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Ajudar é fácil #1

por Catarina d´Oliveira, em 19.10.15

A Associação Conversa Amiga está a levar a cabo uma campanha de crowdfunding para o projeto Cacifos Solidários - basicamente, uma pequena infraestrutura que permitirá que as pessoas em situação de sem-abrigo possam guardar os seus pertences de forma segura.

 

Para ajudar a ter uma ideia mais concreta do que trata este projeto, podem atentar também na reportagem da RTP sobre a implementação do primeiro grupo de cacifos em Arroios.

 

 

 

Não podia ser mais fácil ajudar e para o fazer basta clicar na imagem - abaixo, mais informações sobre o projeto.

 

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Sobre o projeto...

 

O projeto Cacifos Solidários (CS) da ACA surge da conversa com pessoas em situação de sem-abrigo que nos identificaram como problema diário nas suas vidas, a incapacidade de guardarem e protegerem os seus pertences. Assim nasce esta solução, o projeto CS, que permite a estas pessoas guardarem os seus pertences de forma segura e digna, ao mesmo tempo que lhes restitui um nível de responsabilização, empoderamento e permite acompanhamento psicossocial!

 

Cada pessoa tem um cacifo com a sua chave e é responsável por este.

 

Paralelamente à sua utilidade prática, o projeto pressupõe um acompanhamento realizado por uma equipa profissional, facilitando a relação com os serviços sociais. Ou seja, um “degrau” entre a rua e uma vida fora desta.

 

Este é um projeto único no mundo e em 2013 a ACA lançou um piloto para teste que se revelou um sucesso. Já despertou interesse nos EUA e em França estando a ser replicado neste último país. Agora o nosso objetivo são mais 36 CS em Lisboa criando uma rede total de 48 CS.

 

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Conversa Amiga #7

por Catarina d´Oliveira, em 16.09.15

Avisaram-nos que em setembro poderiam existir alterações na escala de voluntários e áreas cobertas e parece tiro certo porque quando isso acontece, lá ando eu a saltitar de lugar. Não me queixo - acho que doses de estabilidade são sólidas na vida, quando temperadas com cheirinhos de mudança. E foi mais uma.

 

Não propriamente uma mudança radical. Voltei ao Oriente, a casa onde comecei, aqui há uns meses.

 

Chegámos a uma hora crítica - estavam a decorrer distribuições de comida, pelo que a estação e toda a área circundante estavam atipicamente vazias. Esperamos e procuramos outros recantos até o movimento do costume se instalar.

 

Não vi muitas caras conhecidas desde as últimas vezes que lá estive, mas consegui reencontrar o saudoso M., uma figura do Oriente que nos habituou desde sempre à boa disposição, às piadas malandras (sem serem malandrecas) e à predisposição orgânica para uma boa conversa. Trocamos dois beijinhos e umas palavras rápidas de lembrança, porque o nosso reencontro a sério estava marcado para mais tarde - já lá iremos.

 

Continuei a andar pelo estação com um colega quando nos aproximamos lentamente de uma dupla de caras novas. Ficamos sem lhes saber os nomes, mas exploramos uma partícula da sua história. Um deles tinha já saído da Índia há mais de 15 anos, tendo-se estabelecido por Algés, onde chegou a trabalhar uns tempos. O Oriente é casa nova de poucos dias. Foi aqui que recebeu o jovem amigo, a quem tem dado a mão sempre que precisa.

 

É uma coisa fantástica esta que encontramos a cada saída. É verdade que há despiques e contendas - como em todas as pequenas ou grandes sociedade. No entanto, não deixa de me surpreender o companheirismo e a entreajuda que encontramos na rua. Quando se tem pouco mais que nada e mesmo assim há a vontade de dar a mão, de apoiar, de ajudar a prosperar. Conforta-me sempre descobrir que se despirmos as pessoas das necessidades fingidas e dos adereços materiais elas continuam a ser... pessoas, e boas pessoas.

 

E foi bondade pura que este Homem me transmitiu, mesmo entre a dificuldade de dançar entre duas línguas que não dominava completamente. Disse-me que já não procurava trabalho mas que já tinha sido feliz, e que os momentos menos bons - como este - fazem parte. "But it's ok. It's life", disse-me a sorrir.

 

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(© Copyright Jim Hubbard)

 

Despedi-me da dupla enquanto o meu colega ajudava o mais novo a orientar a documentação que necessita para procurar trabalho - aqui oferecemos companhia e conversa, mas também podemos potenciar facilidades em diversas situações relacionadas com saúde, documentação e apoios, e ainda retirá-los da situação de sem-abrigo - o que felizmente acontece algumas vezes, mas apenas e só com a mobilização correta e, sobretudo, com o desejo e compromisso total da pessoa que pretendemos ajudar.

