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Até que a morte (n)os separe

por Catarina d´Oliveira, em 05.06.14

[Jardim do I.P.O.]

 

Olhei para o lado e vi-o, a dois bancos de distância. Tinha uma boina pousada na perna direita e uma bengala encostada à perna esquerda. Brincava inconscientemente com um pequeno papel entre os dedos enquanto o olhar andava perdido algures pelo chão e pela amargura da tristeza. Levantei-me e cheguei-me perto.

 

"Importa-se que me sente um bocadinho ao pé de si?". Deu um pequeno salto da quebra da dormência catatónica e arranjou forças para me sorrir e dizer: "claro que não menina... faça favor".

 

Foi esse sorriso, aliado a uma expressão de inequívoca bondade, que me impeliu a perguntar pela sua história, ou antes pela de alguém que é tão parte de si que, numa simbiose perfeita e rara na vida, torna a sua história também a história dele. A história deles.

 

Nos últimos anos, a saúde não tem estado do lado da dona M., a esposa de mais de 50 anos do senhor S. "Nestes últimos tempos tem sido muito difícil menina... e eu já não a consigo ajudar como conseguia, e isso custa muito. Já estamos juntos há muito tempo sabe? E olhe que não foi pêra doce". O que se seguiu foi uma inesperada descrição de peripécias que não pude (nem quis!) interromper. O breve compêndio de uma vida a dois começou no exato momento onde devia - na constatação inescapável do "é ela, é ela a mulher da minha vida" ainda antes dos conhecimentos travados, passando pelas viagens de bicicleta ao fim-de-semana só para a ver, a trabalhosa benção do pai, o casamento comedido, os filhos e até os momentos de dúvida.

 

"Houve duas ou três ocasiões em que pensei mesmo que a gente já tinha dado o que havia para dar... Ora eu me sentia afastado, ora ela... E às vezes foi difícil. Estivemos ali à beira de nos estatelarmos do precipício sabe. Isto de estar muitos anos com a mesma pessoa é muito difícil e a gente às vezes esquece que tem de ralar bem". Para minha surpresa, arranjei coragem para lhe perguntar se alguma vez se tinha sentido arrependido de ter ficado... mas ele nem me deixou acabar a pergunta: "Naaaaaa! Ora essa! Ela nunca deixou de ser a mulher da minha vida. Às vezes vem coisas e uma pessoa pensa coisas diferentes, mas depois lembrava-me sempre, e nunca podia ter estado com outra pessoa".

 

 

Os anos passaram, mas entre dificuldades apareceram felicidades triplicadas. "As nossas netinhas são as coisas mais doces, ora veja lá", disse estendendo-me a carteira onde se via a fotografia de duas meninas a brincar no que me pareceu um parque infantil, mesmo ao lado de uma fotografia de uma senhora. "É ela...?". "Sim...", e os olhos e o coração abriram-se em par.

 

Mas quando se instala a velhice, uma importante parte dos votos de casamento entra em cheque. "É na saúde e na doença, menina. Estou sempre com a minha M., aconteça o que acontecer. E venha o bicho que vier!". Há doenças chatas e cruéis, mas o cancro (sim, fiz questão de escrever em minúsculas) é particularmente perverso não só para a vida que coloca em perigo, mas de todos os que a rodeiam.

 

Segundo os médicos, o bicho não deixa a M. muito mais do que meros meses de vida, mas o espírito de S. não se quebra: "conta tudo até ao fim. Só não quero que ela sofra, e que esteja sozinha... mas isso vou estar cá sempre também. Ela sempre me aturou estes anos todos e sempre me ajudou. Eu só faço o mesmo agora. Todos os dias que for preciso, enquanto me conseguir pôr em pé. Até que a morte nos separe".

 

Reparei que o senhor S. se emocionou ao longo destas últimas frases, e o que senti dentro de mim também nunca vou esquecer. Contraiu-se tudo primeiro, e depois houve uma explosão. Simultaneamente sentia-me a arder e tinha calafrios na espinha, e depois também senti os olhos humedecerem-se. E percebi porquê.

 

Ser testemunha de um Amor assim é um privilégio. E mais uma vez, quando pensei ir ao encontro de uma história de dificuldade e assombro, encontrei uma história de Amor. Por mais voltas que dermos, é sempre aqui, à mais humana de todas as emoções, que acabamos por chegar.

 

Aproximei-me e dei-lhe um abraço. Agradeci-lhe a partilha, agradeci-lhe o enorme Senhor que é (e que não gosta de aderir à moda das selfies da gente nova), e agradeci-lhe por alimentar um Amor em que, hoje em dia, tanta gente parece não querer acreditar. Prometi voltar.

 

Vou voltar.

