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Conversa Amiga #10

por Catarina d´Oliveira, em 03.11.15

Quero começar este post a afirmar com todas as certezas de que esta foi a melhor e mais inspiradora saída que fiz, desde que faço parte da família da ACA. Não sei se foi o simples facto de precisar desesperadamente de uma noite assim, aliado ao facto de ela efetivamente surgir ou se apenas estava destinado que assim fosse.

 

Os grupos sofreram pequenas alterações, e com elas voltei a Arroios, que já começo a considerar mesmo como uma segunda casa. Por lá sinto-me bem e sinto-me sobretudo a começar a fazer parte do quotidiano daquelas pessoas. Por lá sinto também que posso, aos bocadinhos, começar a cumprir melhor a missão a que me propus quando iniciei esta aventura.

 

Por a natureza da zona ser bicuda - em termos de organização espacial dos vários pontos que temos de cobrir em cada noite - resolvemos otimizar resultados e dividir-nos em dois subgrupos que atuaram isoladamente. Assim, segui caminho pela igreja e o jardim com dois colegas que gosto muito, mas sobretudo, que admiro todos os dias.

 

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Começamos por encontrar o S. que parece andar numa onda de azar. Depois de ter partido a perna há uns meses, ganhou uma infeção no olho no trabalho, há uns dias. A vista já aparentava melhoras mas dava sinais de dias de luta contra ventos e pestanas indesejadas. Mas nem por isso ele perde a boa disposição - lá contou, como sempre, de forma viva e alegre como tudo aconteceu e como nem a pouca sorte lhe tirou a vontade de continuar a trabalhar. "Mas olha por falar em ver... e o L. que me viu pela primeira vez? Ai o gajo nem 'tava a ver quem eu era mas depois ficou todo contente!".

 

Pois é, entretanto o S. lá deixou o seu episódio azarento para passar às boas notícias. O L. estava praticamente cego, mas lá cedeu aos cuidados médicos e agora já começa a recuperar o tacto com o que se passa à sua volta. A boa notícia, ainda a noite mal tinha começado, agoirava boas energias.

 

Pela igreja não nos alongamos, porque as nossas colegas lá passariam mais tarde, mas não deixámos de dar um caloroso beijinho de boa-noite à habitué E., ao T. que até estava mais bem disposto e deitado, bem refastelado e a jantar, o famoso "Trinitá", como é conhecido entre nós. Diz-me o meu colega Vasco que em anos de voluntariado nunca o viu de pé senão uma vez muito recentemente - mas ele lá está, estendido mas bem disposto, sempre disponível a uma palavra simpática ainda que resignado à preferência da existência na horizontal.

 

Chegamos ao jardim já perto das 21.30 e por lá cruzamo-nos pela primeira vez com o S., essa icónica figura do Jardim Constantino que nunca encontramos sem a guitarra.Na bagagem traz o abandono de Cabo Verde para uma aventura promissora na Europa que se traduziu em  vários anos de experiência numa companhia de bailado e de teatro. Por sequências e consequências pelas quais não atalhámos, esse caminho transformou-se num beco fechado, e hoje dedica-se a biscates para sobreviver e ajudar o irmão com as contas em casa, enquanto à noite se dedica à guitarra - "pratico pelo menos quatro horas por dia; temos sempre de nos manter ativos, senão não vamos aprendendo".

 

Com ele há sempre energia positiva no ar, um sorriso e conversa que dá para noites que nunca terminam. Hoje falamos de muita coisa mas sobretudo da vida. Da vida na dinâmica da rua e da vida no geral. "Há que tentar encontrar um equilíbrio porque os recursos estão muito mal distribuídos. 20% das pessoas têm demasiado e 80% andam a lutar pelos restos. Não está certo, manos". Foi neste seguimento que falamos do caso do V. que há poucos dias foi internado depois de um surto depressivo profundo.

 

"Ele andava bem e trabalhar... mas depois começaram a acontecer coisas más; deixou a medicação, perdeu o trabalho e às tantas já nos estava a afastar a nós. E isto também me obrigou a fazer um exercício de amizade - até onde posso ir eu, ajudando-te, sem que te esteja já a prejudicar o teu desenvolvimento e até o meu? É difícil de traçar uma linha... mas estamos sempre a aprender". E sem dar grande conta estavamos ali a discutir temas fraturantes como as disparidades sociais e relacionais, as filosofias de Platão, sabedorias que só podem nascer com vivências e de vivências que só se podem medir com sofrimentos e alegrias.

