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Conversa Amiga #10

por Catarina d´Oliveira, em 03.11.15

Quero começar este post a afirmar com todas as certezas de que esta foi a melhor e mais inspiradora saída que fiz, desde que faço parte da família da ACA. Não sei se foi o simples facto de precisar desesperadamente de uma noite assim, aliado ao facto de ela efetivamente surgir ou se apenas estava destinado que assim fosse.

 

Os grupos sofreram pequenas alterações, e com elas voltei a Arroios, que já começo a considerar mesmo como uma segunda casa. Por lá sinto-me bem e sinto-me sobretudo a começar a fazer parte do quotidiano daquelas pessoas. Por lá sinto também que posso, aos bocadinhos, começar a cumprir melhor a missão a que me propus quando iniciei esta aventura.

 

Por a natureza da zona ser bicuda - em termos de organização espacial dos vários pontos que temos de cobrir em cada noite - resolvemos otimizar resultados e dividir-nos em dois subgrupos que atuaram isoladamente. Assim, segui caminho pela igreja e o jardim com dois colegas que gosto muito, mas sobretudo, que admiro todos os dias.

 

arroios.jpg

 

Começamos por encontrar o S. que parece andar numa onda de azar. Depois de ter partido a perna há uns meses, ganhou uma infeção no olho no trabalho, há uns dias. A vista já aparentava melhoras mas dava sinais de dias de luta contra ventos e pestanas indesejadas. Mas nem por isso ele perde a boa disposição - lá contou, como sempre, de forma viva e alegre como tudo aconteceu e como nem a pouca sorte lhe tirou a vontade de continuar a trabalhar. "Mas olha por falar em ver... e o L. que me viu pela primeira vez? Ai o gajo nem 'tava a ver quem eu era mas depois ficou todo contente!".

 

Pois é, entretanto o S. lá deixou o seu episódio azarento para passar às boas notícias. O L. estava praticamente cego, mas lá cedeu aos cuidados médicos e agora já começa a recuperar o tacto com o que se passa à sua volta. A boa notícia, ainda a noite mal tinha começado, agoirava boas energias.

 

Pela igreja não nos alongamos, porque as nossas colegas lá passariam mais tarde, mas não deixámos de dar um caloroso beijinho de boa-noite à habitué E., ao T. que até estava mais bem disposto e deitado, bem refastelado e a jantar, o famoso "Trinitá", como é conhecido entre nós. Diz-me o meu colega Vasco que em anos de voluntariado nunca o viu de pé senão uma vez muito recentemente - mas ele lá está, estendido mas bem disposto, sempre disponível a uma palavra simpática ainda que resignado à preferência da existência na horizontal.

 

Chegamos ao jardim já perto das 21.30 e por lá cruzamo-nos pela primeira vez com o S., essa icónica figura do Jardim Constantino que nunca encontramos sem a guitarra.Na bagagem traz o abandono de Cabo Verde para uma aventura promissora na Europa que se traduziu em  vários anos de experiência numa companhia de bailado e de teatro. Por sequências e consequências pelas quais não atalhámos, esse caminho transformou-se num beco fechado, e hoje dedica-se a biscates para sobreviver e ajudar o irmão com as contas em casa, enquanto à noite se dedica à guitarra - "pratico pelo menos quatro horas por dia; temos sempre de nos manter ativos, senão não vamos aprendendo".

 

Com ele há sempre energia positiva no ar, um sorriso e conversa que dá para noites que nunca terminam. Hoje falamos de muita coisa mas sobretudo da vida. Da vida na dinâmica da rua e da vida no geral. "Há que tentar encontrar um equilíbrio porque os recursos estão muito mal distribuídos. 20% das pessoas têm demasiado e 80% andam a lutar pelos restos. Não está certo, manos". Foi neste seguimento que falamos do caso do V. que há poucos dias foi internado depois de um surto depressivo profundo.

