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Conversa Amiga #9

por Catarina d´Oliveira, em 26.10.15

Nunca gostei particularmente do número 9 e talvez por isso a minha nona saída para conversar não tenha sido tão boa como as outras. Ou talvez tenha sido por causa do tempo que só convidava a ficar em casa com uma manta a ver filmes. Ou, provavelmente, nada disto está relacionado e a minha noite - e o meu dia - foram menos bons porque tiveram de ser.

 

No entanto, não deixei de fazer o que sentia que devia, e saí de casa rumo à sessão.

 

Hoje não faltavam pessoas, mas faltava-me alguma alma, razão pela qual me tenha restringido à segurança de caras que já conheço relativamente.

 

Comecei por encontrar o senhor M. que parecia compactuar comigo nesta coisa das energias negativas do universo. Ele que anda sempre de sorriso de orelha em orelha e uma piada na ponta da língua, estava hoje mais retraído, com meios sorrisos e respostas menos espirituosas. Disse-me que estava mais ou menos, e respondi-lhe de volta com a honestidade que tinha que também não estava nos meus dias. A conversa não foi, de todo, longa, mas trocamos um enorme abraço que valeu por todas as palavras que ficaram por dizer.

 

SEM ABRIGO ESTAÇÃO ORIENTE.jpg

 

 

O resto da noite - além de uma pequena intervenção numa mini-zaragata que se deu por meros mal-entendidos, como de costume - passei-a com o bom e velho Mateus, também ele sintomaticamente diferente do que sempre o conheci. Pela primeira vez não entupiu o discurso de rimas e cantigas - apesar de as ter entoado, ocasionalmente - mas falou-me com a alma. Relembrou os tempos felizes com as gentes do teatro, mas foi a melancolia de um passado mais feliz do que o presente inseguro que dominou o resto da conversa.

 

Ficámos ali tempos e tempos, a refletir sobre o contraste entre os momentos de felicidade mais pura e o ar cortante da derrota ou esquecimento de outras glórias.

 

Senti que partilhei humanidade nesta noite, mas também tenho a certeza que não fui capaz de lhes dar o melhor de mim. Fica a promessa do regresso na próxima saída.

 

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Conversa Amiga #2

por Catarina d´Oliveira, em 16.04.15

 

Diz-se que, nas lides da arte teatral, o segundo espetáculo é sempre aquele que corre pior. Já tive o prazer de estar na pele de quem sobre ao palco e de atestar a inglória verdade desse facto.

 

No último sábado não subi a nenhum palco, mas à semelhança da exposição teatral, tentei, pela segunda vez, ajudar a melhorar a noite de pessoas a quem o tempo e a vida negligencía - não esquece, porque a ferida está lá sempre, mas desmazela-se no trato.

 

Reunimo-nos no sítio de sempre numa noite que estava menos fria do que a anterior e, não sei se por isso ou se auxiliada pelo desembaraço de já não ser a primeira vez, senti-me melhor, mais capaz e sobretudo, mais próxima daquelas pessoas que começo a conhecer.

 

Abri caminho por uma das pontas da estação, e a primeira figura que encontrei foi a do senhor M., sentado muito calmamente à espera da enfermeira que nos acompanha sempre nas saídas. "Então amigo, como é que está isso hoje?", pergunto com o maior sorriso que consigo arranjar e lembrando-me da formação que aconselha a não questionar "está bom?" - evidentemente, se estivesse, não estaria na rua.

 

O olhar dele é sereno, não exatamente triste, mas para me responder leva a mão ao maxilar. "Mais ou menos... tenho aqui uma dor de dentes que me tem atormentado a semana toda. Estes já são todos para arrancar". Assenti solidariamente - não há maçada equivalente a uma dor de dentes persistente. Mas os (vários) dedos de conversa que trocamos ao longo da mais de meia hora não se cingiram à malfadada maleita que apenas um especialista poderia resolver.

 

Com umas cores de fazer inveja, o senhor M. contou-me que era pedreiro, e que aquele bom ar era nada menos que um osso do ofício - um osso bicudo até, para quem não simpatiza com calor. Sorri e disse-lhe que não podíamos estar em maior desacordo, e expliquei-lhe como o sol era importante na minha vida. "Pois imagino... mas cá para mim não. Prefiro o frio. Mal vem o calor começo a ter problemas, de circulação e tudo. Eu é mais frio. Chuva não, mas frio sim".

 

A propósito da animada discussão meteorológica, e das oscilações que sentiu no processo, o senhor M. acabou por me contar um pedaço da sua entusiasmante aventura pelo Caminho de Santiago. "Conhecem-se pessoas muito boas pelo caminho. Algumas más também... mas muitas boas. E aprendemos muito com elas. Uma vez numa estalagem estive com uma senhora espanhola a noite toda a conversar e a ver as estrelas. Depois foi cada um para o seu canto e nunca mais a vi". Soma-se assim uma mão cheia de milhares de km nas pernas de gémeos musculados, e uma arca infindável de memórias que espero poder voltar a explorar em encontros futuros. Mas vamos com calma, uma noite de cada vez.