 

Com o S. é fácil perder a noção do tempo e do espaço e de ficar embriagado em ideias que deveriam mudar o mundo... mas lá tivemos de seguir caminho, e ele ficou na companhia da guitarra, na exata posição em que o encontramos.

 

Por ali perto abordamos mais dois indivíduos, ambos ucranianos de origem, mas que já aprenderam há muito a julgar Portugal como a sua casa. O V., mais velho e necessitado, via-se com um enorme gesso na perna direita enquanto que a esquerda também não estava particularmente forte. Era acompanhado por uma associação, mas por não conseguir deslocar-se por tragos maiores do que 10-15 m, há vários meses que segue sem apoio. Neste momento, encontramo-lo desiludido com promessas que não se cumpriram, e auxílios que não se concretizaram. Com as únicas armas que temos todas as noites - o chá e a conversa - convencêmo-lo a deixar-nos ajudar e sinalizamos o seu caso. Procura quarto, apoio de deslocação e, no fundo, qualquer tipo de ajuda seria bem-vinda. Não vamos descansar enquanto não conseguirmos fazer algo... No final, suplantando a desconfiança inicial, o V. só nos deixou gratidão imensa.

 

Do outro lado estava o A., que também sinalizamos. Depois de se separar da namorada saiu de casa com pouco ou nada, mas também não é disso que se queixa. "Estou bem aqui, e sozinho. Podia estar num quarto, mas estou bem aqui". É uma das coisas novas que descobrimos na rua, que muitas vezes temos de abrir horizontes além do que julgavamos possível... no entanto pediu-nos ajuda para regularizar situações relativas a documentação. Mais uma vez, e prestando o tipo de ajuda que no momento nos é possível (anotando as informações do caso e passando-as à base da assistência social), agradece-nos também, exaltando que tudo o que é mais importante na vida é ter bom coração. Despedimo-nos com um abraço e uma promessa, não de resolução, mas de tentativa absoluta de agilizar os processos.

 

Perto do jardim encontramos também o habitual L., que desde que teve um grave problema na perna esquerda nunca mais foi o mesmo. Meio adormecido, recebeu-nos, à primeira, com cara de poucos amigos, mas quando estavamos prestes a deixá-lo descansar e seguir caminho voltou a aparecer o S., o homem boa-onda que salva Arroios com um sorriso. Com meia dúzia de articulações brincalhonas pôs o L. a rir e numa boa disposição instantânea, e foi talvez aí que melhor percebi a sua importância para o equilíbrio frágil da zona. De facto, é só aparecer e tudo muda, e fica mais esperançoso, e mais otimista.

 

Deixamos o L. ao descanso que bem merecia depois de mais um dia duro, e voltamos ao jardim. Como um grupo de bons amigos e não de voluntários/público-alvo, sentamo-nos num banco a conversar sobre tudo e sobre nada enquanto iamos passando a guitarra entre nós - ninguém bate o S.; o tipo é craque do infinito no limite das seis cordas, mas não me fiz tímida e lá arranhei também eu uns acordes, como ele pediu.

 

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"Estava a pensar sobre o que falámos há bocado e há tempos uma amiga minha estrangeira disse-me que leu por aí na internet que estavam a haver umas perturbações no cosmos que estavam a trazer negatividade para o mundo... Se calhar foi isso que temos sentido nestes meses". Por alguma razão aquilo fez-me sentido - ou mais uma vez, quis que fizesse sentido. "Ei... e ela não te disse quando é que isso ia acabar não?" - perguntei. "Acho que está quase... era coisa de 4 ou 5 meses... E depois de uma onda negativa vem sempre algo melhor. É a lei da vida".

 

Fiquei a pensar naquilo, e nos ciclos que atravessamos ao longo do caminho. Quando tudo parece absoluto e feliz, e quando tudo parece destruído e desesperado. Não consigo dizer do que se trata além da óbvia constatação de que é assim a vida... mas é assim para que a possamos sorver melhor. Porque só a dor e o sacrifício podem dar maior perspetiva e amplitude aos outros rasgos de felicidade. É preciso saber estar triste para saber ser feliz. É preciso absorver tudo - o bom e o mau - e não fugir.

 

É preciso viver. E se para ti, agora, viver está na parte mais difícil, por favor, aguenta.

 

O melhor ainda está para vir...

 

 

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Cartas para Estranhos #15

por Catarina d´Oliveira, em 22.09.15

É uma estranha luta, a de levarmos esta vida que, no fundo começa e termina da mesma forma: com a solidão. Faz parte da nossa missão procurar a nossa felicidade todos os dias, mas também fazer com que esses sejam os únicos momentos em que estamos sozinhos.

