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Conversa Amiga #8

por Catarina d´Oliveira, em 15.10.15

Já lá vão quase três semanas desta saída que relato (por atrasos e preguiças várias), pelo que tentarei descrever tudo o que se passou com o máximo pormenor possível.

 

Cheguei à Associação para a reunião de equipa a meio gás. Não me sentia nos meus dias, mas achei que podia procurar ali o boost de que andava a precisar há tantos dias. Não acontece muitas vezes, mas felizmente nesta ocasião, tive razão.

 

Por lá dedicamo-nos a um curioso exercício de team building onde tínhamos 10 minutos para conversar com dois colegas ao acaso e depois, perante todos, exaltar-lhes duas qualidades que tenhamos captado. Tive sorte em poder trocar dois dedos de conversa com pessoas maravilhosas - a V., mais recatada mas totalmente entregue àquilo em que acredita e ao bem que semeia, e a M. que fiz questão de destacar como "uma pessoa de pessoas", que tem tanto lá dentro que só nos apetece sorver tudo.

 

Sentia-me melhor só por isso, e por saber que, além de colegas, estou entre um grupo de pessoas profundamente humanas, com qualidades e defeitos, mas absolutamente apostadas em dar o melhor de si aos outros e a recolher também os frutos dessa troca. Apesar de os encontros ainda terem sido poucos sinto realmente que tenho ali companheiros, parceiros e sobretudo amigos.

 

À saída, tive o meu segundo impulso - mas sobre este inesperado e feliz acontecimento já vos falei aqui.

 

Seguimos depois até à nossa segunda casa, o Oriente, para mais um serão de conversa. Hoje a estação estava particularmente vazia, o que nos pareceu estranho mas apenas até ao momento em que ouvimos falar de uma reunião/festa que acontecia algures em Vila Franca, e onde muitos dos nossos habituais parceiros de conversa se tinham deslocado.

 

Foi por isso uma noite calma, de pouco alarido, mas de encontros alegres.

 

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Com o senhor J.B. passei a maior parte da noite, e juntos percorremos tudo. É serralheiro, mas no fundo também um faz-tudo. Como a tantos outros, o álcool deixou sequelas, mas nunca desistiu de as combater. Já esteve integrado numa associação de recuperação e era por lá tido como uma referência. Olhavam-no com a admiração de um herói e com a esperança de uma recuperação.

 

Por quezílias que nada tinham a ver com o problema que lá o levou em primeiro lugar, abandonou esse ambiente de segurança, mas prometeu-me que queria voltar por estar farto de deambular sozinho, pela inquietude de alguém que não baixa os braços, e pela crença em si mesmo que mesmo na maior dificuldade, alguma vez deixou de ter.

 

Separou-se da mulher mas deu-lhe tudo, porque acha que tudo o que conseguiu na vida deve transmitir àqueles que ama verdadeiramente. E assim vive ela com a filha, numa casa modesta mas bem composta, de que o J.B. abdicou um dia e voltaria a abdicar em qualquer outro. Foi por esta altura que me confessou que gostava de cantar, e que me mostrou com orgulho uma fotografia amarrotada que traz sempre na carteira. O pai era fadista e famoso no circuito lisboeta. Não se davam particularmente bem, mas às vezes o amor e o orgulho são maiores do que tudo, e o J.B. lembrou-me disso quando começou a falar dele sem parar.

 

A noite fez-se sobretudo desta enorme conversa de vida e de vidas, mas não me vim embora sem um último presente - neste caso, um acaso feliz por forma de um reencontro. Lembram-se do Mateus? Reencontrei-o. E depois de algumas tentativas de o recordar do nosso primeiro encontro, consegui lá chegar. E foi uma alegria. Recebi um segundo abraço ainda mais apertado.

 

Estava bem disposto, com um fato impecável e carregado das rimas e das cantigas de que me lembrava tão bem.

 

E bastou isto para vir para casa a pensar como tudo isto vale mesmo a pena.

 

 

 

 

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Conversa Amiga #4

por Catarina d´Oliveira, em 15.06.15

Depois de uma saída de ausência tive o prazer de voltar a um lugar que me preenche a alma.

 

Reunimo-nos, como sempre, uma hora antes da saída, trocámos ideias entre a equipa e finalmente partimos, divididos em quatro dentes de uma forquilha que só deseja ajudar a enfraquecer o monstro da solidão que assola tantos e tão bons pelas ruas de Lisboa.

 

Voltei a Arroios naquela que parece vir ser a minha casa, de quinze em quinze dias, nos próximos meses, e apesar de a zona ser célebre por promover a relação prolongada com as mesmas pessoas, fim-de-semana após fim-de-semana, só reencontrei uma cara familiar desde a primeira vez que lá estive.

 

Quando chegámos, lá estava a boa E. a empilhar os seus pertences para preparar mais uma noite debaixo da proteção da igreja. Cumprimentou-nos com um sorriso simpático, aceitou o nosso chá, e parou por momentos a sua frenética arrumação para trocar uns dedos de conversa connosco.