 

"Ele andava bem e trabalhar... mas depois começaram a acontecer coisas más; deixou a medicação, perdeu o trabalho e às tantas já nos estava a afastar a nós. E isto também me obrigou a fazer um exercício de amizade - até onde posso ir eu, ajudando-te, sem que te esteja já a prejudicar o teu desenvolvimento e até o meu? É difícil de traçar uma linha... mas estamos sempre a aprender". E sem dar grande conta estavamos ali a discutir temas fraturantes como as disparidades sociais e relacionais, as filosofias de Platão, sabedorias que só podem nascer com vivências e de vivências que só se podem medir com sofrimentos e alegrias.

 

Com o S. é fácil perder a noção do tempo e do espaço e de ficar embriagado em ideias que deveriam mudar o mundo... mas lá tivemos de seguir caminho, e ele ficou na companhia da guitarra, na exata posição em que o encontramos.

 

Por ali perto abordamos mais dois indivíduos, ambos ucranianos de origem, mas que já aprenderam há muito a julgar Portugal como a sua casa. O V., mais velho e necessitado, via-se com um enorme gesso na perna direita enquanto que a esquerda também não estava particularmente forte. Era acompanhado por uma associação, mas por não conseguir deslocar-se por tragos maiores do que 10-15 m, há vários meses que segue sem apoio. Neste momento, encontramo-lo desiludido com promessas que não se cumpriram, e auxílios que não se concretizaram. Com as únicas armas que temos todas as noites - o chá e a conversa - convencêmo-lo a deixar-nos ajudar e sinalizamos o seu caso. Procura quarto, apoio de deslocação e, no fundo, qualquer tipo de ajuda seria bem-vinda. Não vamos descansar enquanto não conseguirmos fazer algo... No final, suplantando a desconfiança inicial, o V. só nos deixou gratidão imensa.

 

Do outro lado estava o A., que também sinalizamos. Depois de se separar da namorada saiu de casa com pouco ou nada, mas também não é disso que se queixa. "Estou bem aqui, e sozinho. Podia estar num quarto, mas estou bem aqui". É uma das coisas novas que descobrimos na rua, que muitas vezes temos de abrir horizontes além do que julgavamos possível... no entanto pediu-nos ajuda para regularizar situações relativas a documentação. Mais uma vez, e prestando o tipo de ajuda que no momento nos é possível (anotando as informações do caso e passando-as à base da assistência social), agradece-nos também, exaltando que tudo o que é mais importante na vida é ter bom coração. Despedimo-nos com um abraço e uma promessa, não de resolução, mas de tentativa absoluta de agilizar os processos.

 

Perto do jardim encontramos também o habitual L., que desde que teve um grave problema na perna esquerda nunca mais foi o mesmo. Meio adormecido, recebeu-nos, à primeira, com cara de poucos amigos, mas quando estavamos prestes a deixá-lo descansar e seguir caminho voltou a aparecer o S., o homem boa-onda que salva Arroios com um sorriso. Com meia dúzia de articulações brincalhonas pôs o L. a rir e numa boa disposição instantânea, e foi talvez aí que melhor percebi a sua importância para o equilíbrio frágil da zona. De facto, é só aparecer e tudo muda, e fica mais esperançoso, e mais otimista.

 

Deixamos o L. ao descanso que bem merecia depois de mais um dia duro, e voltamos ao jardim. Como um grupo de bons amigos e não de voluntários/público-alvo, sentamo-nos num banco a conversar sobre tudo e sobre nada enquanto iamos passando a guitarra entre nós - ninguém bate o S.; o tipo é craque do infinito no limite das seis cordas, mas não me fiz tímida e lá arranhei também eu uns acordes, como ele pediu.

 

IMG_8822.JPG

 

"Estava a pensar sobre o que falámos há bocado e há tempos uma amiga minha estrangeira disse-me que leu por aí na internet que estavam a haver umas perturbações no cosmos que estavam a trazer negatividade para o mundo... Se calhar foi isso que temos sentido nestes meses". Por alguma razão aquilo fez-me sentido - ou mais uma vez, quis que fizesse sentido. "Ei... e ela não te disse quando é que isso ia acabar não?" - perguntei. "Acho que está quase... era coisa de 4 ou 5 meses... E depois de uma onda negativa vem sempre algo melhor. É a lei da vida".