 

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"Querido/a estranho/a,

Independentemente de como te está a correr este dia ou esta semana, sei que vão haver momentos na tua vida em que vais sentir-te sozinho/a. Todos os temos, com manifestações mais ou menos dramáticas, mas ainda assim, a verdade é que estamos nisto juntos. Quer queiramos que não, estamos todos ligados, e todos passamos por emoções semelhantes, apenas em contextos diferentes... então estamos todos a tentar navegar por este mundo, e esta vida, enquanto tentamos sobreviver ao quotidiano e procurar a felicidade. E para isso precisamos uns dos outros.

Lembra-te disto, porque há um poder e conforto inexplicáveis ao recordarmos isto.

Deixa que os outros estejam lá para ti. Pede ajuda. Entrega-te. E depois, deixa que façam o mesmo. É no momento em que deixamos de olhar para o chão e nos damos conta do que existe à nossa volta que temos uma verdadeira hipótese de sermos felizes.

 

Um abraço enorme de uma amiga que (ainda) não conheceste"

 

 

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Conversa Amiga #7

por Catarina d´Oliveira, em 16.09.15

Avisaram-nos que em setembro poderiam existir alterações na escala de voluntários e áreas cobertas e parece tiro certo porque quando isso acontece, lá ando eu a saltitar de lugar. Não me queixo - acho que doses de estabilidade são sólidas na vida, quando temperadas com cheirinhos de mudança. E foi mais uma.

 

Não propriamente uma mudança radical. Voltei ao Oriente, a casa onde comecei, aqui há uns meses.

 

Chegámos a uma hora crítica - estavam a decorrer distribuições de comida, pelo que a estação e toda a área circundante estavam atipicamente vazias. Esperamos e procuramos outros recantos até o movimento do costume se instalar.

 

Não vi muitas caras conhecidas desde as últimas vezes que lá estive, mas consegui reencontrar o saudoso M., uma figura do Oriente que nos habituou desde sempre à boa disposição, às piadas malandras (sem serem malandrecas) e à predisposição orgânica para uma boa conversa. Trocamos dois beijinhos e umas palavras rápidas de lembrança, porque o nosso reencontro a sério estava marcado para mais tarde - já lá iremos.

 

Continuei a andar pelo estação com um colega quando nos aproximamos lentamente de uma dupla de caras novas. Ficamos sem lhes saber os nomes, mas exploramos uma partícula da sua história. Um deles tinha já saído da Índia há mais de 15 anos, tendo-se estabelecido por Algés, onde chegou a trabalhar uns tempos. O Oriente é casa nova de poucos dias. Foi aqui que recebeu o jovem amigo, a quem tem dado a mão sempre que precisa.

 

É uma coisa fantástica esta que encontramos a cada saída. É verdade que há despiques e contendas - como em todas as pequenas ou grandes sociedade. No entanto, não deixa de me surpreender o companheirismo e a entreajuda que encontramos na rua. Quando se tem pouco mais que nada e mesmo assim há a vontade de dar a mão, de apoiar, de ajudar a prosperar. Conforta-me sempre descobrir que se despirmos as pessoas das necessidades fingidas e dos adereços materiais elas continuam a ser... pessoas, e boas pessoas.

 

E foi bondade pura que este Homem me transmitiu, mesmo entre a dificuldade de dançar entre duas línguas que não dominava completamente. Disse-me que já não procurava trabalho mas que já tinha sido feliz, e que os momentos menos bons - como este - fazem parte. "But it's ok. It's life", disse-me a sorrir.

 

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(© Copyright Jim Hubbard)

 

Despedi-me da dupla enquanto o meu colega ajudava o mais novo a orientar a documentação que necessita para procurar trabalho - aqui oferecemos companhia e conversa, mas também podemos potenciar facilidades em diversas situações relacionadas com saúde, documentação e apoios, e ainda retirá-los da situação de sem-abrigo - o que felizmente acontece algumas vezes, mas apenas e só com a mobilização correta e, sobretudo, com o desejo e compromisso total da pessoa que pretendemos ajudar.

 

Foi depois a vez de me sentar um bocadinho com o C., outra cara conhecida de vista mas com quem creio que nunca tinha conversado. Erro crasso, como viria a comprovar minutos apenas depois.