 

Como aconteceu com outros, a E. conseguiu ser colocada num quarto há relativamente pouco tempo, mas também como muitos outros, optou por deixá-lo e regressar às ruas que já hoje conhece melhor do que a si mesma. Pode parecer pouco apropriado ou agradecido que o tenha feito, mas à medida que nos explicou como nem era capaz de usar a cozinha em curto-circuito, ou de ter um momento de privacidade numa casa que desconhecia e não supria as suas necessidades, continuei, como ao longo das poucas saídas que fiz, a compreender um pouco mais das razões e motivações que tantas vezes desconsideramos como válidas a estas almas que o tempo não faz esquecer.

 

Quando chegou o transporte responsável pela distribuição de comida, lá se despediu de nós com a maior das simpatias e foi buscar a caixinha que lhe estava destinada. Pousou-a entre a trincheira de cartão que construiu para a noite, e voltou às suas coisas - que são tantas que é impossível conceber como as carrega para todo o lugar onde vai, como me confidenciou uma colega. A E. é o que comummente designamos de "acumulador compulsivo", e apesar de já vários a terem tentado ajudar ao designar um cacifo para proteger os seus bens, estes foram sempre crescendo, em quantidade e em aparente inutilidade à vista desarmada dos olhos que não são o dela. "Eu sei que tenho muita coisa, mas todas as coisas são importantes para mim e gosto de as ter comigo para me lembrar". E ninguém tentou nem quis discuti-lo.

 

A zona estava surpreendente e especialmente vazia naquele início de noite, e preparavamo-nos para "mudar acampamento" quando nos apareceu a adorável dona M, uma ternurenta senhora nonagenária a quem o que falta de ouvido compensa com boa disposição e um conhecimento enciclopédico de rimas de quatro versos que nos deixaram a todos com um sorriso que dava para aguentar três vidas inteiras.

 

A comunicação foi quase impossível, pois a cada pergunta surgia uma gargalhada tímida mas absolutamente adorável que denunciava a tal falta de audição e a subsequente resposta com mais uma rima para nos embalar o peito. Ficou, no entanto, a irredutível prova da possibilidade de comunicação profunda e intensa além da troca verbal tradicional a que estamos habituados. Ninguém naquela noite conseguiu, efetivamente, conversar nos meandros costumeiros com a dona M., mas todos admitimos, no final da noite, que foi um dos pontos altos da nossa saída.

 

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Seguimos caminho pela noite dentro, e à porta da célebre Portugália encontramos mais um par de almas com quem pudémos trocar ideias, mas não nomes.

 

O vício a que ambos sucumbem diariamente não lhes tirou a vontade de também nos receber bem - ela com mais histórias tristes entaladas na garganta, ele com uma cultura relativamente vasta que deu azo a saudáveis disputas de conhecimento geográfico e matemático, passámos por Aristóteles e até pela natureza e alcance de algumas das mais famosas rodovias de Portugal.

 

Saí dali a duvidar dos meus próprios conhecimentos, mas as dúvidas não tomaram conta durante muito tempo até chegarmos à nossa última paragem.

 

Perto do jardim, a tensão tomou conta dos ânimos porque como seria de esperar, há dias em que a precariedade da situação de quem não tem teto leva a melhor perante a sanidade. Durante alguns minutos, o senhor R. revoltou-se com a nossa presença e a nossa atividade. Explicou-me, com uma raiva que na sinceridade do coração não era destinada a mim, como não precisava de chá nem de conversa, mas de pão... e pelo meu lado tentei fazê-lo ver como há tantos de nós - não os suficientes, mas tantos ainda assim - que tentam dar um pouco de si para ajudar de formas diversas a suprir necessidades diferentes. De alimentação, de conforto, de companhia.

 

O R. não se deixou demover na sua causa, mas ao longo da conversa onde por várias vezes me desancou como se não houvesse amanhã, não pude deixar de me ir acalmando e sentido que, mesmo que a dinâmica estivesse a ser diferente neste caso, eu estava a cumprir a minha missão. Ele não precisava de ter ficado a falar comigo, por mais que se tenha exaltado em alguns momentos... mas ficou, o que por si só demonstra uma necessidade de interação. Uma interação que aparentemente pode não parecer positiva, mas foi. Porque ele precisava de a ter, para se libertar dos demónios naquela noite, e eu precisava de estar do outro lado, para aprender a esperar e a transformar uma experiência negativa em algo positivo para mim e para os outros.

 

Não fui para casa sem travar um último conhecimento com um grupo de jovens que conversava alegremente à volta de uma mesa no jardim. A forma simpática e acolhedora como nos abordaram foi surpreendente, particularmente pelo A., um miúdo grande bem habituado a viver a vida no limite.

 

Com 35 anos, não trabalha mas subsiste à força de participações em competições e corridas de touros que já lhe cavaram boas partes do corpo. Um delinquente ou um sanguessuga, quase consigo ouvir os julgamentos automáticos na minha cabeça... mas a ideia com que fiquei do A. vai muito além da aparência. Naqueles poucos minutos que estivemos juntos, contou-me muitas das suas asneiras, mas o que ficou no final de contas foi a certeza de que encontrei alguém desligado das pré-conceções da sociedade, despregado de todas as limitações que nos dizem o que devemos ser e fazer.