 

Foi depois a vez de me sentar um bocadinho com o C., outra cara conhecida de vista mas com quem creio que nunca tinha conversado. Erro crasso, como viria a comprovar minutos apenas depois.

 

E o C. é um exemplo infeliz de uma sociedade mal-agradecida. Não julgamos ninguém com quem nos cruzamos, e muito menos os seus motivos, mas o C. nunca fez (mal) para estar nesta situação. Sem drogas, álcool ou desemprego no currículo, é apenas vítima de um sistema que continua a não funcionar.

 

Durante quase 30 anos foi técnico numa fábrica que produzia bidons. "Há muitos anos, precisávamos de uns 20 homens para fazer un 10 bidons por dia. Agora fazem uns 200 por dia - com dois homens e o resto são máquinas". Não precisou de me explicar a história para deduzir como aconteceu. É um sinal dos tempos industriais, as maquinas a substituírem os homens que, de repente, vêm a sua arte reduzida a um código de um instrumento que não conseguem operar.

 

Mas mesmo em situação desfavorável, o C. tentou fazer por si. "No centro de emprego descobri um curso de robótica que complementava muitos conhecimentos que já tenho. É claro que muito dificilmente empregariam um homem como eu, com 63 anos, mas queria mesmo tentar e sinto que, pelo menos, ia gostar muito". O curso acabou por não acontecer. "Não havia alunos suficientes?" - perguntei a pensar que já sabia a resposta. "Não. Não havia formadores". Fiquei com a sensação de que, em casos específicos, fferecem-se, portanto, fantasias e não exatamente ferramentas úteis. Oferecem-se sonhos que nem sequer somos capazes de suportar. E é tudo profundamente desmotivante.

 

"Trabalhei toda a vida e agora vejo-me nesta situação. Estou melhor que muitos aqui, mas não posso, por exemplo, prescindir de vir aqui buscar comida. Não é que sinta vergonha, mas depois de 30 anos a trabalhar merecia mais dignidade". Felizmente há alguma possibilidade no futuro do C. A reforma na íntegra é possível aos 67 - "vou esperar até lá. Prefiro isso do que levar um corte brutal e ficar quase como estou agora. Não me conseguia manter sozinho na mesma... portanto mais vale esperar..." disse-me com um ar triste mas conformado.

 

Por ali continuamos a conversar mais um pedaço, sobre a preversidade do mercado de trabalho - cada vez maior tanto para novos como para velhos - até o C. partir para casa. "Amanhã cá estou outra vez. Vemo-nos daqui a duas semanas?". Espero bem que sim, caro amigo.

 

Já não sobrava muito tempo na minha noite, mas voltei a cruzar caminho com o M. Entre uma conversa a três que juntou também outro colega voluntário, discutimos os seus tempos no exército, a tropa, os treinos suados e sangrentos, as missões, e as instituições militares do passado e do presente.

 

Mas o que mais me cativou na conversa foi o início, antes mesmo de entrar no domínio de quarteis e botas de biqueira de aço. Porque antes o M. falou-me de pessoas, das suas pessoas. E mais uma vez voltei ao tema da antreajuda.

 

Em poucos minutos soube que o M. não se priva de um bom cigarro, mas que não bebe e trabalha sempre que consegue arranjá-lo. Mas sobretudo soube que o M. é uma pessoa de pessoas. Que leva quem precisa ao médico, que oferece mantas, que guarda pertences alheios, que é ali uma figura de respeito e de solidariedade. Mesmo que, em muitos casos, não lhe seja retribuida a benevolência.

 

É assim que deve ser. Fazer o melhor possível sem esperar nada em troca. Mas se todos o fizermos haverá bondade suficiente para distribuir pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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Conversa Amiga #6

por Catarina d´Oliveira, em 01.09.15

Mais um sábado à noite, mais uma aventura por Arroios.

Por experiência da noite anterior, saímos ligeiramente mais tarde para dar alguma margem ao nosso estimado público alvo de regressar de uma saborosa passeata ao final de tarde que agora, com o tempo de calor, se impera fazer quase todos os dias.

