé M. tem, no entanto, um enorme pavor de alturas. "Eu não conseguia... nem com vinho ia lá!".

 

Aproveitei então que os meus outros companheiros ouviam e participavam alegremente nas conversas do Zé D. para dar algo de mim também ao Zé M. E lá seguiu ele, falando-me dos tempos áureos em que trabalhou em campanhas eleitorais.

 

"Vivia muito bem, e experimentei muito luxo. Por isso já não me posso queixar".

 

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 [fotografia: Miguel Manso; PÚBLICO]

 

 

Mas não foi nas experiências de abundância que se revelou mais nobre. Isso ficou para a vida privada, onde fez e faz tudo para proteger os seus. Incluíndo as mulheres que passaram pela sua vida e com quem mantém contacto "Não vejo a razão para deixarmos de nos falar se em algum momento da vida vivemos tanta coisa juntos". Concordei veementemente e louvei-lhe a perspetiva, que o levou a acrescentar: "Quando me separei da minha ex-mulher, o advogado não sabia como nos dividir as coisas. Perguntou-lhe a ela, e ela disse-lhe para me perguntar a mim. Não havia questão nenhuma... ela ia ficar com tudo e nem havia discussão. Era a mãe da minha filha e não a ia deixar desamparada; não preciso de coisas para nada. Posso voltar a conseguir coisas noutros sítios. Só me importa as pessoas que gosto, e só por elas é que faço tudo. Ai de quem se meta com elas".

 

A noite terminou com esta conversa a ressoar-me na cabeça e a deixar o desejo de voltar a falar com estes dois Zés que me ensinaram tanto em tão poucos minutos. Sobre a importância de saber respirar a vida por todos os poros, de nos embriagarmos nas suas possibilidades sem termos de pedir desculpa ou permissão. E sobre a importância do respeito por quem amamos, sempre.

 

Continuo a achar que, de cada vez que saio, levo mais deles (e da vida) comigo do que o contrário.

 

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Conversa Amiga #2

por Catarina d´Oliveira, em 16.04.15

 

Diz-se que, nas lides da arte teatral, o segundo espetáculo é sempre aquele que corre pior. Já tive o prazer de estar na pele de quem sobre ao palco e de atestar a inglória verdade desse facto.

 

No último sábado não subi a nenhum palco, mas à semelhança da exposição teatral, tentei, pela segunda vez, ajudar a melhorar a noite de pessoas a quem o tempo e a vida negligencía - não esquece, porque a ferida está lá sempre, mas desmazela-se no trato.

 

Reunimo-nos no sítio de sempre numa noite que estava menos fria do que a anterior e, não sei se por isso ou se auxiliada pelo desembaraço de já não ser a primeira vez, senti-me melhor, mais capaz e sobretudo, mais próxima daquelas pessoas que começo a conhecer.

 

Abri caminho por uma das pontas da estação, e a primeira figura que encontrei foi a do senhor M., sentado muito calmamente à espera da enfermeira que nos acompanha sempre nas saídas. "Então amigo, como é que está isso hoje?", pergunto com o maior sorriso que consigo arranjar e lembrando-me da formação que aconselha a não questionar "está bom?" - evidentemente, se estivesse, não estaria na rua.

 

O olhar dele é sereno, não exatamente triste, mas para me responder leva a mão ao maxilar. "Mais ou menos... tenho aqui uma dor de dentes que me tem atormentado a semana toda. Estes já são todos para arrancar". Assenti solidariamente - não há maçada equivalente a uma dor de dentes persistente. Mas os (vários) dedos de conversa que trocamos ao longo da mais de meia hora não se cingiram à malfadada maleita que apenas um especialista poderia resolver.

 

Com umas cores de fazer inveja, o senhor M. contou-me que era pedreiro, e que aquele bom ar era nada menos que um osso do ofício - um osso bicudo até, para quem não simpatiza com calor. Sorri e disse-lhe que não podíamos estar em maior desacordo, e expliquei-lhe como o sol era importante na minha vida. "Pois imagino... mas cá para mim não. Prefiro o frio. Mal vem o calor começo a ter problemas, de circulação e tudo. Eu é mais frio. Chuva não, mas frio sim".