 

O A. escolheu-se a si próprio de formas que muitos de nós não ousamos escolher. E além do preconceito fácil que é possível gerar automaticamente sem reflexão nenhuma, prefiro admirá-lo. Porque no gume da faca e no limite da corda banda, pareceu-me profundamente feliz.

 

 

 

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Conversa Amiga #3

por Catarina d´Oliveira, em 19.05.15

Terminado o (muito) necessário período de experiência, fiz finalmente a minha primeira saída como VACA - que é como quem diz, Voluntária da Associação Conversa Amiga.

 

Depois de uma breve conversa sobre o "test drive" das duas primeiras saídas, pediram-nos sugestões. Tanto eu como o C., um dos outros voluntários que se tornava "oficial" naquele dia, sugerimos a mecânica da rotatividade - atuar em diferentes zonas da cidade ao longo do ano, já que normalmente nos dividimos em grupos espalhados por três ou quatro áreas.

 

"Não é tarde nem é cedo... como hoje temos algumas faltas n'um dos grupos, resolvemos colocar-te noutro diferente, e assim podes já experimentar outra área e ver o que achas". Porreiro - e lá saí com o meu novo grupo por uma noite, liderado pelo L., e com a companhia do R. e de um estudante de medicina muito simpático que veio experimentar, como convidado, uma noite connosco.

 

Seguimos para Arroios, e foi lá a nossa aventura da noite, entre o mercado, o jardim e a igreja que albergam, à noite, as pessoas que durante o dia não vemos por lá. Tirando o senhor M. - esse diz que anda sempre por perto do mercado: "sempre que me quiserem encontrar, é só vir aqui. Não vou a lado nenhum". Lá estava ele, deitado a fumar uma cigarrilha quando nos aproximamos.

 

Depois dos cumprimentos e apresentações devidas, lá ficamos a saber do ponto de situação do Cartão de Cidadão que o íamos ajudar a fazer - uma das coisas que podemos fazer, é facilitar o processo de obtenção de documentação a pessoas em situação de sem-abrigo, e o senhor M. conseguirá o seu novo C.C. sem pagar nada.

 

Recolhemos os dados que faltavam ao processo entre outros dedos de conversa que nada tinham a ver com naturalidades ou datas de nascimento. Nessa noite o Benfica tinha ganho por margem gorda (numa jornada de véspera de ser Campeão), mas o senhor M. não fazia grande caso... "Ouvi falar sim... mas não gosto de futebol. Não acho graça, ganham dinheiro a mais... prefiro andebol Ou hockey. Gosto muito de hockey".

 

Enquanto combinavamos a melhor hora para um encontro com a assistente social que o ajudaria na loja no Cidadão, o senhor M. continuava a contar-nos dos seus gostos  - como prefere cigarrilhas a tabaco normal, ou acordar cedinho quando o sol ainda nem nasceu a ficar a dormir até tarde, ou a ficar só sentado no jardim que há por ali perto, em vez de andar de um lado para o outro.

 

A simpatia e olhar terno do senhor M. dificultou-nos a tarefa de seguir em frente para o próximo espaço, mas a verdade é que a hora de recolha já lá ia "amanhã às 5 já estou a acordar... comigo é sempre assim".

 

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Seguimos para a igreja, e por lá fiquei até a ronda terminar, e sentia-me tão à vontade e perdida nas histórias e estórias daquela gente que podia muito bem ainda lá estar agora.

 

O Zé D. foi o primeiro. Já estava por lá sentado a receber um chá que outro voluntário lhe ofereceu e que agradeceu com palavras simpáticas. O sotaque com que afetava grande parte do discurso fazia adivinhar a origem que não demorou muito a desvendar.

 

A zona norte da madeira foi a sua casa até, na casa dos 20 e poucos anos, decidir explorar as oportunidades do continente. As aventuras partilhadas em apenas duas horas de conversa foram tantas que me é quase difícil jurar que não o conheço há meia dúzia de anos.

 

As memórias da pesca na ilha a que chamam casa foram, todavia, as recordadas com mais carinho. "Conheço todo o tipo de peixe, e já comi de tudo. Não há nada como o peixe, e a vida no mar. Se pudesse tinha passado a vida a mergulhar... sem fato mesmo". E lá seguiu entre as mirabolantes aventuras - quando o irmão se amedrontou com a visão de um pequeno tubarão, quando desaparecia horas sem fim para preocupação da mãe que acalmava com desculpas inventadas, o ano que passou na quinta de uma amiga onde aprendeu a conduzir um carro, as fugas para a outra ponta da ilha sem que ninguém soubesse... uma vida cheia de vida quando ainda nem tinha chegado aos 25. Para ele a vida só vale a pena se for assim, vivida no limite das emoções e das possibilidades e dos riscos.

 

Quanto à sua ilha, à sua casa... "Às vezes ainda vou lá, e visito a minha mãe. Não há nada tão bonito como a Madeira... não há".