 

IMG_1277.JPG

 

Desejei-lhe as melhoras e uma noite descansada e prossegui mais um pouco até encontrar as minhas primeiras caras conhecidas. O famoso C. das charadas e a esposa M. que hoje vinha mais bem disposta e até me agraciou com dois beijinhos: "boa noite minha linda! É Catarina não é?" - é sim senhora!

 

Por ali perdi mais uns bons 45 minutos - com menos charadas do que na primeira noite, e mais histórias. Fiquei a perceber melhor a dinâmica da vida esforçada do casal - trabalham todos os dias sem exceção - e a ter uma melhor compreensão sobre como são vistos pelos outros, que somos nós. "Às vezes vou ali ao café e olham-me logo de lado porque já me conhecem. Noutra vez estava aqui em baixo com o Cris. a beber uma cerveja e umas raparigas afastaram-se logo porque devem ter achado que eramos bebados. Mas já não se pode beber uma??".

 

O preconceito está-nos entranhado, além da pele, no sangue.

 

Para o final da noite, voltaram as charadas, e senti-me orgulhosa por ser capaz de resolver duas - repetidas da primeira noite, é verdade, mas ainda assim...

 

Já a queimar os últimos cartuxos, ainda tive tempo de tirar cinco minutos para o senhor L. ou Serra, como costuma introduzir-se - sentado mesmo ao lado do senhor A. que segundo consta também apanhamos num dia de boa disposição excecional e que conta com um par de olhos dos mais bonitos que já vi. Quanto ao L., mantém-se sereno mas com uma boa disposição inimitável. Entre trocas simpáticas e uma apresentação que deu direito a beijinho na mão, lá partilhou a preocupação de uma vida polvilhada de doenças familiares. "É tudo muito difícil e muito triste... mas nós que ficamos cá temos de continuar a batalhar não é verdade?".

 

A estação começa a sossegar - quem tem quarto ou casa ausenta-se e quem chama àquele lugar casa começa a aninhar-se para uma dormida que terminará pelas 06:00, quando as luzes voltarem a ser acesas.

 

Nas próximas duas saídas não conseguirei estar presente com a Associação,  mas mal posso esperar por voltar a tentar fazê-los sentir um pouco mais em casa e na vida, tal como o fazem a mim.

 

 

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Um Sem Abrigo, Um Amigo

por Catarina d´Oliveira, em 24.03.15

Partilhar e ajudar, das formas a que estamos habituados, pode não parecer simples. Tanto porque aqueles euros podem (ou não) fazer falta no fim do mês, ou porque aquela comida pode (ou não) escassear no frigorífico se fizermos mal as contas, ou porque aquelas roupas podem (ou não) ser indispensáveis num dia mais frio, ou para um familiar mais necessitado.

 

Há sempre escapes, e, no fundo, desculpas. Mas há realmente uma enorme ausência de razões esfarrapadas que podemos dar para não oferecermos aos outros um pouco do nosso tempo. Não digo semanas, ou meses, mas umas horas. Porque juntando as horas de todos obtemos meses, e juntando meses obtemos anos, e juntando boa vontade e amizade ganhamos vida.

 

Foi com esse espírito que resolvi procurar organismos que me ajudassem a levar para a frente o caminho que decidi, há quase um ano (e muito tarde, eu sei), começar a trilhar sozinha.

 

Quem deseja ajudar com tempo, e presença, e humanidade, tem muitas opções, mas talvez o mais fácil, para começar, seja fazer o que eu fiz: inscrever-me no Banco de Voluntariado da minha área. Depois é esperar pela marcação da entrevista e, uma vez realizada, começar a receber propostas de acordo com as nossas áreas de interesse, que podem ir desde o apoio a doentes, a apoio escolar, acompanhamento de crianças, promoção de atividades desportivas, atividades com sem-abrigo, e muitas outras. Não faltam lugares por onde começar, o que falta mesmo é que tomemos a iniciativa de arregaçar as mangas.

 

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Uma das minhas próximas aventuras (e que começa já dia 28), vai ser com a Associação Conversa Amiga, uma das pequenas instituições que mais me inspirou por colmatar uma falha tão estrutural que existe no apoio à população sem-abrigo: já existe quem distribua comida e agasalhos... mas e conversa? E apoio emocional para combater a exclusão e a solidão? Bom, é isso que vou fazer com os meus colegas, duas vezes por mês, ao sábado à noite (não me digam que não têm tempo...).

 

 

As histórias que lá ouvir não poderei partilhar no todo, por respeito aos indivíduos (e individualidades) e à instituição que represento, mas relatarei, de modo lato, as aventuras que encontrar, as lições que aprender, e os anos que ganhar. Tudo com o intuito de continuar a inspirar quem aqui passa - e a mim também - a fazer mais e melhor, por si, e pelos outros, todos os dias.

 

 

Links Úteis

Mapa de Bancos de Voluntariado em Portugal

Associação Conversa Amiga

 

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