 

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No I.P.O. não há doença: há vida e esperança

por Catarina d´Oliveira, em 03.06.14

Não são raras as vezes em que temos de relativizar as coisas. Ou, pelo menos, devíamos.

 

Tirar uns minutos para parar, sair da bolha de absorção que é a nossa vida quotidiana e olhar à volta. Se o fizermos, não só temos oportunidade de ver coisas que nunca tínhamos visto, como também nos possibilitamos a encontrar "acidentalmente" quem não nos faça sentir tão sozinhos, quem nos ensine mais do que julgávamos poder saber, quem nos mostre que na tragédia grega que é a vida há sempre lugar para a esperança, para o sorriso e para o Amor.

 

Hoje fui até ao I.P.O., e foi lá que conheci uma senhora a quem daqui em diante tratarei por B.

 

 

O dia está soalheiro, e pelos jardins do Instituto espalham-se histórias que nunca ficarão por contar - ainda que não seja por mim. A B. estava sentada no banco onde também me acomodei, e enquanto me instalava ouvia-a indistintamente numa conversa animada ao telemóvel. Quando terminou, resolvi meter conversa.

 

"Desculpe meter-me... mas depreendo que tenha aqui alguém, e só lhe quero dizer que fico muito feliz por as coisas estarem a correr bem". Surpreendida, olhou para mim, sorriu e respondeu: "Sim! A minha filha... só tem oito aninhos, mas já anda a batalhar desde os seis. É a pessoa mais corajosa que conheço".

 

Sem querer parecer grosseira ou intrusiva, questionei a B. sobre a jornada até hoje, desde a instalação do terror até ao final que até agora tem tudo para ser feliz. "Sabe... eu achava que já tinha apanhado uns sustos valentes na vida, mas só naquele momento é que percebi a verdadeira definição de medo. Quando os médicos falaram comigo, senti que tudo desapareceu à minha volta. Já não ouvia nada, não via nada, não sentia nada. Depois o pavor começou a crescer".

 

Vieram as segundas opiniões - necessárias apenas para assegurar o terror de quem percebia o que se passava - e as sucessivas consultas e consequentes sessões de quimioterapia. "É devastador ver o nosso filho passar por algo assim, mas por outro lado - eu tento sempre ver as coisas pelo lado positivo - serviu para me mostrar o quão forte ela era, mesmo tão pequenina. Foi raro chorar. E mesmo quando se entristecia de não poder sair para brincar com os outros meninos, lá arranjava maneira de se reerguer. Nunca vi nada assim. Foi ela mesma que, muitas das vezes, nos animou a nós".

 

O sorriso continuava lá, ainda que partes da história (que aqui não tenho espaço ou memória para desenvolver com exatidão) fossem tão dolorosas de recordar. "Lembro-me como se fosse hoje que quando ela começou a perder cabelo quase entrei numa espiral depressiva. Talvez só ali algo se tivesse finalmente ativado na minha cabeça... mas mais uma vez ela ensinou-me a sorrir e esperar o melhor mesmo quando todas as luzes parecem apagadas - 'Olha mamã! Agora já não precisas de me enrolar o cabelo com o secador sempre que tomo banho!!'".

 

No final, a B. lá me voltou a relembrar do importante, mesmo que com esta história fosse impossível ficar-lhe indiferente: "Quem olha para ela agora, não diz que já passou por tanto. E nós estamos gratos todos os dias. Apreciamos cada um como se fosse uma jóia, sabe? Porque é mesmo. Isto é tudo muito efémero. Um dia estamos aqui, mas ninguém nos garante que estejamos no seguinte. O único controle que temos nisto tudo é a forma como escolhemos responder às coisas, aos desafios".

 

Depois desta conversa, senti-me simultaneamente esmagada e inspirada pelas coisas boas. Subi até ao sétimo piso do I.P.O. - onde se encontra a secção de Pediatria - procurei a vending machine mais próxima e deixei um pequeno incentivo a quem por lá passar... porque muitas vezes, é na invisibilidade dos atos que nos sentimos fortalecidos.

 

 

 

Deixarei outra história para outro dia, mas não termino este post sem vos (e me) recordar do que realmente importa. A vida acontece a todos nós, e estou certa que é por ser tão frágil e por vezes tão dura connosco que toma um valor transcendente, que nunca existiria num Éden povoado por imortais.

 

Estamos aqui e agora. Não deixem que seja preciso uma tragédia ou a iminência dela para vos mostrar que a lista de coisas que são vitais à vossa vida não é tão longa como nos fazemos crer. Não desistam de procurar o Bom que existe em toda a gente. Não percam a esperança nos outros e em vocês. Parem de procurar a perfeição e aceitem a imperfeição de quem vos quer bem e a vossa também. E por fim, se amam alguém, por favor, digam-lhe. Digam sempre, porque nas contas finais, é tudo o que realmente importa.



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