Começamos no lugar de sempre - o mercado. Passamos, sem demorar, por um senhor que não pede grandes companhias. Por traumas que reconhecemos a pouca distância, diz-nos que prefere não falar com mulheres. Afastamo-nos compreensivamente e deixamos os colegas rapazes a tratar do assunto enquanto seguimos um pouco mais à frente para encontrar o sr M. que nos aborda com a graça e simpatia de sempre.

Hoje tem com ele um fiel companheiro, o Pelé, cão do vizinho que lhe confia a guarda do amigo de quatro patas sempre que este necessita de esticar as pernas ao ar livre. É incrível como a relação é notável mesmo à distância... Quando chegamos, o jovem cão olha-nos sem ladrar mas com ar desconfiado: "ele reage sempre às pessoas que passam aqui, e consegue perceber quem é que vem para fazer mal e quem é que não vem. Por isso é que não fez nada, porque sentiu que vocês eram amigos".

Concordamos com a lógica óbvia da asserção, mas não pudemos deixar de pasmar perante a cumplicidade entre ambos. O sr M recostado a fumar o último cigarro do dia, e o Pelé muito sossegado, deitado aos seus pés, e pedindo a ocasional destinha da praxe. Parecia um autêntico quadro de paz e liberdade.

As outras paragens futuras impuseram-se na necessidade de termos de desejar boa noite ao sr. M. e seguir caminho.

 

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Perto do jardim reenontramos outro suspeito dos nossos costumes, o bom velho L. Russo de nascença, ainda sente dificuldade com as manhas do português, mas de alguma forma que não é mágica mas quase, acabamos por conseguir comunicar.

É um baque no coração, sempre que o encontramos. Outrora era uma das almas mais bem dispostas da zona, mas hoje é um homem quebrado. Um problema grave numa das pernas requer já uma severa amputação, mas o bom L. é, como costuma dizer-se na gíria, "burro velho e teimoso". E é o sofrimento que ela lhe dá que acabou por sugar a felicidade que carregava todos os dias.

Hoje anda meio zangado, meio melancólico, mas irredutível na decisão que tomou. Despedimo-nos com a sensação amarga do dever cumprido mas da impotência de poder oferecer mais - por vezes, o impacto com a realidade de que não somos os salvadores de Lisboa e de que a nossa assistência tem limites pode ser duro.

Pela igreja temos mais duas paragens obrigatórias: o bem disposto S. cuja perna partida já está com ótimo aspeto depois de ter andado a gesso, e o caríssimo F., que arranjou só para ele um cantinho à luz de um lampião e que estava todo contente porque o seu (e meu!) Sporting estava a ganhar o jogo - quem marcou, isso já não sabia, mas pouco importava na realidade.

E como o jogo, a noite foi mais uma pequena vitória. Serena mas certa. Porque para o Bom acontecer, basta que nos reunamos sempre nos sítios do costume. E alí, no mercado, no jardim, na igreja, fica a nossa marca neles, e a marca deles em nós. Como no resto da vida, e como nas verdadeiras amizades.

 

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Conversa Amiga #5

por Catarina d´Oliveira, em 04.08.15

 

Por várias impossibilidades, há algum tempo que não voltava à rua com a minha equipa para conversar com pessoas que tantas vezes fingimos que não existem, apenas por ser mais confortável.

 

Não me sentia nos meus dias, mas o dever e a alegria de poder fazer algo como isto, duas vezes por mês, deu-me as forças que precisava para arrancar de casa pelas 18h30. Depois da reunião do costume com o pessoal de todas as equipas, lá arrancamos para o nosso "poiso" perto das 20h.

 

O verão dita que as noites são calmas - ficam para trás os que têm preguiça de esticar as pernas num passeio que aproveita o bom tempo ou os que nada têm a fazer fora do canto que aprenderam a chamar casa.

 

Como sempre, pelo Mercado de Arroios, é o senhor M. o primeiro que encontramos, e ainda por cima, cheio de boas notícias. "Então e diga-me lá, como é que está a situação do Cartão de Cidadão?", perguntei. "Já está tudo tratado! Uma amiga minha que conheço há muitos anos tem-me ajudado... e agora até me orientou os papéis para ficar com um quarto e com o RSI (rendimento social de inserção)!". Fizemos todos uma festa enorme. "Ela... é como se fosse uma filha para mim". E todos entendemos o sentimento - não conheço o senhor M. há muito tempo, mas já consegui perceber que é um homem profundamente bom, preso a circunstâncias más, mas com o coração de um gigante.

 

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Passadas as boas notícias, ainda entrámos numa animada discussão sobre carros e parquímetros - parece que além de tudo, o sr. M. é um religioso guardião dos carros da zona, e os vizinhos da redondeza confiam-lhe alguns truques para escapar e fintar a malta da EMEL.