 

E o C. é um exemplo infeliz de uma sociedade mal-agradecida. Não julgamos ninguém com quem nos cruzamos, e muito menos os seus motivos, mas o C. nunca fez (mal) para estar nesta situação. Sem drogas, álcool ou desemprego no currículo, é apenas vítima de um sistema que continua a não funcionar.

 

Durante quase 30 anos foi técnico numa fábrica que produzia bidons. "Há muitos anos, precisávamos de uns 20 homens para fazer un 10 bidons por dia. Agora fazem uns 200 por dia - com dois homens e o resto são máquinas". Não precisou de me explicar a história para deduzir como aconteceu. É um sinal dos tempos industriais, as maquinas a substituírem os homens que, de repente, vêm a sua arte reduzida a um código de um instrumento que não conseguem operar.

 

Mas mesmo em situação desfavorável, o C. tentou fazer por si. "No centro de emprego descobri um curso de robótica que complementava muitos conhecimentos que já tenho. É claro que muito dificilmente empregariam um homem como eu, com 63 anos, mas queria mesmo tentar e sinto que, pelo menos, ia gostar muito". O curso acabou por não acontecer. "Não havia alunos suficientes?" - perguntei a pensar que já sabia a resposta. "Não. Não havia formadores". Fiquei com a sensação de que, em casos específicos, fferecem-se, portanto, fantasias e não exatamente ferramentas úteis. Oferecem-se sonhos que nem sequer somos capazes de suportar. E é tudo profundamente desmotivante.

 

"Trabalhei toda a vida e agora vejo-me nesta situação. Estou melhor que muitos aqui, mas não posso, por exemplo, prescindir de vir aqui buscar comida. Não é que sinta vergonha, mas depois de 30 anos a trabalhar merecia mais dignidade". Felizmente há alguma possibilidade no futuro do C. A reforma na íntegra é possível aos 67 - "vou esperar até lá. Prefiro isso do que levar um corte brutal e ficar quase como estou agora. Não me conseguia manter sozinho na mesma... portanto mais vale esperar..." disse-me com um ar triste mas conformado.

 

Por ali continuamos a conversar mais um pedaço, sobre a preversidade do mercado de trabalho - cada vez maior tanto para novos como para velhos - até o C. partir para casa. "Amanhã cá estou outra vez. Vemo-nos daqui a duas semanas?". Espero bem que sim, caro amigo.

 

Já não sobrava muito tempo na minha noite, mas voltei a cruzar caminho com o M. Entre uma conversa a três que juntou também outro colega voluntário, discutimos os seus tempos no exército, a tropa, os treinos suados e sangrentos, as missões, e as instituições militares do passado e do presente.

 

Mas o que mais me cativou na conversa foi o início, antes mesmo de entrar no domínio de quarteis e botas de biqueira de aço. Porque antes o M. falou-me de pessoas, das suas pessoas. E mais uma vez voltei ao tema da antreajuda.

 

Em poucos minutos soube que o M. não se priva de um bom cigarro, mas que não bebe e trabalha sempre que consegue arranjá-lo. Mas sobretudo soube que o M. é uma pessoa de pessoas. Que leva quem precisa ao médico, que oferece mantas, que guarda pertences alheios, que é ali uma figura de respeito e de solidariedade. Mesmo que, em muitos casos, não lhe seja retribuida a benevolência.

 

É assim que deve ser. Fazer o melhor possível sem esperar nada em troca. Mas se todos o fizermos haverá bondade suficiente para distribuir pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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Inspiração - Up

por Catarina d´Oliveira, em 23.06.15

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Quando ontem olhei para o lado e vi o meu sobrinho de seis anos vidrado no universo mágico criado pela Disney Pixar em INSIDE OUT, voltei a lembrar-me das valências imensuráveis que a arte que enumeramos de sétima nos oferece.

 

Recordei-me, em particular, como a prática da perfeição foi tornando o Cinema de Animação cada vez mais emocionalmente robusto e um crescente pilar na formação psicossocial e cognitiva dos mais novos e uma fonte de inspiração única para os adultos. É um género especial, e insuspeitamente poderoso, porque permite o aproveitamento da inocência da pureza para nos instigar sentimentos e sensações positivamente reformadoras.

 

Foi nesse sentido que, quando decidi iniciar uma nova rubrica no Happiness dedicada a Inspirações artísticas para a vida – no Cinema, na Música, na Literatura, etc – considerei que era não só de vital importância abrir as hostes com a insustentável leveza da animação como era imperativo que o primeiro objeto de exploração fosse um que tanta humildade, vontade, perseverança e amor me tenha inspirado.