 

A propósito da animada discussão meteorológica, e das oscilações que sentiu no processo, o senhor M. acabou por me contar um pedaço da sua entusiasmante aventura pelo Caminho de Santiago. "Conhecem-se pessoas muito boas pelo caminho. Algumas más também... mas muitas boas. E aprendemos muito com elas. Uma vez numa estalagem estive com uma senhora espanhola a noite toda a conversar e a ver as estrelas. Depois foi cada um para o seu canto e nunca mais a vi". Soma-se assim uma mão cheia de milhares de km nas pernas de gémeos musculados, e uma arca infindável de memórias que espero poder voltar a explorar em encontros futuros. Mas vamos com calma, uma noite de cada vez.

 

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Desejei-lhe as melhoras e uma noite descansada e prossegui mais um pouco até encontrar as minhas primeiras caras conhecidas. O famoso C. das charadas e a esposa M. que hoje vinha mais bem disposta e até me agraciou com dois beijinhos: "boa noite minha linda! É Catarina não é?" - é sim senhora!

 

Por ali perdi mais uns bons 45 minutos - com menos charadas do que na primeira noite, e mais histórias. Fiquei a perceber melhor a dinâmica da vida esforçada do casal - trabalham todos os dias sem exceção - e a ter uma melhor compreensão sobre como são vistos pelos outros, que somos nós. "Às vezes vou ali ao café e olham-me logo de lado porque já me conhecem. Noutra vez estava aqui em baixo com o Cris. a beber uma cerveja e umas raparigas afastaram-se logo porque devem ter achado que eramos bebados. Mas já não se pode beber uma??".

 

O preconceito está-nos entranhado, além da pele, no sangue.

 

Para o final da noite, voltaram as charadas, e senti-me orgulhosa por ser capaz de resolver duas - repetidas da primeira noite, é verdade, mas ainda assim...

 

Já a queimar os últimos cartuxos, ainda tive tempo de tirar cinco minutos para o senhor L. ou Serra, como costuma introduzir-se - sentado mesmo ao lado do senhor A. que segundo consta também apanhamos num dia de boa disposição excecional e que conta com um par de olhos dos mais bonitos que já vi. Quanto ao L., mantém-se sereno mas com uma boa disposição inimitável. Entre trocas simpáticas e uma apresentação que deu direito a beijinho na mão, lá partilhou a preocupação de uma vida polvilhada de doenças familiares. "É tudo muito difícil e muito triste... mas nós que ficamos cá temos de continuar a batalhar não é verdade?".

 

A estação começa a sossegar - quem tem quarto ou casa ausenta-se e quem chama àquele lugar casa começa a aninhar-se para uma dormida que terminará pelas 06:00, quando as luzes voltarem a ser acesas.

 

Nas próximas duas saídas não conseguirei estar presente com a Associação,  mas mal posso esperar por voltar a tentar fazê-los sentir um pouco mais em casa e na vida, tal como o fazem a mim.

 

 

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Conversa Amiga #1

por Catarina d´Oliveira, em 06.04.15

 

Calhou num daqueles dias estranhos, onde as tardes se montam em pedaços idílicos de uma esplanada à beira-mar e as noites se despem num frio de gelar os ossos - mas não a alma.

 

Saí de casa com dois casacos exageradamente quentes, e aquele final de tarde a caminho de Lisboa foi custoso. Quando cheguei, houve reunião, distribuição de equipa e uma pequena atividade de team building até ser a hora de enfrentar o frio para aquecer o peito.

 

Às 21h já lá estavamos, e pela primeira vez deparei-me com o cenário para o qual me tinham preparado na formação. No entanto, nada é capaz de nos antecipar aqueles choques frontais violentíssimos com a imponência da realidade. Comecei a arrastar-me pela larga extensão do corredor da estação do Oriente com o espanto dorido de uma criatura em luto por algo que nem sabia ser seu.

 

Se de dia o cenário é insuspeito, à noite as suas verdadeiras cores mostram-se e o quadro é de um preto carregado com muito pouco branco. Aproximei-me do meu "orientador de saída" e perguntei como distinguíamos naquele mar de gente cansada aquelas com quem deveríamos falar - "Não escolhemos. Aproximamo-nos, metemos conversa e pronto. Não estamos à procura de ninguém específico. Só estamos aqui para conversar e deixar conversar".

 

Ao longo do piso médio da estação, pelos bancos que se distribuem dos dois lados, as pessoas de todas as idades, raças e estados de espírito sentam-se a comer uma refeição entregue por uma outra instituição há meros minutos.

 

A experiência ainda agora começou, pelo que ainda não conheço histórias, mas já gravei algumas caras e nomes (que, eticamente, nunca revelarei sem autorização).