 

À conta daquilo ainda demos boas gargalhadas, e foi com agradecimentos sobre as preciosas dicas de estacionamento que nos despedimos do M. até duas semanas depois.

 

Seguimos pela avenida Almirante Reis onde reencontramos uma cara conhecida de outros tempos - eu vi-o ali pela primeira vez, mas parece que o Picoli (como é carinhosamente conhecido) é cliente antigo da casa. Estava distraído com um jornal na mão a tentar arrumar uns carros quando nos aproximamos, e mal nos viu, fez a festa equivalente a um amigo de largos anos.

 

"Vês? Eu não me esqueço. Ainda estou a usar a pulseira que me deste! Ainda por cima faz sucesso com as miúdas", atirou para uma das nossas voluntárias. Apesar dos problemas que já se lhe conhecem (a apetência particular para se meter em sarilhos e em garrafas maiores que os seus limites), o Picoli é um porreiro extrovertido.

 

Ficámos em amena cavaqueira com ele bem mais de meia hora, enquanto punha a conversa em dia com os voluntários que já trata por amigos em dia, e nos contava as suas aventuras mirabolantes nos dias de praia que não dispensa depois de arrumar uns carros de manhã, ou nas noites nubladas lisboetas quando as companhias deviam ter mais juízo do que ele. E, claro, mostra-nos o orgulho no seu (e meu!) Sporting. Guarda o boné religiosamente para que não o roubem (como já aconteceu noutras ocasiões infortunas), e promete com alegria que este será o nosso ano.

 

Seguimos caminho quando a noite já ia escura. Passámos pelo Jardim que estava atipicamente deserto, cruzamos mais algumas ruas sem sucesso, e só parámos novamente na Igreja, onde a E. está sempre e religiosamente a organizar todos os bens que pode chamar de seus. Todas as noites, de todos os dias.

 

Nunca nos abordou com antipatia ou distância, mas também nunca se tinha aberto muito para nós além do politicamente correto de uma conversa superficial. Naquele dia foi diferente. Naquele dia, pela primeira vez desde que todos nos lembravamos, a E. sentou-se ao pé de nós e falou até a noite acabar.

 

Falámos do seu passado na Madeira, que apesar de muito longínquo (saiu de lá com 12 anos) continua uma memória profundamente feliz e emocional. E falámos da profunda ligação que manteve com os animais que lhe passaram pela vida. E falámos de superstições estranhas que não fazíamos ideia de onde teriam começado.

 

Mais uma vez a noite acabou sem darmos conta, a trocar aventuras como um grupo genuíno de amigos que cada vez mais somos - nós para eles, eles para nós. Porque é quando proporcionamos a possibilidade de tratamento de igual para igual, com respeito pela história e pelas escolhas, que a magia acontece. Essa magia chama-se amizade.

 

 

 

 

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Conversa Amiga #1

por Catarina d´Oliveira, em 06.04.15

 

Calhou num daqueles dias estranhos, onde as tardes se montam em pedaços idílicos de uma esplanada à beira-mar e as noites se despem num frio de gelar os ossos - mas não a alma.

 

Saí de casa com dois casacos exageradamente quentes, e aquele final de tarde a caminho de Lisboa foi custoso. Quando cheguei, houve reunião, distribuição de equipa e uma pequena atividade de team building até ser a hora de enfrentar o frio para aquecer o peito.

 

Às 21h já lá estavamos, e pela primeira vez deparei-me com o cenário para o qual me tinham preparado na formação. No entanto, nada é capaz de nos antecipar aqueles choques frontais violentíssimos com a imponência da realidade. Comecei a arrastar-me pela larga extensão do corredor da estação do Oriente com o espanto dorido de uma criatura em luto por algo que nem sabia ser seu.

 

Se de dia o cenário é insuspeito, à noite as suas verdadeiras cores mostram-se e o quadro é de um preto carregado com muito pouco branco. Aproximei-me do meu "orientador de saída" e perguntei como distinguíamos naquele mar de gente cansada aquelas com quem deveríamos falar - "Não escolhemos. Aproximamo-nos, metemos conversa e pronto. Não estamos à procura de ninguém específico. Só estamos aqui para conversar e deixar conversar".

 

Ao longo do piso médio da estação, pelos bancos que se distribuem dos dois lados, as pessoas de todas as idades, raças e estados de espírito sentam-se a comer uma refeição entregue por uma outra instituição há meros minutos.