 

Realizado por Peter Docter, UP emergiu de uma incubadora ativa que nos habituou à maravilha. Em 2009, depois de os bonecos já terem ganho vida em TOY STORY, ou de os monstros planearem assustar-nos em MONSTERS INC ou de um robô solitário ter a tarefa de limpar o planeta que destruímos em WALL.E, parecia que a Disney Pixar não tinha mais por onde escalar.

 

Regressando ao protagonismo humano ausente desde THE INCREDIBLES, seguimos as desventuras de um vendedor de balões de 78 anos que, finalmente, realiza o sonho da sua vida - uma grande aventura, quando prende milhares de balões à sua casa e consegue voar à descoberta da América do Sul. No entanto, o septuagenário Carl Fredricksen vai descobrir, tarde demais, que o seu maior pesadelo também embarcou nesta viagem… um explorador da natureza super otimista de 8 anos chamado Russel.

 

Elevando pela complexidade dramática do enredo, UP não deixa de ser um singular hino à alegria de viver e uma daquelas obras que nos deixa inevitavelmente com um sorriso no rosto quando abandonamos a sala de cinema. É estimulante e divertido, porém inspirador na subtileza das suas mensagens: não há idade para aprender a viver; e às vezes basta fechar os olhos, dar um passo cego e esperar pelo que a vida nos trouxer – e as aventuras podem nem ser aquelas que tínhamos planeado ou idealizado, mas todas elas nos ensinam algo e têm potencialidade de oferecer memórias que nunca esqueceremos.

 

A importância dos sonhos para a motivação pessoal e, posteriormente, para a disponibilização de experiências únicas, de limite, que nos permitem a recontextualização de atitudes e perspetivas de vida é um dos principais temas core, bem como a reflexão sobre as dicotomias da Vida/Morte e Viagem Interior/Exterior.

 

Além da exploração habitual da importância da manutenção das relações humanas como contributo essencial para a construção da noção individual de felicidade, UP elabora ainda sobre o positivismo encontrado entre a troca de experiências entre indivíduos de diferentes gerações e de backgrounds distintos. São os conhecimentos e competências adquiridos em ambas as instâncias que tornam os personagens mais complexos à medida que o enredo se desenvolve, e que espelham a vital importância da interação dinâmica entre nós e uma plenitude de outras pessoas de diferentes idades, origens, classes sociais, religiões. É a partir do convívio, da partilha, da abertura ao conhecimento e da aquisição de experiências que temos possibilidade de nos tornar melhores, mais capazes e, sobretudo, mais humanos.

 

Há uma estranheza indefinida que lhe confere uma maravilha única, difícil de explicar, fácil de sentir. No final de tudo, e num mar de enriquecedoras aprendizagens, destaca-se a inapagável lição da necessidade de desvalorização das superficialidades e no reconhecimento da importância dos verdadeiros objetivos de felicidade e, sobretudo, das relações.

 

Na Era digital que, através de telemóveis, redes sociais e chats propicia cada vez mais o isolamento social, UP ousa desafiar-nos a desenvolver a apreciação da interação humana como a nossa derradeira aventura.

 

E o grito de guerra recorrente não podia ser mais adequado: a aventura está aí!

 

 

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Conversa Amiga #4

por Catarina d´Oliveira, em 15.06.15

Depois de uma saída de ausência tive o prazer de voltar a um lugar que me preenche a alma.

 

Reunimo-nos, como sempre, uma hora antes da saída, trocámos ideias entre a equipa e finalmente partimos, divididos em quatro dentes de uma forquilha que só deseja ajudar a enfraquecer o monstro da solidão que assola tantos e tão bons pelas ruas de Lisboa.

 

Voltei a Arroios naquela que parece vir ser a minha casa, de quinze em quinze dias, nos próximos meses, e apesar de a zona ser célebre por promover a relação prolongada com as mesmas pessoas, fim-de-semana após fim-de-semana, só reencontrei uma cara familiar desde a primeira vez que lá estive.

 

Quando chegámos, lá estava a boa E. a empilhar os seus pertences para preparar mais uma noite debaixo da proteção da igreja. Cumprimentou-nos com um sorriso simpático, aceitou o nosso chá, e parou por momentos a sua frenética arrumação para trocar uns dedos de conversa connosco.