 

Fiquei a pensar naquilo, e nos ciclos que atravessamos ao longo do caminho. Quando tudo parece absoluto e feliz, e quando tudo parece destruído e desesperado. Não consigo dizer do que se trata além da óbvia constatação de que é assim a vida... mas é assim para que a possamos sorver melhor. Porque só a dor e o sacrifício podem dar maior perspetiva e amplitude aos outros rasgos de felicidade. É preciso saber estar triste para saber ser feliz. É preciso absorver tudo - o bom e o mau - e não fugir.

 

É preciso viver. E se para ti, agora, viver está na parte mais difícil, por favor, aguenta.

 

O melhor ainda está para vir...

 

 

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Conversa Amiga #8

por Catarina d´Oliveira, em 15.10.15

Já lá vão quase três semanas desta saída que relato (por atrasos e preguiças várias), pelo que tentarei descrever tudo o que se passou com o máximo pormenor possível.

 

Cheguei à Associação para a reunião de equipa a meio gás. Não me sentia nos meus dias, mas achei que podia procurar ali o boost de que andava a precisar há tantos dias. Não acontece muitas vezes, mas felizmente nesta ocasião, tive razão.

 

Por lá dedicamo-nos a um curioso exercício de team building onde tínhamos 10 minutos para conversar com dois colegas ao acaso e depois, perante todos, exaltar-lhes duas qualidades que tenhamos captado. Tive sorte em poder trocar dois dedos de conversa com pessoas maravilhosas - a V., mais recatada mas totalmente entregue àquilo em que acredita e ao bem que semeia, e a M. que fiz questão de destacar como "uma pessoa de pessoas", que tem tanto lá dentro que só nos apetece sorver tudo.

 

Sentia-me melhor só por isso, e por saber que, além de colegas, estou entre um grupo de pessoas profundamente humanas, com qualidades e defeitos, mas absolutamente apostadas em dar o melhor de si aos outros e a recolher também os frutos dessa troca. Apesar de os encontros ainda terem sido poucos sinto realmente que tenho ali companheiros, parceiros e sobretudo amigos.

 

À saída, tive o meu segundo impulso - mas sobre este inesperado e feliz acontecimento já vos falei aqui.

 

Seguimos depois até à nossa segunda casa, o Oriente, para mais um serão de conversa. Hoje a estação estava particularmente vazia, o que nos pareceu estranho mas apenas até ao momento em que ouvimos falar de uma reunião/festa que acontecia algures em Vila Franca, e onde muitos dos nossos habituais parceiros de conversa se tinham deslocado.

 

Foi por isso uma noite calma, de pouco alarido, mas de encontros alegres.

 

OrienteMGT.jpg

 

 

Com o senhor J.B. passei a maior parte da noite, e juntos percorremos tudo. É serralheiro, mas no fundo também um faz-tudo. Como a tantos outros, o álcool deixou sequelas, mas nunca desistiu de as combater. Já esteve integrado numa associação de recuperação e era por lá tido como uma referência. Olhavam-no com a admiração de um herói e com a esperança de uma recuperação.

 

Por quezílias que nada tinham a ver com o problema que lá o levou em primeiro lugar, abandonou esse ambiente de segurança, mas prometeu-me que queria voltar por estar farto de deambular sozinho, pela inquietude de alguém que não baixa os braços, e pela crença em si mesmo que mesmo na maior dificuldade, alguma vez deixou de ter.

 

Separou-se da mulher mas deu-lhe tudo, porque acha que tudo o que conseguiu na vida deve transmitir àqueles que ama verdadeiramente. E assim vive ela com a filha, numa casa modesta mas bem composta, de que o J.B. abdicou um dia e voltaria a abdicar em qualquer outro. Foi por esta altura que me confessou que gostava de cantar, e que me mostrou com orgulho uma fotografia amarrotada que traz sempre na carteira. O pai era fadista e famoso no circuito lisboeta. Não se davam particularmente bem, mas às vezes o amor e o orgulho são maiores do que tudo, e o J.B. lembrou-me disso quando começou a falar dele sem parar.