 

A experiência ainda agora começou, pelo que ainda não conheço histórias, mas já gravei algumas caras e nomes (que, eticamente, nunca revelarei sem autorização).

 

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 [imagem: Público]

 

Cumprimentei o R., que já tinha devorado o jantar e falava obsessivamente sobre o emprego que precisava de arranjar. Tentei trocar dois dedos de conversa com o A., que se revelou um dos difíceis e nos respondia a perguntas com questões, e rapidamente decidiu que se sentia mais confortável a fazer um cover de uma banda dos anos 90 pela estação do que a falar comigo - há outros sábados, para outras oportunidades de conquista.

 

Mas a maior parte da minha noite foi passada com o C., o mestre das adivinhas, e que antes de me confideciar o nome ou qualquer outra coisa, me trocou as voltas com charadas de estrutura simples mas resolução complexa que me deram mais que fazer à cabeça do que pensava ser possível naquela noite.

 

Com dificuldade furei entre enigmas e quebra-cabeças para uma conversa mais na terra. Sobre os biscates de trabalho, sobre os arrufos com a segurança da estação, sobre a mulher doente a quem dá o casaco mal o frio aperta, sobre o filho que não é de sangue mas que é de vida que defende mais do que a si mesmo, sobre a dificuldade de convivência entre aqueles na mesma situação e sobre o aperto de viver em permanente estado de sobrevivência num pequeno universo que nós, os sortudos, teimamos em obliterar.

 

Terminou tudo mais rápido do que esperava. O receio de ser incapaz de suprir uma necessidade tão simples como a da conversa a um desconhecido foi estilhaçado pelo prazer de uma experiência positiva naquela noite que afinal não foi assim tão fria. Mas provavelmente não foi por causa dos dois casacos que levei. Porque no final, era o coração que estava mais quente.

 

Até à próxima saída.

 

 

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Um Sem Abrigo, Um Amigo

por Catarina d´Oliveira, em 24.03.15

Partilhar e ajudar, das formas a que estamos habituados, pode não parecer simples. Tanto porque aqueles euros podem (ou não) fazer falta no fim do mês, ou porque aquela comida pode (ou não) escassear no frigorífico se fizermos mal as contas, ou porque aquelas roupas podem (ou não) ser indispensáveis num dia mais frio, ou para um familiar mais necessitado.

 

Há sempre escapes, e, no fundo, desculpas. Mas há realmente uma enorme ausência de razões esfarrapadas que podemos dar para não oferecermos aos outros um pouco do nosso tempo. Não digo semanas, ou meses, mas umas horas. Porque juntando as horas de todos obtemos meses, e juntando meses obtemos anos, e juntando boa vontade e amizade ganhamos vida.

 

Foi com esse espírito que resolvi procurar organismos que me ajudassem a levar para a frente o caminho que decidi, há quase um ano (e muito tarde, eu sei), começar a trilhar sozinha.

 

Quem deseja ajudar com tempo, e presença, e humanidade, tem muitas opções, mas talvez o mais fácil, para começar, seja fazer o que eu fiz: inscrever-me no Banco de Voluntariado da minha área. Depois é esperar pela marcação da entrevista e, uma vez realizada, começar a receber propostas de acordo com as nossas áreas de interesse, que podem ir desde o apoio a doentes, a apoio escolar, acompanhamento de crianças, promoção de atividades desportivas, atividades com sem-abrigo, e muitas outras. Não faltam lugares por onde começar, o que falta mesmo é que tomemos a iniciativa de arregaçar as mangas.

 

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Uma das minhas próximas aventuras (e que começa já dia 28), vai ser com a Associação Conversa Amiga, uma das pequenas instituições que mais me inspirou por colmatar uma falha tão estrutural que existe no apoio à população sem-abrigo: já existe quem distribua comida e agasalhos... mas e conversa? E apoio emocional para combater a exclusão e a solidão? Bom, é isso que vou fazer com os meus colegas, duas vezes por mês, ao sábado à noite (não me digam que não têm tempo...).

 

 

As histórias que lá ouvir não poderei partilhar no todo, por respeito aos indivíduos (e individualidades) e à instituição que represento, mas relatarei, de modo lato, as aventuras que encontrar, as lições que aprender, e os anos que ganhar. Tudo com o intuito de continuar a inspirar quem aqui passa - e a mim também - a fazer mais e melhor, por si, e pelos outros, todos os dias.

 

 

Links Úteis

Mapa de Bancos de Voluntariado em Portugal

Associação Conversa Amiga

 

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