 

Por cá esperou-o mais uma vida de trabalho do que propriamente outra coisa, mas não deixou que isso lhe tirasse a alegria ou a sede da adrenalina "agora não, mas quando era mais novo fazia tudo e não tinha medo de nada. Uma vez tive um emprego onde limpava janelas de um prédio altíssimo. Eu limpava por fora e os meus colegas por dentro. Nunca quis usar cordas... só me atrasavam o trabalho. E acabava sempre quando ainda lhes faltavam dois ou três andares. Por isso antes dizia-lhes sempre: 'no final encontramo-nos ali no café que vou lá estar a beber umas minis'. E estava sempre".

 

"Deus me livre!!" - até dei um salto de susto, porque não vi o outro senhor chegar e aproximar-se. Tão simpático e acessível como o Zé D., o Zé M. tem, no entanto, um enorme pavor de alturas. "Eu não conseguia... nem com vinho ia lá!".

 

Aproveitei então que os meus outros companheiros ouviam e participavam alegremente nas conversas do Zé D. para dar algo de mim também ao Zé M. E lá seguiu ele, falando-me dos tempos áureos em que trabalhou em campanhas eleitorais.

 

"Vivia muito bem, e experimentei muito luxo. Por isso já não me posso queixar".

 

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 [fotografia: Miguel Manso; PÚBLICO]

 

 

Mas não foi nas experiências de abundância que se revelou mais nobre. Isso ficou para a vida privada, onde fez e faz tudo para proteger os seus. Incluíndo as mulheres que passaram pela sua vida e com quem mantém contacto "Não vejo a razão para deixarmos de nos falar se em algum momento da vida vivemos tanta coisa juntos". Concordei veementemente e louvei-lhe a perspetiva, que o levou a acrescentar: "Quando me separei da minha ex-mulher, o advogado não sabia como nos dividir as coisas. Perguntou-lhe a ela, e ela disse-lhe para me perguntar a mim. Não havia questão nenhuma... ela ia ficar com tudo e nem havia discussão. Era a mãe da minha filha e não a ia deixar desamparada; não preciso de coisas para nada. Posso voltar a conseguir coisas noutros sítios. Só me importa as pessoas que gosto, e só por elas é que faço tudo. Ai de quem se meta com elas".

 

A noite terminou com esta conversa a ressoar-me na cabeça e a deixar o desejo de voltar a falar com estes dois Zés que me ensinaram tanto em tão poucos minutos. Sobre a importância de saber respirar a vida por todos os poros, de nos embriagarmos nas suas possibilidades sem termos de pedir desculpa ou permissão. E sobre a importância do respeito por quem amamos, sempre.

 

Continuo a achar que, de cada vez que saio, levo mais deles (e da vida) comigo do que o contrário.

 

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Cartas para Estranhos #7

por Catarina d´Oliveira, em 12.04.15

 

O mundo não pára de girar, e nós não temos de parar de tentar ser melhores uns com e para os outros, e de sermos nós, sempre nós, sem medos.

 

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"Olá estranho/a,

Escrevo cartas para pessoas que não conheço e deixo-as por aí. É esquisito?

Acredito que assim o possa parecer... mas todos somos um pouco estranhos, e talvez seja aquilo que fazemos com as nossas idiossincrasias e trejeitos peculiares que realmente importa, não achas?

Vai sempre haver quem aponte o dedo, ou condene em surdina, mas também aqueles que gostam verdadeiramente daquelas partes de ti que sentes que "deves" esconder. E ao partilhá-las podes fazer com que também os outros sintam segurança para mostrar as faces que acham que os outros iam etiquetar de estranhas. Especialmente se os tratarmos com amor e respeito.

É difícil ser vulnerável, mas aproxima-nos dos outros, se nos permitirmos a isso.

Abraça a tua "estranheza" e a dos outros.
Pertences aqui, e és uma parte única do mundo!


De alguém que acredita em ti."

 

 

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Conversa Amiga #1

por Catarina d´Oliveira, em 06.04.15

 

Calhou num daqueles dias estranhos, onde as tardes se montam em pedaços idílicos de uma esplanada à beira-mar e as noites se despem num frio de gelar os ossos - mas não a alma.

 

Saí de casa com dois casacos exageradamente quentes, e aquele final de tarde a caminho de Lisboa foi custoso. Quando cheguei, houve reunião, distribuição de equipa e uma pequena atividade de team building até ser a hora de enfrentar o frio para aquecer o peito.

 

Às 21h já lá estavamos, e pela primeira vez deparei-me com o cenário para o qual me tinham preparado na formação. No entanto, nada é capaz de nos antecipar aqueles choques frontais violentíssimos com a imponência da realidade. Comecei a arrastar-me pela larga extensão do corredor da estação do Oriente com o espanto dorido de uma criatura em luto por algo que nem sabia ser seu.

 

Se de dia o cenário é insuspeito, à noite as suas verdadeiras cores mostram-se e o quadro é de um preto carregado com muito pouco branco. Aproximei-me do meu "orientador de saída" e perguntei como distinguíamos naquele mar de gente cansada aquelas com quem deveríamos falar - "Não escolhemos. Aproximamo-nos, metemos conversa e pronto. Não estamos à procura de ninguém específico. Só estamos aqui para conversar e deixar conversar".