 

A noite fez-se sobretudo desta enorme conversa de vida e de vidas, mas não me vim embora sem um último presente - neste caso, um acaso feliz por forma de um reencontro. Lembram-se do Mateus? Reencontrei-o. E depois de algumas tentativas de o recordar do nosso primeiro encontro, consegui lá chegar. E foi uma alegria. Recebi um segundo abraço ainda mais apertado.

 

Estava bem disposto, com um fato impecável e carregado das rimas e das cantigas de que me lembrava tão bem.

 

E bastou isto para vir para casa a pensar como tudo isto vale mesmo a pena.

 

 

 

 

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Conversa Amiga #6

por Catarina d´Oliveira, em 01.09.15

Mais um sábado à noite, mais uma aventura por Arroios.

Por experiência da noite anterior, saímos ligeiramente mais tarde para dar alguma margem ao nosso estimado público alvo de regressar de uma saborosa passeata ao final de tarde que agora, com o tempo de calor, se impera fazer quase todos os dias.

Começamos no lugar de sempre - o mercado. Passamos, sem demorar, por um senhor que não pede grandes companhias. Por traumas que reconhecemos a pouca distância, diz-nos que prefere não falar com mulheres. Afastamo-nos compreensivamente e deixamos os colegas rapazes a tratar do assunto enquanto seguimos um pouco mais à frente para encontrar o sr M. que nos aborda com a graça e simpatia de sempre.

Hoje tem com ele um fiel companheiro, o Pelé, cão do vizinho que lhe confia a guarda do amigo de quatro patas sempre que este necessita de esticar as pernas ao ar livre. É incrível como a relação é notável mesmo à distância... Quando chegamos, o jovem cão olha-nos sem ladrar mas com ar desconfiado: "ele reage sempre às pessoas que passam aqui, e consegue perceber quem é que vem para fazer mal e quem é que não vem. Por isso é que não fez nada, porque sentiu que vocês eram amigos".

Concordamos com a lógica óbvia da asserção, mas não pudemos deixar de pasmar perante a cumplicidade entre ambos. O sr M recostado a fumar o último cigarro do dia, e o Pelé muito sossegado, deitado aos seus pés, e pedindo a ocasional destinha da praxe. Parecia um autêntico quadro de paz e liberdade.

As outras paragens futuras impuseram-se na necessidade de termos de desejar boa noite ao sr. M. e seguir caminho.

 

cão.jpg

 

Perto do jardim reenontramos outro suspeito dos nossos costumes, o bom velho L. Russo de nascença, ainda sente dificuldade com as manhas do português, mas de alguma forma que não é mágica mas quase, acabamos por conseguir comunicar.

É um baque no coração, sempre que o encontramos. Outrora era uma das almas mais bem dispostas da zona, mas hoje é um homem quebrado. Um problema grave numa das pernas requer já uma severa amputação, mas o bom L. é, como costuma dizer-se na gíria, "burro velho e teimoso". E é o sofrimento que ela lhe dá que acabou por sugar a felicidade que carregava todos os dias.

Hoje anda meio zangado, meio melancólico, mas irredutível na decisão que tomou. Despedimo-nos com a sensação amarga do dever cumprido mas da impotência de poder oferecer mais - por vezes, o impacto com a realidade de que não somos os salvadores de Lisboa e de que a nossa assistência tem limites pode ser duro.

Pela igreja temos mais duas paragens obrigatórias: o bem disposto S. cuja perna partida já está com ótimo aspeto depois de ter andado a gesso, e o caríssimo F., que arranjou só para ele um cantinho à luz de um lampião e que estava todo contente porque o seu (e meu!) Sporting estava a ganhar o jogo - quem marcou, isso já não sabia, mas pouco importava na realidade.

E como o jogo, a noite foi mais uma pequena vitória. Serena mas certa. Porque para o Bom acontecer, basta que nos reunamos sempre nos sítios do costume. E alí, no mercado, no jardim, na igreja, fica a nossa marca neles, e a marca deles em nós. Como no resto da vida, e como nas verdadeiras amizades.

 

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