 

Como aconteceu com outros, a E. conseguiu ser colocada num quarto há relativamente pouco tempo, mas também como muitos outros, optou por deixá-lo e regressar às ruas que já hoje conhece melhor do que a si mesma. Pode parecer pouco apropriado ou agradecido que o tenha feito, mas à medida que nos explicou como nem era capaz de usar a cozinha em curto-circuito, ou de ter um momento de privacidade numa casa que desconhecia e não supria as suas necessidades, continuei, como ao longo das poucas saídas que fiz, a compreender um pouco mais das razões e motivações que tantas vezes desconsideramos como válidas a estas almas que o tempo não faz esquecer.

 

Quando chegou o transporte responsável pela distribuição de comida, lá se despediu de nós com a maior das simpatias e foi buscar a caixinha que lhe estava destinada. Pousou-a entre a trincheira de cartão que construiu para a noite, e voltou às suas coisas - que são tantas que é impossível conceber como as carrega para todo o lugar onde vai, como me confidenciou uma colega. A E. é o que comummente designamos de "acumulador compulsivo", e apesar de já vários a terem tentado ajudar ao designar um cacifo para proteger os seus bens, estes foram sempre crescendo, em quantidade e em aparente inutilidade à vista desarmada dos olhos que não são o dela. "Eu sei que tenho muita coisa, mas todas as coisas são importantes para mim e gosto de as ter comigo para me lembrar". E ninguém tentou nem quis discuti-lo.

 

A zona estava surpreendente e especialmente vazia naquele início de noite, e preparavamo-nos para "mudar acampamento" quando nos apareceu a adorável dona M, uma ternurenta senhora nonagenária a quem o que falta de ouvido compensa com boa disposição e um conhecimento enciclopédico de rimas de quatro versos que nos deixaram a todos com um sorriso que dava para aguentar três vidas inteiras.

 

A comunicação foi quase impossível, pois a cada pergunta surgia uma gargalhada tímida mas absolutamente adorável que denunciava a tal falta de audição e a subsequente resposta com mais uma rima para nos embalar o peito. Ficou, no entanto, a irredutível prova da possibilidade de comunicação profunda e intensa além da troca verbal tradicional a que estamos habituados. Ninguém naquela noite conseguiu, efetivamente, conversar nos meandros costumeiros com a dona M., mas todos admitimos, no final da noite, que foi um dos pontos altos da nossa saída.

 

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Seguimos caminho pela noite dentro, e à porta da célebre Portugália encontramos mais um par de almas com quem pudémos trocar ideias, mas não nomes.

 

O vício a que ambos sucumbem diariamente não lhes tirou a vontade de também nos receber bem - ela com mais histórias tristes entaladas na garganta, ele com uma cultura relativamente vasta que deu azo a saudáveis disputas de conhecimento geográfico e matemático, passámos por Aristóteles e até pela natureza e alcance de algumas das mais famosas rodovias de Portugal.

 

Saí dali a duvidar dos meus próprios conhecimentos, mas as dúvidas não tomaram conta durante muito tempo até chegarmos à nossa última paragem.

 

Perto do jardim, a tensão tomou conta dos ânimos porque como seria de esperar, há dias em que a precariedade da situação de quem não tem teto leva a melhor perante a sanidade. Durante alguns minutos, o senhor R. revoltou-se com a nossa presença e a nossa atividade. Explicou-me, com uma raiva que na sinceridade do coração não era destinada a mim, como não precisava de chá nem de conversa, mas de pão... e pelo meu lado tentei fazê-lo ver como há tantos de nós - não os suficientes, mas tantos ainda assim - que tentam dar um pouco de si para ajudar de formas diversas a suprir necessidades diferentes. De alimentação, de conforto, de companhia.

 

O R. não se deixou demover na sua causa, mas ao longo da conversa onde por várias vezes me desancou como se não houvesse amanhã, não pude deixar de me ir acalmando e sentido que, mesmo que a dinâmica estivesse a ser diferente neste caso, eu estava a cumprir a minha missão. Ele não precisava de ter ficado a falar comigo, por mais que se tenha exaltado em alguns momentos... mas ficou, o que por si só demonstra uma necessidade de interação. Uma interação que aparentemente pode não parecer positiva, mas foi. Porque ele precisava de a ter, para se libertar dos demónios naquela noite, e eu precisava de estar do outro lado, para aprender a esperar e a transformar uma experiência negativa em algo positivo para mim e para os outros.

 

Não fui para casa sem travar um último conhecimento com um grupo de jovens que conversava alegremente à volta de uma mesa no jardim. A forma simpática e acolhedora como nos abordaram foi surpreendente, particularmente pelo A., um miúdo grande bem habituado a viver a vida no limite.