 

Ao longo do piso médio da estação, pelos bancos que se distribuem dos dois lados, as pessoas de todas as idades, raças e estados de espírito sentam-se a comer uma refeição entregue por uma outra instituição há meros minutos.

 

A experiência ainda agora começou, pelo que ainda não conheço histórias, mas já gravei algumas caras e nomes (que, eticamente, nunca revelarei sem autorização).

 

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 [imagem: Público]

 

Cumprimentei o R., que já tinha devorado o jantar e falava obsessivamente sobre o emprego que precisava de arranjar. Tentei trocar dois dedos de conversa com o A., que se revelou um dos difíceis e nos respondia a perguntas com questões, e rapidamente decidiu que se sentia mais confortável a fazer um cover de uma banda dos anos 90 pela estação do que a falar comigo - há outros sábados, para outras oportunidades de conquista.

 

Mas a maior parte da minha noite foi passada com o C., o mestre das adivinhas, e que antes de me confideciar o nome ou qualquer outra coisa, me trocou as voltas com charadas de estrutura simples mas resolução complexa que me deram mais que fazer à cabeça do que pensava ser possível naquela noite.

 

Com dificuldade furei entre enigmas e quebra-cabeças para uma conversa mais na terra. Sobre os biscates de trabalho, sobre os arrufos com a segurança da estação, sobre a mulher doente a quem dá o casaco mal o frio aperta, sobre o filho que não é de sangue mas que é de vida que defende mais do que a si mesmo, sobre a dificuldade de convivência entre aqueles na mesma situação e sobre o aperto de viver em permanente estado de sobrevivência num pequeno universo que nós, os sortudos, teimamos em obliterar.

 

Terminou tudo mais rápido do que esperava. O receio de ser incapaz de suprir uma necessidade tão simples como a da conversa a um desconhecido foi estilhaçado pelo prazer de uma experiência positiva naquela noite que afinal não foi assim tão fria. Mas provavelmente não foi por causa dos dois casacos que levei. Porque no final, era o coração que estava mais quente.

 

Até à próxima saída.

 

 

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De todos os dias, que são do Pai

por Catarina d´Oliveira, em 19.03.15

Todos os dias são o dia de alguma coisa. Da mãe, da criança, dos namorados, dos avós, dos trabalhadores, da música, do ambiente, da arte, de uma doença qualquer.

 

São etiquetas supérfluas, que dedicam 24 horas a coisas que merecem uma vida de amor e entrega, mas que existem com o intento inocente e esperançoso de nos tornar melhores para nós e uns para os outros. De formas diferentes, em dimensões distintas, diariamente.

 

Lembranças acessórias, é verdade, mas para os esquecidos no resto do ano, lembrem-se hoje e para sempre daqui para a frente: o dia do companheiro, do herói, do exemplo, do educador, do amor incondicional, do pai é todos os dias.

 

E que ele o sinta, sempre.

 

 

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 [o meu]

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O senhor António e as lições do Ultramar

por Catarina d´Oliveira, em 09.09.14

Já há algum tempo que não fazia isto, mas ontem voltei finalmente a ter oportunidade de tirar alguns minutos do meu tempo para me aventurar por Lisboa e descobrir novas pessoas, novas histórias por contar.

 

Esta primeira jornada de regresso foi curta, mas não parca em significado.

 

Parei de forma insuspeita e sem esperar qualquer fruto no célebre miradouro de S. Pedro de Alcântara. Como em todas as tardes lisboetas, estava apinhado de turistas que se deleitavam com a vista privilegiada pela cidade. Mas não foi nenhum deles, pasmados perante a imponência da conquista quase milenar de D. Afonso Henriques para o reino de Portugal, que me captou a minha atenção.

 

Sentado num dos bancos laterais – aqueles que não enfrentam diretamente a magnificência da capital despida – estava ele de boina e olhar perdido nos pensamentos que, daí a segundos, eu viria a interromper.

 

 

Boa tarde! Olhe, eu sei que isto vai parecer esquisito… mas importa-se que me sente um bocadinho ao pé de si, a fazer-lhe companhia?”.

 

Como todos os outros que abordei até hoje, o senhor António olhou-me com alguma estranheza justificável – “mas o porque é que uma miúda de 20 e tal anos me vem agora chatear a cabeça? De certeza que me quer impingir qualquer coisa…” deve ser o que lhes passa pela cabeça. Mas não podia estar mais longe da verdade, como os que aceitam os dois dedos de conversa que tenho para oferecer acabam por descobrir.

 

Porque entendo a bizarria de ser abordado a seco, ainda para mais sem um propósito concreto que não a minha sede por histórias e partilhas, tento sempre começar por falar de mim, da minha história, e das minhas aventuras. Nunca é um tiro certo, e nunca tenho a mesma conversa. Umas vezes resulta, outras vezes não.

 

Se me pudesse dar um conselho para a vida toda… qual era?

 

Olhe menina… que aproveite tudo, tudo e que não perca tempo com coisas que não interessam”. Foi a resposta genérica que já esperava, mas aproveitei para tentar mergulhar mais fundo – “quando é que foi a primeira vez que pensou que devia ter aproveitado mais? Quando é que foi a primeira vez que teve medo de, de alguma forma, não ter levado da vida tudo o que queria?”.