 

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 [imagem: Público]

 

Cumprimentei o R., que já tinha devorado o jantar e falava obsessivamente sobre o emprego que precisava de arranjar. Tentei trocar dois dedos de conversa com o A., que se revelou um dos difíceis e nos respondia a perguntas com questões, e rapidamente decidiu que se sentia mais confortável a fazer um cover de uma banda dos anos 90 pela estação do que a falar comigo - há outros sábados, para outras oportunidades de conquista.

 

Mas a maior parte da minha noite foi passada com o C., o mestre das adivinhas, e que antes de me confideciar o nome ou qualquer outra coisa, me trocou as voltas com charadas de estrutura simples mas resolução complexa que me deram mais que fazer à cabeça do que pensava ser possível naquela noite.

 

Com dificuldade furei entre enigmas e quebra-cabeças para uma conversa mais na terra. Sobre os biscates de trabalho, sobre os arrufos com a segurança da estação, sobre a mulher doente a quem dá o casaco mal o frio aperta, sobre o filho que não é de sangue mas que é de vida que defende mais do que a si mesmo, sobre a dificuldade de convivência entre aqueles na mesma situação e sobre o aperto de viver em permanente estado de sobrevivência num pequeno universo que nós, os sortudos, teimamos em obliterar.

 

Terminou tudo mais rápido do que esperava. O receio de ser incapaz de suprir uma necessidade tão simples como a da conversa a um desconhecido foi estilhaçado pelo prazer de uma experiência positiva naquela noite que afinal não foi assim tão fria. Mas provavelmente não foi por causa dos dois casacos que levei. Porque no final, era o coração que estava mais quente.

 

Até à próxima saída.

 

 

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Um Sem Abrigo, Um Amigo

por Catarina d´Oliveira, em 24.03.15

Partilhar e ajudar, das formas a que estamos habituados, pode não parecer simples. Tanto porque aqueles euros podem (ou não) fazer falta no fim do mês, ou porque aquela comida pode (ou não) escassear no frigorífico se fizermos mal as contas, ou porque aquelas roupas podem (ou não) ser indispensáveis num dia mais frio, ou para um familiar mais necessitado.

 

Há sempre escapes, e, no fundo, desculpas. Mas há realmente uma enorme ausência de razões esfarrapadas que podemos dar para não oferecermos aos outros um pouco do nosso tempo. Não digo semanas, ou meses, mas umas horas. Porque juntando as horas de todos obtemos meses, e juntando meses obtemos anos, e juntando boa vontade e amizade ganhamos vida.

 

Foi com esse espírito que resolvi procurar organismos que me ajudassem a levar para a frente o caminho que decidi, há quase um ano (e muito tarde, eu sei), começar a trilhar sozinha.

 

Quem deseja ajudar com tempo, e presença, e humanidade, tem muitas opções, mas talvez o mais fácil, para começar, seja fazer o que eu fiz: inscrever-me no Banco de Voluntariado da minha área. Depois é esperar pela marcação da entrevista e, uma vez realizada, começar a receber propostas de acordo com as nossas áreas de interesse, que podem ir desde o apoio a doentes, a apoio escolar, acompanhamento de crianças, promoção de atividades desportivas, atividades com sem-abrigo, e muitas outras. Não faltam lugares por onde começar, o que falta mesmo é que tomemos a iniciativa de arregaçar as mangas.

 

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Uma das minhas próximas aventuras (e que começa já dia 28), vai ser com a Associação Conversa Amiga, uma das pequenas instituições que mais me inspirou por colmatar uma falha tão estrutural que existe no apoio à população sem-abrigo: já existe quem distribua comida e agasalhos... mas e conversa? E apoio emocional para combater a exclusão e a solidão? Bom, é isso que vou fazer com os meus colegas, duas vezes por mês, ao sábado à noite (não me digam que não têm tempo...).

 

 

As histórias que lá ouvir não poderei partilhar no todo, por respeito aos indivíduos (e individualidades) e à instituição que represento, mas relatarei, de modo lato, as aventuras que encontrar, as lições que aprender, e os anos que ganhar. Tudo com o intuito de continuar a inspirar quem aqui passa - e a mim também - a fazer mais e melhor, por si, e pelos outros, todos os dias.

 

 

Links Úteis

Mapa de Bancos de Voluntariado em Portugal

Associação Conversa Amiga

 

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