 

Com 35 anos, não trabalha mas subsiste à força de participações em competições e corridas de touros que já lhe cavaram boas partes do corpo. Um delinquente ou um sanguessuga, quase consigo ouvir os julgamentos automáticos na minha cabeça... mas a ideia com que fiquei do A. vai muito além da aparência. Naqueles poucos minutos que estivemos juntos, contou-me muitas das suas asneiras, mas o que ficou no final de contas foi a certeza de que encontrei alguém desligado das pré-conceções da sociedade, despregado de todas as limitações que nos dizem o que devemos ser e fazer.

 

O A. escolheu-se a si próprio de formas que muitos de nós não ousamos escolher. E além do preconceito fácil que é possível gerar automaticamente sem reflexão nenhuma, prefiro admirá-lo. Porque no gume da faca e no limite da corda banda, pareceu-me profundamente feliz.

 

 

 

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A dona Amélia e as suas compras

por Catarina d´Oliveira, em 19.06.14

Foi apenas há uns dias que me cruzei na rua com a dona Amélia.

 

Calhou num daqueles inícios de tarde infernais, da onda de calor insuportável que nos assolou a semana passada e que se foi embora tão depressa quanto chegou.

 

Dei por ela quando estava à espera da viragem de um sinal - vinha no sentido contrário do meu, e além de lutar com o carregamento de sacos muito mais pesados do que a sua idade e estatura deviam permitir, parecia-me uma senhora com genica e uma obstinação adorável em ainda retirar coisas boas da vida. Não estava enganada, mas já lá iremos.

 

Quando o sinal ficou verde, dei uma pequena corrida até ela e resolvi oferecer uma mãozinha: "boa tarde minha senhora... ora diga-me lá, não quer uma ajudinha com esses sacos? Mora perto daqui?". Endireitando um pouco a postura curva que tinha até então, a dona Amélia olhou para mim, sorriu e disse da forma mais amorosa de sempre: "oh minha querida... quanta simpatia. E olhe, vou aceitar, isto noutros tempos era uma coisa mais fácil de se fazer... mas também desconfio que entretanto tornaram as compras mais pesadas!".

 

Não pude deixar de rir enquanto lhe pegava nos sacos e ofereci o braço para que se amparasse em mim. Caminhámos pelo que me pareceram ser uns 10 minutos - a casa da dona Amélia não ficava longe, mas o respeito pelos pequenos passinhos que dava pela calçada (e pela vida) era imperativo.

 

Quando chegámos ao prédio azul claro, meio envelhecido, subi com ela até ao segundo andar para dar por terminada a missão do dia. "Oh minha querida... agora não a posso deixar sair sem pelo menos beber um leitinho e aceitar umas bolachinhas. Vá, faça-me lá a vontade".

 

Senti-me novamente uma criança de 8 anos, mais fui incapaz de não aceitar - não só para não ser rude, mas sobretudo porque o calor e amabilidade da dona Amélia me tinham impressionado desde aquele singelo momento em que nos cruzámos na passadeira.

 

"Vive sozinha?" perguntei a certa altura... a dona Amélia sorriu: "Deus me livre filha... não, não. Felizmente tenho ainda o meu marido comigo. Ele é que gosta sempre de tirar a tarde para ir um bocadinho ao café para estar com os amigos. E faz ele muito bem! Em tantos anos, precisamos sempre de umas pausas uns dos outros não acha?", disse-me ela enquanto acabava com uma pequena gargalhada.

 

[não tive oportunidade de tirar nenhuma fotografia neste dia, mas fica esta, QUE NÃO É MINHA, por propósitos de ilustração; imagem de Chrys Campos]

 

Nos poucos minutos que estive naquela casa, tive a oportunidade de percorrer uma série de fotografias que lá se encontravam. Gosto sempre de o fazer, mas especialmente neste caso, porque eram fotografias atípicas para a casa de um casal de idosos, onde costumamos encontrar retratos "rígidos" e quase tipo passe dos netos, dos filhos. Não... ali só encontrei fotografias de férias, de grandes grupos de pessoas a sorrir, de crianças em saltos acrobáticos para a piscina, da dona Amélia e do seu Joaquim a darem um beijo pela ocasião dos seus 40 anos de casamento.

 

Falei-lhe sobre esta diferença agradável que tinha notado e ela sorriu e encolheu os ombros: "são as únicas fotografias que me interessam, minha querida. Não preciso de ver os meus filhos e os meus netos com caras bonitas, e penteadinhos, e com as costas doridas numa cadeira horrorosa. Quero olhar para eles e vê-los felizes, a fazer o que gostam!".