 

Levou a mão à cabeça, e coçou-a por debaixo da boina castanha. Olhou o chão naquilo que não puderam ser mais do que alguns segundos. “Quando uma pessoa está na guerra… muda tudo. Passamos a dar valor às coisas que podemos perder sem darmos por isso. A guerra é muito feia, mas olhe que pelo menos a mim, tornou-me melhor”.

 

O que se seguiu foi uma crónica resumida dos tempos de luta no Ultramar. A reticência da mãe, o orgulho do pai e a Rosa, que como a flor que lhe dá nome, floresceu no peito do António.

 

Quando me fui embora, já há mais de 50 anos, já andávamos enamorados. Mas para mim não era nada muito sério. Para ela sim, mas para mim não. Mas depois estive lá, e vi tanta coisa que percebi que afinal tinha encontrado a minha esposa. Não lhe escrevi nem nada, mas quando cheguei casámos logo. Não ia deixar aquela febra para outro!” e deu uma sonora gargalhada, que eu evidentemente acompanhei.

 

 

Mas é isso menina. Às vezes precisamos de ver a desgraça para dar valor. E tive muitos amigos que não se safaram. Mas eu tive sorte. E voltei. E apesar de ter passado por dificuldades na vida, consegui sempre aproveitar as coisas boas. Penso eu. Gosto de pensar que sim”.

 

Ainda falámos mais um pouco, particularmente das especificidades dos tempos do Ultramar. O batalhão onde conheceu amigos que nunca esqueceu (e alguns que, miraculosamente, transporta consigo para os dias de hoje), um destacamento particularmente perigoso em Angola e todas as dificuldades por que lá passou, nomeadamente a fome, o medo constante do desconhecido e a miraculosa escapatória de uma morte certa.

 

Podia relatar toda essa história de inquietação e obstáculos, mas além de uma lembrança emocionada de um contacto de paz com refugiados numa mata (“foi um calor que nem lhe consigo explicar… ver aquelas pessoas salvas finalmente, depois de andarem uma carrada de meses ali enfiadas numa mata, sem ajuda nenhuma e cheias de medo”), de alguma forma, o que se imprimiu na minha cabeça sem necessitar do auxílio da gravação no telemóvel foi a lição do senhor António. A lição de vida e de Amor.

 

Porque é por elas que continuo a querer sair à rua e conhecer novas gentes, e é por elas que continuo a ser inveteradamente apaixonada por pessoas.

 

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A dona Amélia e as suas compras

por Catarina d´Oliveira, em 19.06.14

Foi apenas há uns dias que me cruzei na rua com a dona Amélia.

 

Calhou num daqueles inícios de tarde infernais, da onda de calor insuportável que nos assolou a semana passada e que se foi embora tão depressa quanto chegou.

 

Dei por ela quando estava à espera da viragem de um sinal - vinha no sentido contrário do meu, e além de lutar com o carregamento de sacos muito mais pesados do que a sua idade e estatura deviam permitir, parecia-me uma senhora com genica e uma obstinação adorável em ainda retirar coisas boas da vida. Não estava enganada, mas já lá iremos.

 

Quando o sinal ficou verde, dei uma pequena corrida até ela e resolvi oferecer uma mãozinha: "boa tarde minha senhora... ora diga-me lá, não quer uma ajudinha com esses sacos? Mora perto daqui?". Endireitando um pouco a postura curva que tinha até então, a dona Amélia olhou para mim, sorriu e disse da forma mais amorosa de sempre: "oh minha querida... quanta simpatia. E olhe, vou aceitar, isto noutros tempos era uma coisa mais fácil de se fazer... mas também desconfio que entretanto tornaram as compras mais pesadas!".

 

Não pude deixar de rir enquanto lhe pegava nos sacos e ofereci o braço para que se amparasse em mim. Caminhámos pelo que me pareceram ser uns 10 minutos - a casa da dona Amélia não ficava longe, mas o respeito pelos pequenos passinhos que dava pela calçada (e pela vida) era imperativo.

 

Quando chegámos ao prédio azul claro, meio envelhecido, subi com ela até ao segundo andar para dar por terminada a missão do dia. "Oh minha querida... agora não a posso deixar sair sem pelo menos beber um leitinho e aceitar umas bolachinhas. Vá, faça-me lá a vontade".

 

Senti-me novamente uma criança de 8 anos, mais fui incapaz de não aceitar - não só para não ser rude, mas sobretudo porque o calor e amabilidade da dona Amélia me tinham impressionado desde aquele singelo momento em que nos cruzámos na passadeira.

 

"Vive sozinha?" perguntei a certa altura... a dona Amélia sorriu: "Deus me livre filha... não, não. Felizmente tenho ainda o meu marido comigo. Ele é que gosta sempre de tirar a tarde para ir um bocadinho ao café para estar com os amigos. E faz ele muito bem! Em tantos anos, precisamos sempre de umas pausas uns dos outros não acha?", disse-me ela enquanto acabava com uma pequena gargalhada.