 

Não pude deixar de concordar. É nisso que se baseia a vida. Nos momentos onde a contenção deixa de existir, e onde o prazer da partilha desfoca tudo à volta que não interessa realmente.

 

"Todos os dias agradeço a Deus porque tive uma vida muito feliz. E continuo a ter! Não julgue que por ser velha, não continuo a aproveitar! Ainda no ano passado fui com os meus filhos e netos para uma casa de férias que temos no Alentejo... e veja bem que esta velha ainda se foi enfiar na piscina! Ah... não há nada como aquele paraíso... e este ano vamos outra vez!".

 

Ainda conversamos mais um bom bocado. E ali fiquei em, com o cotovelo pousado na mesa e a mão no queixo, embevecida a ouvir as histórias da dona Amélia, que repetidamente me provavam o amor que tinha e continua a ter pela vida.

 

"Obrigada pelo lanche dona Amélia... e deixe que lhe diga uma coisa: é uma senhora toda p'rá frentex, e fiquei mesmo muito feliz de a conhecer. Nunca deixe de ter essa garra pela vida... Eu tenho 24 anos e vou daqui cheia de vontade de viver coisas novas por sua causa. Muito, mas muito obrigada".

 

Ela sorriu e respodeu-me com palavras muito mais simpáticas e enaltecedoras do que merecia ouvir. Desci os lances de escadas em corrida, com uma alegria renovada, e mal abri a porta da rua, aquele bafo diabólico de 35 graus voltou a abater-se sobre mim. Mas desta vez não me amoleceu, nem me fez perder o ânimo.

 

Tinha acabado de conhecer uma das inspirações que sei que vou levar comigo para toda a vida, e isso bastou para ter a certeza que, um dia, quando for a minha vez, também vou ter uma vida de boas histórias para contar, com fotografias e lembranças de felicidade e bondade espalhadas por todo o lado.

Está na altura de começar a trabalhar nisso!

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A dona Ivone aceitou as minhas flores

por Catarina d´Oliveira, em 23.04.14

Aproveitei que estava numa rua movimentada para comprar um ramo de flores. Pensei, motivada: "vou oferecer isto a alguém que não conheço, só para lhe alegrar um bocadinho o dia, com uma coisa bonita!".

 

De mochila às costas e ramo de flores na mão, comecei a andar à procura da 'pessoa' certa - na verdade ela não existe, mas que esperava genuinamente que, quem quer que fosse, não me desse um não redondo, logo à primeira.

 

Vi um casal adorável de senhores ingleses. Aproximei-me e mal tive tempo de articular as palavras... deviam pensar que ia vender ou pedir alguma coisa. Só tive tempo de, já meia de costas, lhes atirar "don't forget to love each other and be happy". Que coisa mais parva... estava a dizer a um casal de octogenários para se amarem, como se já não tivessem feito isso a vida toda, incluíndo naquele exato momento em que os abordei, quando estavam de mãos dadas a segredar qualquer coisa que parecia malandra.

 

Continuei em frente.

 

Voltei a aventurar com uma senhora que estava a sorrir - pessoas que sorriem são sempre um bom presságio. "Oh menina eu aceitava com muito gosto, mas vou andar aqui o dia todo... dê a alguém que vá para casa!".

 

Estava a ficar desmotivada, e o meu ramo era bem bonito... que diabo! Até que apareceu a Ivone.

 

Quando a abordei e lhe disse que queria apenas dar-lhe o ramo de flores para fazer algo simpático por alguém, deu uma gargalhada primeiro e disse que devia ter sido um apaixonado que me tinha dado aquilo, e que eu agora estava a tentar descartar. Fez-me rir, a observação, mas assegurei-lhe que não: que tinha comprado aquele ramo exclusivamente para dar a alguém que encontrasse e o quisesse aceitar, e aí não coube em si de contente.

 

 

"Oh minha querida! Já me alegrou o dia... que coisa tão linda!".

 

Falámos pouco, mas entre dois dedos de conversa, disse-me que a saúde não andava de ferro e que andava meia esquecida. Já com pressa, tive de vir embora mas ainda a ouvi chamar: "oh menina, como se chama?". "Catarina!", respondi.

 

"Que lindo nome, e que linda menina. Seja também muito feliz! E que Deus a ajude muito!".

 

Obrigada dona Ivone. Também me fez ganhar o dia. E pode andar esquecida, mas é bom ver que se lembra - como sempre - de ser feliz.

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