 

[não tive oportunidade de tirar nenhuma fotografia neste dia, mas fica esta, QUE NÃO É MINHA, por propósitos de ilustração; imagem de Chrys Campos]

 

Nos poucos minutos que estive naquela casa, tive a oportunidade de percorrer uma série de fotografias que lá se encontravam. Gosto sempre de o fazer, mas especialmente neste caso, porque eram fotografias atípicas para a casa de um casal de idosos, onde costumamos encontrar retratos "rígidos" e quase tipo passe dos netos, dos filhos. Não... ali só encontrei fotografias de férias, de grandes grupos de pessoas a sorrir, de crianças em saltos acrobáticos para a piscina, da dona Amélia e do seu Joaquim a darem um beijo pela ocasião dos seus 40 anos de casamento.

 

Falei-lhe sobre esta diferença agradável que tinha notado e ela sorriu e encolheu os ombros: "são as únicas fotografias que me interessam, minha querida. Não preciso de ver os meus filhos e os meus netos com caras bonitas, e penteadinhos, e com as costas doridas numa cadeira horrorosa. Quero olhar para eles e vê-los felizes, a fazer o que gostam!".

 

Não pude deixar de concordar. É nisso que se baseia a vida. Nos momentos onde a contenção deixa de existir, e onde o prazer da partilha desfoca tudo à volta que não interessa realmente.

 

"Todos os dias agradeço a Deus porque tive uma vida muito feliz. E continuo a ter! Não julgue que por ser velha, não continuo a aproveitar! Ainda no ano passado fui com os meus filhos e netos para uma casa de férias que temos no Alentejo... e veja bem que esta velha ainda se foi enfiar na piscina! Ah... não há nada como aquele paraíso... e este ano vamos outra vez!".

 

Ainda conversamos mais um bom bocado. E ali fiquei em, com o cotovelo pousado na mesa e a mão no queixo, embevecida a ouvir as histórias da dona Amélia, que repetidamente me provavam o amor que tinha e continua a ter pela vida.

 

"Obrigada pelo lanche dona Amélia... e deixe que lhe diga uma coisa: é uma senhora toda p'rá frentex, e fiquei mesmo muito feliz de a conhecer. Nunca deixe de ter essa garra pela vida... Eu tenho 24 anos e vou daqui cheia de vontade de viver coisas novas por sua causa. Muito, mas muito obrigada".

 

Ela sorriu e respodeu-me com palavras muito mais simpáticas e enaltecedoras do que merecia ouvir. Desci os lances de escadas em corrida, com uma alegria renovada, e mal abri a porta da rua, aquele bafo diabólico de 35 graus voltou a abater-se sobre mim. Mas desta vez não me amoleceu, nem me fez perder o ânimo.

 

Tinha acabado de conhecer uma das inspirações que sei que vou levar comigo para toda a vida, e isso bastou para ter a certeza que, um dia, quando for a minha vez, também vou ter uma vida de boas histórias para contar, com fotografias e lembranças de felicidade e bondade espalhadas por todo o lado.

Está na altura de começar a trabalhar nisso!

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Leva uma declaração para quem amas

por Catarina d´Oliveira, em 09.06.14

Parece contraintuitivo, eu sei, mas é verdade: o Amor é uma coisa muito difícil.

 

Não é que os filmes e as músicas nos tenham mentido - antes pelo contrário - mas a verdade é que muitas vezes deixaram de lado a parte laboriosa. O Amor não subsiste sozinho, e todos os dias temos de cuidar dele como se se tratasse de uma flor frágil, e apreciá-lo como se fosse (e é!) a mais bela de todas as criaturas. Se divides a vida com alguém, é fácil encostares-te ao repouso do hábito para desculpares o facto de teres deixado de tentar fazer coisas por ti e pelo outro, e assim, sem sequer reparares bem, estás a matar-vos.

 

Perpetuam-se também outros equívocos, como o conforto eterno nos cega perante a necessidade imperativa de alimentar esse Amor, mas não estou aqui para falar deles - estou aqui para, se tudo correr bem, ajudar a exorcizá-los.

 

Se encontrarem um destes papéis por aí, arranquem um pedaço e digam algo que não pode ficar por dizer a quem vos completa. Mas não se limitem a isso. Façam mais e melhor todos os dias. Por vocês, pelo outro, e pelo Nós.

 

Comprem flores, marquem noites num bom hotel, escapem um dia da cidade para a pureza do campo, passeiem, dêem as mãos, tirem fotografias parvas, façam duetos com a música em altos berros no carro, vejam o pôr-do-sol, vejam o nascer-do-sol, vão jogar mini-golf, dancem na cozinha e na chuva, redecorem uma divisão da casa juntos, riam perdidamente, tomem um banho de espuma, preparem pequenos-almoços na cama, jantem à luz das velas, partilhem preocupações, planeiem uma grande viagem, combinem noites de jogos com os amigos, conversem sem horas, vão ao zoológico, façam um castelo de areia, partilhem uma manta, visitem o mercado ao Sábado de manhã, percam o Domingo na cama a ver desenhos animados e filmes lamechas, passem o dia num Spa, cozinhem um para o outro, carreguem-lhe o telemóvel sem que tenha de vos pedir, ofereçam um peluche, gabem-se da vossa história aos vossos amigos, deixem recados românticos pela casa, escrevam-se, tenham-se, amem-se, e quando parecer que já não há nada para fazer... repitam, inovem e lembrem-se: vai valer a pena.


You know you're in love when you can't fall asleep because
reality is finally better than your dreams
― Dr. Seuss

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Até que a morte (n)os separe

por Catarina d´Oliveira, em 05.06.14

[Jardim do I.P.O.]

 

Olhei para o lado e vi-o, a dois bancos de distância. Tinha uma boina pousada na perna direita e uma bengala encostada à perna esquerda. Brincava inconscientemente com um pequeno papel entre os dedos enquanto o olhar andava perdido algures pelo chão e pela amargura da tristeza. Levantei-me e cheguei-me perto.

 

"Importa-se que me sente um bocadinho ao pé de si?". Deu um pequeno salto da quebra da dormência catatónica e arranjou forças para me sorrir e dizer: "claro que não menina... faça favor".

 

Foi esse sorriso, aliado a uma expressão de inequívoca bondade, que me impeliu a perguntar pela sua história, ou antes pela de alguém que é tão parte de si que, numa simbiose perfeita e rara na vida, torna a sua história também a história dele. A história deles.

 

Nos últimos anos, a saúde não tem estado do lado da dona M., a esposa de mais de 50 anos do senhor S. "Nestes últimos tempos tem sido muito difícil menina... e eu já não a consigo ajudar como conseguia, e isso custa muito. Já estamos juntos há muito tempo sabe? E olhe que não foi pêra doce". O que se seguiu foi uma inesperada descrição de peripécias que não pude (nem quis!) interromper. O breve compêndio de uma vida a dois começou no exato momento onde devia - na constatação inescapável do "é ela, é ela a mulher da minha vida" ainda antes dos conhecimentos travados, passando pelas viagens de bicicleta ao fim-de-semana só para a ver, a trabalhosa benção do pai, o casamento comedido, os filhos e até os momentos de dúvida.

 

"Houve duas ou três ocasiões em que pensei mesmo que a gente já tinha dado o que havia para dar... Ora eu me sentia afastado, ora ela... E às vezes foi difícil. Estivemos ali à beira de nos estatelarmos do precipício sabe. Isto de estar muitos anos com a mesma pessoa é muito difícil e a gente às vezes esquece que tem de ralar bem". Para minha surpresa, arranjei coragem para lhe perguntar se alguma vez se tinha sentido arrependido de ter ficado... mas ele nem me deixou acabar a pergunta: "Naaaaaa! Ora essa! Ela nunca deixou de ser a mulher da minha vida. Às vezes vem coisas e uma pessoa pensa coisas diferentes, mas depois lembrava-me sempre, e nunca podia ter estado com outra pessoa".

 

 

Os anos passaram, mas entre dificuldades apareceram felicidades triplicadas. "As nossas netinhas são as coisas mais doces, ora veja lá", disse estendendo-me a carteira onde se via a fotografia de duas meninas a brincar no que me pareceu um parque infantil, mesmo ao lado de uma fotografia de uma senhora. "É ela...?". "Sim...", e os olhos e o coração abriram-se em par.

 

Mas quando se instala a velhice, uma importante parte dos votos de casamento entra em cheque. "É na saúde e na doença, menina. Estou sempre com a minha M., aconteça o que acontecer. E venha o bicho que vier!". Há doenças chatas e cruéis, mas o cancro (sim, fiz questão de escrever em minúsculas) é particularmente perverso não só para a vida que coloca em perigo, mas de todos os que a rodeiam.

 

Segundo os médicos, o bicho não deixa a M. muito mais do que meros meses de vida, mas o espírito de S. não se quebra: "conta tudo até ao fim. Só não quero que ela sofra, e que esteja sozinha... mas isso vou estar cá sempre também. Ela sempre me aturou estes anos todos e sempre me ajudou. Eu só faço o mesmo agora. Todos os dias que for preciso, enquanto me conseguir pôr em pé. Até que a morte nos separe".

 

Reparei que o senhor S. se emocionou ao longo destas últimas frases, e o que senti dentro de mim também nunca vou esquecer. Contraiu-se tudo primeiro, e depois houve uma explosão. Simultaneamente sentia-me a arder e tinha calafrios na espinha, e depois também senti os olhos humedecerem-se. E percebi porquê.

 

Ser testemunha de um Amor assim é um privilégio. E mais uma vez, quando pensei ir ao encontro de uma história de dificuldade e assombro, encontrei uma história de Amor. Por mais voltas que dermos, é sempre aqui, à mais humana de todas as emoções, que acabamos por chegar.

 

Aproximei-me e dei-lhe um abraço. Agradeci-lhe a partilha, agradeci-lhe o enorme Senhor que é (e que não gosta de aderir à moda das selfies da gente nova), e agradeci-lhe por alimentar um Amor em que, hoje em dia, tanta gente parece não querer acreditar. Prometi voltar.

 

Vou voltar.

 

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